Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis


 
Blog do Léo Coutinho


#Pensa, Dilma!

Quando o debate sobre o Estatuto do Desarmamento começou a minha prima Mariana Montoro trabalhava no Instituto Sou da Paz, defendendo a proibição da posse de armas de fogo pelos cidadãos comuns, isto é, civis de modo geral, sem ligação alguma com segurança pública ou privada. Ela é bonita e articulada e foi a todos os programas de rádio, televisão e internet, falou ás revistas e jornais, num trabalho impecável – ainda que por acaso eu discordasse.

Ainda a Mariana, comunicativa que só ela, há muitos anos criou um grupo de troca de e-mails para toda a família, algo que arrisco apontar como a origem das redes sociais. Serve para a mesma coisa que o facebook, só que de forma mais conservadora. Enviamos convites, exibimos fotografias, pedimos socorro, oferecemos ajuda, trocamos ideias e, como não poderia ser diferente, algumas farpas. Em relação a estas últimas, reconheço, sou o maior culpado, praticamente uma chaminé de maria-fumaça.

Se é que serve como desculpa, somo à minha personalidade polêmica a frieza do teclado e daquele meu coração, que na época mofava sozinho no ermo úmido do Juquehy e era muito carente de conversa. Me encrenquei com um dos primos mais queridos, o Alexandre, por causa do governo Lula, e depois com a Mariana. Mas já está tudo superado. Hoje só arranjo confusão no facebook pegando no pé da diretoria do Paulistano.

Mas se eu fui contra a proibição das armas de fogo (no referendo, tive a lisonja de votar junto com o senador Pedro Piva, relator do estatuto) é pelo mesmo motivo que estou contra este Código Florestal. Não dá para imaginar uma regra só para um país de dimensões continentais como é o Brasil. Imaginar que o (ex!) dono do supermercado aqui em São Paulo pode manter um batalhão armado para proteger sua família e que um quitandeiro no interior do Pará não pode ter uma espingarda debaixo do balcão supera absurdo.

Da mesma maneira, não cabe botar na mesma saca a regra para produção agrícola do Sudeste que já foi todo explorado e a do Nordeste que também depende disso para se desenvolver. Também não dá para pensar em números absolutos a obrigação de reflorestamento para um sítio e para uma fazenda que se destaca no mapa. Igual a tudo na vida, precisamos lembrar de guardar as devidas proporções.

Anistiar todo mundo seria uma temeridade pelo próprio mau-exemplo. Tanto quanto impor de forma geral e indiscriminada a restauração de tudo o que foi destruído. Seria mais ou menos como destruir a 25 de Março para ter de volta o rio Tamanduateí ou perdoar os criminosos que abrem pastos incendiando a Floresta Amazônica.

Termino puxando a brasa para sardinha da família Montoro. O governador Franco Montoro, que tanto falou da importância da descentralização das decisões de governo, deve ser lembrado. Como ele dizia, as pessoas moram nas cidades, não na União, daí a urgência de ouvir o que elas querem, saber do que elas precisam, conhecer a realidade de cada região antes de tomar uma decisão do tamanho do Brasil. Pensa, Dilma!



Escrito por Léo Coutinho às 12h52
[] [envie esta mensagem] [ ]



Amor com alho

É uma história tão bonitinha e rara hoje em dia que eu vou chamar de milagre. Primeiro pela própria beleza e pelo fator inusitado. Depois porque não direi o nome dos santos, que afinal são elegantes e reservados em todos os aspectos de suas vidas, desde solteiros como agora namorando.

O romance começou no final do ano passado, numa praia perdida no Nordeste. Cada qual estava em sua casa, com sua turma, mas um churrasco os aproximou. E havendo na grelha além de carnes, alguns legumes, como cebolas, pimentões e abobrinhas, preparados por ele, ela se aproximou e sugeriu que uma cabeça de alho também ficaria bem sobre as brasas, no que foi prontamente atendida.

Como de costume nesses ambientes de paquera, onde as personalidades tendem ao arrefecimento e até a anulação em alguns casos mais graves, ninguém comeu do alho, a não ser, é claro, ela que sugeriu e ele que preparou. E o dia foi rolando. Quando a noite caiu a união do casal já estava consagrada espiritualmente, ainda que, em função dos possíveis vestígios do alho, ela receasse qualquer aproximação física.

Os abençoados que já viveram algo parecido sabem que a partir do encontro dos espíritos, a carne não sofre por esperar. Claro que anseia o beijo, os abraços e carinhos, mas não sofre a espera vulgar da atração que é só física. E um casal que começa assim está consolidado, é indissolúvel já antes do beijo, parafraseando o Nelson.

Sei que para a maioria das duplas que se vê hoje o que estou dizendo não faz o mais ralo sentido. Sim, porque hoje temos mais duplas do que casais. Nem parceiros são, porque parceiros se bastam e duplas precisam de mais gente envolvida.

Esta freguesia já deve ter reparado nas duplas de namoro que estão por aí. É como se todo interesse de um no outro fosse fazer fotos no final de semana para postar no facebook ou ter alguém para comparecer aos chamados eventos ou às famigeradas baladas. Quando estão sozinhos - e isto só ocorre por acidente ou desatenção - cada um está no seu telefone esperto interagindo com o resto da patota.

Que época mais triste. Na Belle Époque a turma vivia assim também, mas pelo menos ninguém era de ninguém, e a magreza do sentimento era compensado pela fartura de possibilidades da carne. Quem viu Meia Noite em Paris sabe do que estou falando. Foram mais de quarenta anos de um ágape sexual, quiçá fenômeno de fim de século que o hábito prorrogou e só uma guerra mindial foi capaz de destruir.

O que temos hoje é uma convivência imposta sem nada em troca. Os casais de verdade, que se bastam, são tidos como autistas. Os demais dependem de mais três ou quatro duplas para dar jogo. Quando um desmancha, o resto do bando todo acompanha. Se fosse bom viber assim, convivendo com pessoas que a vida trouxe, mas não foram escolhidas, as famílias fariam um Natal por mês. Quer dizer, não vai dar certo, aliás, já não está dando.

Daí que eu festejo emocionado sempre que um casal de verdade surge. Só não desejo vida longa, como um súdito faria ao seu rei, porque é inútil. Mais uma vez usando a escola rodrigueana, lembro que "todo amor é eterno; se acaba, não era amor".



Escrito por Léo Coutinho às 15h17
[] [envie esta mensagem] [ ]



Cidades novas - de São Carlos a Inhotim

Um sonho meu é construir ou simplesmente viver em uma cidade planejada. Como, apesar de tudo, é claro que a única solução para a humanidade é o adensamento populacional – que é o nome sofisticado para cidade – que estas sejam boas para a vida das pessoas. Temos que ter parques e praças, diversão e arte, transporte público atraente para todos, serviços, infra-estrutura. O difícil é conseguir instalar tudo isso num lugar que cresceu espontaneamente como São Paulo. Ou conseguir sustentar algo assim longe dos lugares que espontaneamente cresceram a partir das atividades econômicas que o mercado se desenvolveu.

No feriado de Tiradentes fui a Descalvado, terra do Laércio Gabrielli, a convite do Carlito Guimarães. Gostei do que chamei de Centro Histórico, especialmente da estação ferroviária, que sobrevive como cinema, mas o Lalá demorou para compreender meu ponto de vista, ou simplesmente ligar o nome à pessoa. São as construções notadamente antigas, os sobrados do começo do século passado que sobreviveram à sanha do monetarismo efêmero que destruiu tanta coisa boa sem a preocupação de ao menos manter o padrão original. E eles me contaram que a cidade cresceu muito, porém sem aumentar a população. É o fenômeno da automação no campo, que diminui muito a necessidade de mão de obra humana fazendo com que as pessoas mudem para as cidades.

Na véspera do 21 de Abril fomos almoçar em São Carlos, onde pude ver alguém que teve a oportunidade de planejar e executar uma cidade. É um certo Dahma, empreendedor local que está praticamente construindo um lugar para se viver. O município todo cresce muito e com qualidade a partir da instalação de universidades, que atraem empresas interessadas na mão de obra dos alunos, que gera a necessidade de crescer e, por sorte, há alguém como o Dahma, preocupado com a urbanização e em condições de investir. Fez núcleos residenciais, centros comerciais, clube, praças, parques, enfim. Não é exatamente o modelo dos meus sonhos, mas é de tirar o chapéu.

Um dado interessante sobre São Carlos é a porcentagem de doutores. No Brasil todo temos um doutor para cada quatro mil habitantes. Em São Carlos há um doutor para cada 160 moradores. Não é incrível?

Outra notícia boa de cidade que desponta planejada chegou hoje pelo Estadão, na entrevista que a Sonia Racy colheu com o Bernardo Paz, dono do Inhotim, em Minas Gerais. Há algum tempo ele fez uma palestra na Coelho da Fonseca e a Sonia foi a mediadora. Quando ele contou que dos mais de setecentos hectares da fazenda os jardins e pavilhões do instituto ocupam menos de cem, mesmo descontando os quatrocentos reservados para preservação ficou no ar a curiosidade: o que será feito dos duzentos restantes? E ele estando numa imobiliária, o palpite era meio óbvio: fará uma cidade, com centro de turismo, aeroporto, ala residencial, comercial, enfim. E este sim me parece um lugar bom para se viver. Se eu pudesse palpitar, diria para fazer as alas comercial e residencial bastante adensadas, deixando mais espaço para área verde de lazer e desde já a previsão de uma teia de aranha de bondes elétricos.

E se as cidades são a solução para a vida humana, ainda o Bernardo Paz trouxe mais uma solução: a super-alface, uma folha que terá muitos nutrientes, permitindo alimentar mais pessoas com menos alface per capita e pouca variação na área plantada. Boa notícia para quem come salada por obrigação, mas para quem é saladeiro como eu sou o horizonte é tenebroso. Sempre achei que um dia a falta de água doce fazia o caviar mais barato do que as saladas, mas nunca me levei a sério. Agora vem esse maluco e me dá razão.

E de São Carlos também trago uma noção interessante de sustentabilidade. Conheci um professor que, desdenhando dos ativistas ecológicos, prega que nada pode ser pior para o futuro do nosso planeta do que a insistência na procriação. Cada criança que nasce é um problema futuro para a natureza. E imediato também, porque já despontam produzindo mais do que o próprio peso em lixo. Pensem na quantidade de fraldas descartáveis. E como quem não tem filho geralmente arranja um cachorro, pensem na quantidade de coco embalado em saquinhos plásticos se amontoando nos aterros sanitários.

O mundo definitivamente não é fácil. Então que pelo menos seja gostoso como pode ser numa cidade boa.



Escrito por Léo Coutinho às 16h04
[] [envie esta mensagem] [ ]



Sonho e realidade

Acho difícil uma imagem que deponha mais a favor de um bairro do que senhoras idosas passeando tranquilamente seus netos e cachorrinhos de estimação pelas calçadas e praças. Aliás, uma praça de verdade, em São Paulo, já é suficiente para destacar qualquer paróquia. Mas o que eu queria dizer é que foi exatamente isso que eu vi na terça-feira em plena cracolândia, ou melhor, na Luz, que definitivamente deixou de merecer a alcunha. Era de noite e as velhinhas, os guris e os bichos estavam lá, entre a Estação da Luz e a Júlio Prestes, aonde eu fui ver o Peter Greenway no Fronteiras do Pensamento.

Cheguei por volta das oito horas, saí depois das dez e ainda aproveitei a estação República da linha amarela do Metrô para um capellini com camarões e rúcula no Bar da Dona Onça. Curiosamente, às vinte e duas horas o clima era mais quente do que o foi durante o dia. Cada vez entendo menos a meteorologia. Mas em relação ao clima social a afirmação também é válida. Na Luz, ao contrário dos bairros sofisticados onde o regime semi-aberto de prisão domiciliar vigora, as pessoas não se recolhem quando a noite cai. Há calor humano pelas ruas.

Mas o Peter Greeway é um sujeito interessante, com ótima verve e pinta de gênio reforçada pelas calças pula-brejo. Ele é um pintor que virou cineasta e parece saber tudo sobre ambas as artes. Enrolou, enrolou, e então confessou, ainda que subliminarmente, que seu desejo é fazer com luz o que o Picasso fez com tinta. Enquanto não descobre como, faz palestras ótimas, provocantes, divertidas, bem ilustradas.

A idéia do cubismo cinematográfico, da forma que ele propõe, com telas diversas, não me convenceu. Até que o argumento é instigante: da maneira em que estão posicionados nossos olhos desperdiçam dois terços das imagens ao redor da cabeça. Mas não passa disso, afinal, quem vai ao cinema espera saber o olhar do diretor, que é quem deve se virar para captar as imagens que importam.

Ele também propõe que o cinema não é cinema, mas texto ilustrado; que os atores não são de confiança, embora fundamentais para dar vida ao texto; entre outras provocações que podem escapar para qualquer lado. Quem optar por concordar, pode rebater com o cinema documentário, onde os personagens são reais e as falas espontâneas, e notar que se no passado parecia uma chatice tremenda, cada vez mais são emocionantes. Talvez depois de tanto sonhar o mundo esteja carente de realidade.

De qualquer maneira, o melhor artista é sempre aquele que consegue fazer o sonho parecer real. É o tal sonho que se sonha junto e vira realidade. Igual a volta das velhinhas, dos cachorros e das crianças à Nova Luz.

crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br



Escrito por Léo Coutinho às 11h02
[] [envie esta mensagem] [ ]



Dica do Blog


Bacalhau na caçarola da Dona Onça - amanhã é dia



Escrito por Léo Coutinho às 16h46
[] [envie esta mensagem] [ ]



O adolescente de setenta anos

E esta semana gloriosa que parecia impossível de ser ainda melhor depois da vitória do Santos e a derrota do Sarkozy, ontem ganhou uma cereja: o infeliz do Abílio Diniz dizendo que pede a Deus em suas orações uma solução no caso do francês. Não é uma maravilha? Sendo idoso, o nego tem saúde física, dinheiro e filhos pequenos para curtir, mas continua condenado ao negócio. Deve ser praga dos tantos que ele deixou pela trilha da vida, assim como teria deixado o francês presidente do grupo que o socorreu há mais ou menos dez anos.

Ele merece esta sina. Sendo idoso, tem saúde física, filhos pequenos e dinheiro que não acaba mais. Mas não tem paz. É intelectual e espiritualmente enfermo, e por isso sofre. Bem feito. Pela primeira vez estou gostando daquela propaganda nazista que ele mantém no Lago do Ibirapuera disfarçada de filantropia. A partir do mês que vem, quando o Jean-Charles Naouri, presidente do Casino assumir do controle do Pão de Açúcar, vou festejar sempre que passar por ali imaginando que o tirano está obrigado a ver o logotipo que jorra da fonte e lembrar que um dia foi seu, todo seu, absolutamente seu e de mais ninguém. Foi-o.

E há nesta minha alegria também outro motivo, que é pessoal: uma pesquisa avisou que a adolescência está aumentando nas duas pontas. Quer dizer, a gente deixa de ser criança mais cedo e demora mais para virar adulto. Antigamente, de um adolescente comentava-se que espichou. Agora quem espicha é a adolescência.

Pois é, mas nada obstando o Amartya Sen, inventor do índice de desenvolvimento humano, ter passado pelo Brasil ensinando que não se mede o progresso das pessoas através de indicadores financeiros, os pesquisadores usaram a autonomia financeira para definir a fronteira entre a adolescência e a fase adulta.

Eu, que ainda moro com a mamãe e sempre que posso mordo algum dela, me senti ofendido. Se alguém nesta freguesia se solidarizou, agradeço e adianto que já passou. Até porque poderia ser muito pior: se a minha mãe fosse rica eu poderia estar até mais viciado no mingau; fosse pobre eu teria me curvado a tantos chefes babacas que a vida me impôs. Desta maneira moderada, subsidiando uma coisinha aqui e outra ali, conseguimos um equilíbrio que, quero crer, me fez uma pessoa melhor do que eu poderia ter sido de outra maneira.

Mas e o Abílio com isso? Ora, para mim o exemplo de adolescente, com todos os achaques da adolescência, todo o egoísmo e a insegurança da puberdade mora nele. De que adianta nascer, crescer e setenta anos e alguns bilhões de dólares depois você continuar se comportando como o dono da bola, que se não puder jogar quer leva-la embora?

Posso imaginar o pobre – isto mesmo, pobre – diabo diante do espelho, caçando espinhas imaginárias no fundo das rugas que marcam aquela cara que não tem vergonha, podre como o retrato de Dorian Gray, depois de tudo pedir a Deus ajuda numa tentativa de malfeito. Ah, que maravilha!



Escrito por Léo Coutinho às 16h37
[] [envie esta mensagem] [ ]



Luar e furacão

Na segunda-feira fui ao Mercearia ver a abertura da exposição da Maria Magano e encontrei o Marcelo Casarini, o que é sempre um presente para quem gosta de bebida e conversa. Ele é um fã da Virada Cultural e quis saber o que eu tinha feito. “Fui à praia”, respondi. Gosto da ideia da Virada, mas não posso com aglomeração, então fico impedido. Além do que a novidade, que eram os quitutes no Minhocão, do Dona Onça, do Nakombi, eu já aproveito cotidianamente. E a galinhada tão cobiçada do Alex Atala não me animou, mas porque eu já tinha outra programada para o domingo, feita para comemorar o aniversário da tia Helena Fonseca, a vitória do Santos e a derrota do Sarkozy.

Abro parênteses para falar da Maria, estrela da nossa seleção de snowboarders, que veio de Andorra para mostrar no Mercearia telas e cúpulas de abajur cheias de aventura, sensualidade e graça. Fica até domingo, depois não sei se volta para Andorra. O que sei e não me canso de festejar é que o novo co-príncipe de lá é o François Hollande.

O final de semana que passou em Juquehy marcou o início da fase boa de praia: menos calor, mosquitos e pessoas. Quer dizer, sempre estamos arriscados a qualquer um deles, mas é notável que a incidência diminui muito. E até os congestionamentos, que parecem não ter mais fim, acabam aliviando um pouco.

Os fenômenos naturais também estiveram por lá: uma lua gigantesca que chegava a fazer sombra na areia e, no domingo, algo que alguns acreditam ter sido um furacãozinho que se formou no Montão de Trigo e em um minuto chegou a Juquehy, varrendo oitocentos metros de praia, destelhando casas e derrubando mais de trinta árvores.

E se o arroz de domingo foi de galinha, no de sábado, na varanda do Gulero, tinha lulas e palmito crocante. Daquela fui para a varanda de casa, onde fiquei pensando, não sei por que, nesse conceito de esquerda e direita, que afinal é ultrapassado. A única atualização boa é a do Antonio Prata, que soube definir coisas diversas de acordo com a ideia velha. Mostarda, por exemplo, é de esquerda; catchup, de direita. Depois pensei que o Fábio Júnior é de direita e o Caetano de esquerda. Mas acho que isso é fruto da minha implicância com o baiano, que como intérprete supera o colega. Nas composições estão na mesma linha. E agora fico pensando na lua: é claro que ela é de esquerda e o sol é de direita, mas só depois da alvorada e antes do poente, que são de centro. Furacão é revolução, pode vir de qualquer lado. 



Escrito por Léo Coutinho às 13h38
[] [envie esta mensagem] [ ]



Waterfall é cachoeira

É sempre um perigo falar dela, notadamente quando o assunto passa por uma língua estrangeira, mas eu não aprendo e vou arriscar mais uma vez: minha mãe querida gostava de pregar uma peça nas amigas, escapando do circuito chique de compras e descobrindo roupas e acessórios na João Cachoeira, que há vinte anos era um lugar distante. Confiando que nenhuma de suas amigas andava por lá, quando perguntada sobre a procedência da indumentária respondia: - “John Waterfall”. E colava, porque o meu pai, que foi marido dela, viaja mais que a Lusitana.

Conta o Julinho Toledo Piza que o João Cachoeira, funcionário da chácara do Doutor Leopoldo Couto de Magalhães, o Bibi, mereceu este apelido porque era bastante chegado num gole. Esta freguesia nota que é coisa de gente antiga na cidade e não cabe a gente questionar. Vamos tratar do Cachoeira contemporâneo, que é o Carlinhos lá do Goiás.

Ontem na academia, vendo o Manhattan Connection para amenizar o tédio sobre a esteira, fiquei sabendo que um jornal novaiorquino traduziu a alcunha do nosso contraventor da vez para Charlie Waterfalls, igual fazia a minha mãe. Com o Diogo Mainardi falando de Veneza, o Lucas Mendes aproveitou para saber como seria em italiano: - “Carletto Cascata”, disparou o Diogo.

É lamentável esta situação do jogo proibido no Brasil. No lugar de garçons bem treinados, bartenders de primeira linha, artistas se apresentando, temos delegados enriquecendo ilicitamente, senadores bebendo vinhos de trinta mil dólares a garrafa, governadores constrangidos e até suspeita sobre trocas de favores na nomeação de ministros para a corte mais alta da República. Estamos Fux, com trocadilho. Quer dizer, Congresso, Supremo e Planalto na arca do Jogo do Bicho.

Se no tempo em que minha mãe fazia a tradução engraçadinha a João Cachoeira ficava longe, a Anápolis do Carlinhos nem existia. Notícias do Goiás só chegavam ao Rio e a São Paulo por causa do Distrito Federal e, vá lá, do Leandro e Leonardo – sendo a dupla restrita a SP. Agora, feito um Noé que não precisa de mar para navegar, o banqueiro zoológico do sertão ganhou o mundo.

Não sei se é a vastidão do escândalo, a nova posição do Brasil no cenário mundial ou as duas coisas. Fato é que estão falando da gente e estão falando mal. Corrupção há no mundo inteiro. Corrupção e outras cretinices de quem deveria servir de exemplo. Vide o rei de Espanha caçando elefantes. Ou a lambança dos agentes secretos americanos em Cartagena. Exemplos chegam quase que diariamente. Mas para mim, o mais constrangedor, ainda que o Procurador Geral da República não veja problema na relação de amizade, são as imagens da turma do guardanapo se divertindo em Paris. O Sérgio Cabral, governador do estado que é o nosso cartão de visitas, com secretários do seu governo e o empreiteiro maldito da vez Fernando Cavendish, se não têm vergonha na cara, poderiam ao menos nos poupar desta sensação que chamam “vergonha alheia”. Para um ridículo desse tamanho não existe nome e muito menos tradução.



Escrito por Léo Coutinho às 15h38
[] [envie esta mensagem] [ ]



Le Neymar est grand

O Santos ganhou, o Sarkozy perdeu e é impossível alguém estar mais contente do que eu. Neymar comeu a bola, François comeu as urnas. Salve o Glorioso Alvinegro Praiano! Vive la France!

Curiosamente eu sofri preconceito tanto contra o vitorioso Neymar da Silva Santos Júnior quanto contra o derrotado Nicolas Paul Stéphane Sarközy de Nagy-Bosca. No primeiro tudo me incomodava, do penteado à postura, das meias à dancinha comemorativa, das declarações à estratégia de cair a cada zagueiro encontrado. Mas ele melhorou em tudo e eu também: hoje relevo as meias e o penteado, entendo que dentro do quadro geral a postura é a melhor possível e ontem ele só caiu à toa comemorando o terceiro gol a la boneco de Olinda, largado, leve e exausto, com a espontaneidade natural de quem não está fazendo pose. É, como ele mesmo diz, um menino brincando com sua bola, e isso fica claro quando devolve o brinquedo ao adversário que ganhou a cobrança lateral no grito, fazendo embaixadinhas com a cabeça, se divertindo, sem querer provocar ninguém, num momento de beleza singela.

Contra o pigmeu francês meu primeiro preconceito é por causa do saltinho carrapeta, esta peruca de calçar. Deste ainda não me livrei, ou pelo menos não em relação a ele, porque no Jorginho Guinle eu acho que ficava bacana. Outra coisa que me faz desgostar antes de conhecer a pessoa é a notícia confessa de que ele não gosta de vinho, não gosta de queijos fortes nem de trufas. Gosta de coca-cola e de charutos enormes – os pequenos ele deve odiar como ao espelho. Da mesma maneira este filho de apátrida que a França acolheu, sendo casado com uma modelo italiana, detesta e faz campanha contra imigrantes.  E igual a todo baixinho, não perde uma guerra, ainda que sua única possibilidade seja manda recados.

De qualquer maneira, já sofri muito por causa dos meus preconceitos e todo meu esforço hoje em dia vai no sentido de elimina-los. Até diante de quem come de catchup eu já não me incomodo. Ou quase. A Lei Anti-fumo me ajudou a perdoar as meninas que fumam na rua, desde que estejam paradas ou quase parando. Gente que fuma e anda apressada ao mesmo tempo continuo não suportando, creio que muito mais pela pressa do que pelo fumo. E quando o Helito Bastos diz que vai à Barra, referindo-se à Barra do Una, sinto um nó nas entranhas. Me lembra a Barra da Tijuca, cuja existência lamento tanto, e também foge às minhas referências mais verdes, dos meus pais e amigos dele dizendo simplesmente Una. Não é fácil.

Por essas e outras é que acredito que quem sofre o preconceito é o preconceituoso. Discriminação é outra coisa. O preconceito é um fardo que carregamos, uma burrice, uma pobreza de diabo.

Vejam vocês que infelicidade a dos moradores do Jardim Paulista que para aproveitar as delícias do Ritz têm que descer (sem preconceito) ao Itaim. É bem verdade que a maioria do público na matriz da Alameda Franca parece gay, mas e daí? A gente vai lá para comer o hamburger, não a freguesia. Enfrentar carro, trânsito, serviço de manobrista só porque alguém pode passar e ver, ou porque pode haver alguém mais afetado na mesa ao lado é duma cretinice  sem tamanho, e a pena é o congestionamento do Itaim – onde, por sinal, sobra gente afetada de todas as modalidades.

Outra delícia do bairro onde eu nasci e só recentemente comecei a usar é o Parque Trianon. Nas minhas idas semanais ao programa do Microfone Aberto, do Marcos Calazans na rádio homônima, faço questão de passar pelas alamedas de Mata Atlântica genuína na ida e na volta. E vejo como fui bobo por comprar sem saber as histórias idiotas que nos vendem. Sorte de quem trabalha na região, estuda no Dante ou mesmo mora por ali e pode, como eu, aproveitar o passeio, a sombra e a tranquilidade improvável daquele lugar mágico.

Trianon, Ritz, França. E, pensando bem, Neymar não soa algo francês?Acho que vou comemorar o tri do Santos na Ilha Porchat e acender um charuto pequeno com o briquete que ganhei da minha Neguinha.



Escrito por Léo Coutinho às 15h18
[] [envie esta mensagem] [ ]



Reduzindo o celular

Além de nunca ter fumado, ontem o Luís Fernando Veríssimo declarou que nunca teve e nunca terá telefone celular. Arre gauchinho invejável! Se do primeiro vício ele escapou ainda rapaz por desconfiar que esse negócio de engolir fumaça não poderia dar certo, do segundo, já adulto, se livrou porque ouviu dizer que as microondas do celular destroem o cérebro aos poucos, e prevê um futuro curioso para o pessoal da resistência: serão os únicos capazes de um raciocínio ou de uma frase completa, e se comunicarão por... sinais de fumaça. Mas é claro que não de tabaco.

E ele traça mais um paralelo entre o celular e o fumo. Diz que se os fumantes invadem o espaço aéreo com sua fumaça indesejada, os usuários do celular fazem a mesma coisa com detalhes íntimos da própria vida – que também pode ser tóxicos. Para mim, neste caso, o celular é pior do que o cigarro. Para começar ainda não existem áreas específicas para fazer telefonemas. As pessoas são capazes de atender e até mesmo de fazer chamadas nos lugares mais impróprios, como à mesa de jantar ou durante uma visita a um amigo enfermo. Outra: passeando pelas calçadas, os fumantes só incomodam se estiverem à sua frente, enquanto quem fala ao celular pode incomodar até do outro lado da rua.

E por falar em vícios, talvez a bebida seja mais apropriada numa comparação com a telefonia celular. Eu, que estou reduzindo e tentando eliminar o celular da minha vida, muitas vezes sou incompreendido, mais ou menos como quem comparece a uma festa durante um período de abstinência se vê obrigado a inventar desculpas para não beber. Nos finais de semana, por exemplo, deixo o telefone em casa. Fora do horário tido como de expediente, estando já com a minha Neguinha, coloco na função silencioso. É o que basta para ouvir lamentos terríveis de amigos que ficam magoados, como se fosse pessoal o fato de eu preferir não estar 24 horas no ar disponível feito uma aeromoça. Meu pai, no sábado passado, quase teve um ataque porque eu me atrasei quinze minutos para a feijoada sem atender aos seus chamados aflitos – e notem que se há uma cuca fresca é aquela. Se não fosse a simpatia e os croquetes oferecidos pelo Luizinho Chaib, não sei o que seria dele.

Voltando ao cigarro, se eu pudesse controlar meu ímpeto e acende-los só nos momentos em que tenho vontade de verdade, nunca teria parado. O problema é que basta um hiato, uma vírgula no dia para tirar um do bolso. Com o celular é a mesma coisa. No Metrô, na espera do dentista, na calçada da namorada, é automático: todos sacam o telefone. Para quê? Para nada.

A sensação de idiotice se agrava quando chega a conta no final do mês. As mais espartanas correspondem, no mínimo, a um jantar gostoso, uma gravata nova, quatro arranjos de flores para casa, um por semana. E quando algum amigo que mora no primeiro mundo conta que lá ninguém mais gasta com telefonia, que o skipe e o Google já resolvem tudo e praticamente de graça, dá vontade de jogar o aparelho pela janela. Mas não convém, porque além de tudo eles são extremamente nocivos ao meio-ambiente.

crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br



Escrito por Léo Coutinho às 16h41
[] [envie esta mensagem] [ ]



Nós vamos acabar antes

No dia de São Jorge assassinaram a tiros um jornalista na cidade de São Luis do Maranhão. Décio Sá, do jornal O Estado do Maranhão, foi o quarto profissional de imprensa calado a balas em função do exercício de sua profissão, trazendo para o Brasil a liderança sulamericana de um ranking macabro, mas concorrido.

É o que nos diz o Eugênio Bucci em seu artigo no Estadão de hoje. No México, a guerrilha gerada pelo tráfico de drogas matou seis mil pessoas só em 2011 e os repórteres e editores que ousam denunciar a calamidade social são ameaçados diariamente, chegando a receber tiros de AK-47 nas fachadas de suas casas. O resultado é bastante eficiente: os jornais agora se prestam apenas para cobrir os cadáveres nas ruas, mas sobre o assunto não pingam uma escassa letra, como diria o Nelson Rodrigues, testemunha ocular da morte do irmão num atentado que seria contra seu pai, ocorrido há décadas, mas que num absurdo inimaginável permanece atual.

A criminalização das drogas, do jogo, das casas de prostituição e das clínicas de aborto parecem questões paralelas à liberdade de imprensa, mas não são. Quando o crime organizado é investigado, não demora a aparecerem autoridades dos três poderes envolvidas. O Cachoeira serve de exemplo: começou com um senador, já há governadores e contratos com o governo federal sob suspeita, juízes e, é claro, policiais, inclusive aquele estrelado, ora deputado, que em sua mais nova cruzada quer calar duas das principais revistas do país. E é fácil entender por que. Jornalistas não são mais honestos que políticos, juízes, policiais ou qualquer autoridade. A diferença é que a imprensa tem que ser eleita, tem que construir sua reputação diariamente. Não pode ficar calada enquanto berra a voz rouca das ruas.

A censura, seja imposta pelo poder oficial ou pelo paralelo, é a pior violência que pode acontecer. A primeira vontade de qualquer tirano é controlar a informação – o resto vem a reboque.

No Brasil, parece que trocamos uma pela outra. Saiu a ditadura oficial, entrou a paralela. O segundo parágrafo do Eugênio é esclarecedor: “Dois suspeitos de serem cúmplices do assassinato de Décio Sá estão presos, mas a impunidade não está afastada. Ao contrário. O histórico das investigações policiais não é positivo em geral. Quando o assunto é homicídio de jornalistas, é francamente negativo. Segundo um levantamento recente - que não leva em conta os casos de 2012 -, nos últimos 20 anos 70% desses assassinatos não foram esclarecidos. Contra a imprensa, o crime compensa. Traficantes de drogas, chefes de milícias e autoridades corruptas se revezam na lista de mandantes, mas a polícia não consegue encarcerá-los e a Justiça raramente chega a julgá-los.”

Alguém há de dizer que este é apenas um extrato da realidade social restrito a jornalistas, ou que a Justiça não consegue taxas melhores quando todos nós entramos na conta. Mas não é verdade. Os crimes de encomenda e os passionais são os poucos que acabam esclarecidos. E é claro que este não acontecem exclusivamente contra jornalistas. Pode acontecer com todo mundo: prefeito do ABC, garçom, legista, perito, qualquer um. Mas quando as autoridades parecem ter perdido o interesse em apurar, só nos resta a imprensa em sua saga diária. Sem ela, estaremos sós. E de certa maneira, acabaremos antes do que os jornais.



Escrito por Léo Coutinho às 17h21
[] [envie esta mensagem] [ ]



Dica do blog - clique na imagem



Escrito por Léo Coutinho às 17h10
[] [envie esta mensagem] [ ]



Grande Prêmio São Paulo - as eleições e o turfe

Em tempos de jogo e política misturados, vou me valer do turfe para pensar na corrida eleitoral paulistana deste ano. Não entendo de jogo nenhum, mas já vi no cinema e ouvi em conversa de bar que a recompensa da banca para o jogador é inversamente proporcional à chance que o cavalo escolhido tem de chegar na frente. Quer dizer, o animal favorito, tamanha a barbada, pode chegar a simplesmente trocar dinheiro, pagando um real de prêmio para cada real apostado. Já o pangaré, aquele azarão, sem nenhuma chance, se virar zebra e vencer o páreo, é o que mais vai pagar. É a relação dificuldade recompensa, igual a tudo na vida.

O favorito este ano é o tucano José Serra. Como bem disse a Dora Kramer hoje, ele tem quase a obrigação de vencer, porque para o PSDB a eleição é um jogo de vida ou morte. Se perder São Paulo para o petismo ou seja lá quem for, o golpe será mortal.

O azarão é o candidato petista, Fernando Haddad, e é assim que ainda a nossa rainha do frevo e do maracatu da análise política enxerga o páreo. E tanto que os petistas estão tratando de amainar a expectativa em torno do potencial do Lula em transferir popularidade, espalhando a tese do “se colar, colou”, e já falam tranquilamente em salvar a aposta com o placê.

Placê, no turfe, é um tipo de risco combinado. O jogador aposta num cavalo com poucas chances de vitória, mas para proteger seu capital bota mais um troco no segundo colocado, que é o placê. No caso da corrida paulistana, o placê é o peemedebista Gabriel Chalita, filho de Cachoeira, sem trocadilho com o bicheiro.

PT e PMDB já são sócios no governo federal e também podem ser em São Paulo. A única coisa que explica não estarem juntos na mesma sela desde a largada é a teoria do placê: tanto para um quanto para o outro, o segundo lugar diminui a chance de acabar o páreo com as mãos abanando.

Ah, nas cocheiras dos hipódromos existem muitos tipos de cavalo, e um deles é o chamado cavalo paraguaio, aquele que na largada dispara e surpreende a todos, mas não tem fôlego para continuar assim até o final. Este ano o cavalo paraguaio tem tudo para ser o Fernando Haddad, que de ilustre desconhecido vai a 25 ou trinta por cento das intenções de voto nas primeiras semana de campanha na TV, que é a fatia histórica do PT em São Paulo. Vai assustar, dirão que é um fenômeno, mas depois de dez dias de estagnação os ânimos voltarão à realidade.

O papel do favorito, se quiser vencer, é não se assustar e continuar correndo como sabe, sem perder o ritmo, que desvirtua o desempenho e pode botar tudo a perder. Mas desde já, o ideal é emagrecer o jockey, que é aquele homenzinho de roupa colorida que vai sobre a sela. Quando mais leve ele for, maiores as chances de vitória.

É aí que entra o atual prefeito, Gilberto Kassab. Com o peso da rejeição que conseguiu amealhar desde que foi reeleito e resolveu imprimir sua marca de gestão, faria muito bem ao cavalo tucano ficando fora da chapa, apoiando sem querer acenar da garupa. Seria bom para o Serra, que evitaria o constrangimento de ter que defender a todo momento um prefeito impopular, e bom para o próprio Kassab, que mostraria a todos que para ele mais importante que a sobrevivência do seu partido é a cidade de São Paulo ficar livre das garras petistas. Esta é a principal diferença entre o eleitor e o prefeito: todos entendem que para fazer o partido ele negligenciou a administração da cidade. Com o gesto de desprendimento, abrindo mão da escolha do vice de José Serra, ele faria um favor imenso à cidade e à própria biografia.



Escrito por Léo Coutinho às 17h24
[] [envie esta mensagem] [ ]



A cidade e as serras

Minha ideia para 2012 era reler o Nelson Rodrigues. Este é o ano do centenário do nosso Flor de Obsessão e nada mais coerente do que acatar seu conselho e reler as coisas que a gente gosta. Ele dizia que a primeira leitura é a releitura, e por via das dúvidas repetia, repetia, repetia opiniões, piadas, e principalmente metáforas caprichadas. Estava certo: a maioria entrou está na boca do povo. Mas como ele também nunca primou pela coerência, acredito que estou perdoado por às vésperas do quinto mês do ano ainda não ter reaberto Engraçadinha, Perdoa-me por me traíres, A vida como ela é.

Desviei no Eça de Queiroz. Passou o Primo Basílio na minha frente e não resisti. Logo em seguida, acatando a indicação do José Manuel Castro Santos, que já marcara muitos pontos como livreiro me emprestando as crônicas do Churchill que o Carlos Lacerda traduziu como Minha Mocidade, fui buscar A cidade e as serras. O José Manuel estava no Paulistano, sentado debaixo do retrato do Antonio Prado Júnior, e falava de outro Prado, o Eduardo, que segundo ele quase levou à falência a Dona Veridiana e os Prado todos com suas farras na Paris do final do século XIX, que só se salvaram casando com os Penteado, ancestrais do meu treinador literário. Na História vale o que diz o Ronaldo Caiado: - “Reforma agrária se faz na cama”.

O estilo de vida que inspirou o Eça de Queiroz a escrever A cidade e as serras não era exclusivo do Eduardo Prado, mas comum a inúmeros milionários estrangeiros que foram a Paris viver a Belle Époque. E o Jacinto de Thormes provavelmente só era português para facilitar a imagem das serras conterrâneas do autor.

A implicância do Eça era com a frivolidade dos entusiastas da efervescência artística, intelectual e tecnológica, que prejudicava a essência das próprias vidas e dos milhares de pobres que sobreviviam em condições subumanas para sustentar a farra. Estresse, poluição, desânimo e outros males das cidades já afligiam as pessoas há mais de cem anos, assim como as singelezas das serras já encantava a todos. Mas o inverso também é verdadeiro, e apesar de tendencioso e até algo cínico, o livro não omite as dores e delícias de cada realidade. Implacável mesmo só com a frivolidade.

Um Jacinto de Thormes vivendo na São Paulo contemporânea teria um aparelho de som da maior fidelidade para ouvir música eletrônica, um carro esporte com centenas de cavalos para andar em ruas e estradas congestionadas, milhares de dinheiros dormindo numa adega, relógios de pulso usados no bolso por medo de assalto e um frisson irrefreável por conta do último i qualquer coisa da Apple nada obstando a conexão da internet brasileira estar duas ou três gerações atrasadas.

A freguesa e o freguês desta página já devem ter reconhecido alguns Jacintos e Jacintas entre os seus e até em si mesmos, porque é assim que somos levados a viver. Há crianças e cachorros com agenda regular, celebrações em torno de produtos, cozinhas sem cheiro de comida, necessidades absolutamente supérfluas.

Negar as facilidades e o desenvolvimento que as cidades trouxeram seria tolo. Mas é claro que a gente exagerou. A esperança é que para não esquecer o cheiro do feijão ficando pronto e se espalhando pela casa, a luz do sol nascendo ou caindo e como ficam as crianças fora das grades e os cachorros soltos das guias a gente não dependa, como os Prado, de casamentos com ruralistas, e muito menos de algum aplicativo para celular.

crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br



Escrito por Léo Coutinho às 12h33
[] [envie esta mensagem] [ ]



Bebedeiras e cafajestadas

Em memória do Dicró
com a colaboração do Edu Castro

Guilherme do Val responde à sua mãe, que quer saber onde ele estava: - “Na putaria, mamãe”. – “Ooonde, Guigui?” – “Na putaria, mamãe! Fui pedir a chave para abrir a quadra de tênis.” – “Ah, tá. Portaria, Guigui, você foi à pooortaria”.

Zé do Pé descobre está e Pedro Juan Caballero com amigos boiadeiros e descobre que um deles descobriu e comprou uma faca Smith-Wesson para presentear o pai em São Paulo. Encantado com a novidade, não descansou enquanto não ficou com o presente. Já em São Paulo, este amigo vai visitar o pai de mãos abanando, e o velho: - “Veja só, meu filho, como é distinto o Zé do Pé. Da viagem que vocês fizeram ele me trouxe um presente que eu nem sabia que existia. Olha aqui, uma faca Smith-Wesson.”

Sebastião Eduardo de Castro, há muitos anos, está voltando do bar para casa e dirigindo o próprio carro, quando é abordado pela polícia. E o guarda quer saber aonde ele está indo. – “Estou a caminho de uma palestra, seu guarda, sobre os efeitos do álcool e do fumo no corpo humano. O impacto nocivo de ambos na vida conjugal e no trabalho, os efeitos degenerativos que ambos causam no organismo, os perigos de dirigir sob o efeito de tais substâncias”. E o guarda: - “É mesmo? Mas quem poderia dar uma palestra dessas às duas horas da manhã?” E o Edu: - “A minha mulher, seu guarda”.

Zé do Pé é convidado para a ceia de Natal na casa da mãe do Julinho Toledo Piza. Aceita e pergunta se pode levar uma namorada. Surpreendida com a pergunta vinda de um solteiro convicto, a dona da casa quer saber o nome da moça, ‘para botar na árvore uma lembrancinha para ela”, e o Zé responde. No dia, depois da ceia, já bastante adiantado no uísque, o Zé decide ir embora e a “namorada” consente e pede licença para ir “lá dentro” buscar sua bolsa. E o Zé: - “Só a sua, hem?”

Dicró responde a um jornalista que quer sua opinião sobre o Cristo Redentor disputar a posição de Oitava Maravilha do Mundo: - "Para mim a oitava é o Piscinão de Ramos. E a nona o Cemitério de Inhaúma." - "Cuma?!", engasga o repórter. E o já saudoso Dicró: - "É onde está enterrada a minha sogra."



Escrito por Léo Coutinho às 16h40
[] [envie esta mensagem] [ ]




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]