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Blog do Léo Coutinho


Novo endereço

Freguesia caríssima, este blog mudou para um endereço novo. Criado há sete anos por sugestão da Fefê Suplicy para funcionar como um HD externo ou uma nuvem, como dizemos hoje, e armazenar textos escritos eventualmente, de 2009 para cá, inspirado por uma conversa entre o Guga Chacra e o Antonio Prata sobre regularidade de postagens em blogs, comecei escrever e publicar diariamente. O efeito não poderia ter sido melhor: o exercício me deu uma profissão e um norte, me explicou o que eu queria fazer da minha vida profissional. É isto: escrever. Posso me envolver pontualmente em outras atividades, mas quero ganhar a vida escrevendo.

E o espaço foi esgotado. Este blog gratuito do UOL tem limitações, entre as quais o espaço do banco de dados. Por isso com a ajuda dos irmãos Diego e Caio Senra, da Heavy Weigth Design, criei um site onde vou manter o corpo e o espírito do blog, mas com vantagens técnicas diversas, que começam com o endereço mais simples, passa pela possibilidade de taguear, organizar por categorias, compartilhar nas redes sociais e evolui até a chance de receber patrocínio de empresas e doações de leitores.

Tenho que agradecer a muita gente e é claro que a memória vai me trair. Mas a condição reciclável do blog autoriza a ousadia, porque amanhã posso corrigir as injustiças. Então obrigado a minha madrinha Pituca, Cesar Giobbi, Nara Alves, Tissy Brauen, Alice Moura, Tomás Biagi Carvalho, Aninha Castanho, Felipe do Val do Ilha das Flores, Janaina Rueda e Julinho Toledo Piza do Bar da Dona Onça, Kiko Gallucci do Mercearia São Roque, Luizinho Campliglia do Paribar, Robert Chacra do Gulero, Tuca Andrade, meus pais, minha Neguinha e aos amigos e a freguesia que me ajudou chegar até aqui. Vamos em frente.

Novo endereço: www.blogdoleocoutinho.com.br



Escrito por Léo Coutinho às 13h33
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Ouro de tolo

Aproveitei a calmaria da cidade para rever os oitenta anos do cotidiano inglês expostos em fotografias no centro cultural Ruth Cardoso – FIESP. Claro que é um extrato, mas a impressão é que consegue o essencial, que para mim é a densidade do espírito britânico. Dizem que é melhor vergar do que resistir até quebrar. Mas não para os ingleses. Eles podem estar nus, sangrando e chorando, mas não vão se ajoelhar. Tanto faz se rico ou pobre, preto ou branco, nobre ou plebeu. Ser inglês é algo substantivo, não cabe adjetivo.

As criadas servindo o jantar são tão inglesas quanto seus patrões. O mineiro jantando imundo de carvão ao lado da mulher é um lorde. A pedra que testemunhou um assassinato e continua lá depois de anos impávida como o monumento na praça que sobreviveu à guerra sob sacos de areia e a mensagem que a internet vulgarizou: “Keep calm and carry on”. Assim seguem os ingleses. A granfina no sofá de veludo pode ser tão forte quanto a mãe que ampara os filhos depois de ter a casa destruída por um bombardeio aéreo.

Desci as escadas e aproveitei para passar pelo Nelson Rodrigues, que neste centenário mereceu exposições diversas e também da FIESP/CESI, além da montagem de duas peças no auditório: Boca de Ouro e A Falecida.

No mesmo dia voltamos para ver o Marco Ricca no papel do bicheiro múltiplo. É notável o fascínio pelo metal. Antigamente as pessoas tinham uma volúpia da morte, que hoje migrou para a juventude, ou até um frisson, como se quem não estiver em movimento contínuo, vivenciando ou apenas simulando sensações, estivesse morto ou, pior, ficando velho, essa coisa abjeta. Mas o ouro continua fascinando: se antes era a vontade de passar para a eternidade deitado num caixão maciço, agora é ser eternamente jovem e rico, não importa a que preço. A comunhão das loucuras está nesses sorrisos de um branco perfeito, total, virgem como um anjo, como se jamais tivesse vivido, e que por isso não poderá morrer jamais.

Enquanto isso a Veja destaca o pensamento do filósofo Michael Sandel. O que o preferido de Harvard propõe é que deveríamos impor limites para a sanha do mercado, porque é degradante imaginar transações envolvendo órgãos, filhos, ventres, cidadania, lugares em filas. E a Veja envolve desde a capa a virgindade leiloada da menina se Santa Catarina.

Para mim ao balcão é tão estreito que sempre que começo a pensar no assunto me confundo, sem saber dizer onde nasce o vício, se na compra, na venda ou se é a conjunção de ambos. Porém, por mais delgado que seja, enxergo o balcão que separa o comprador do vendedor, e entendo que, se é verdade que se um não vender outro venderá, os compradores são limitados, e não é todo mundo que, tendo dinheiro, compraria. A linha é tênue demais, e as respostas definitivas variam muito. Quem pode antecipar a reação diante um momento de necessidade extrema? De qualquer maneira tendo a condenar antes o comprador, não pela transação, mas pela crença em que o vil metal prevalece sempre. E quem assim crê pode ser o tomador do capital. Quando dinheiro não se faz com adulação, bajulação, rufianismo assistencial, golpe do baú?

Sobre a virgindade da menina, que por sinal é maior de idade e vacinada, já disse que enxergo antes do dinheiro e do próprio hímen um gesto político, que liberta a mulher, sempre condenada, ora a dar, ora a não dar. E me parece que quem se escandaliza com o volume de dólares envolvido, mas tolera a prostituição comum, que por sinal é algo insignificante como uma sessão de massagem,  se importa antes com o dinheiro do que com a pessoa, donde ocorre no mesmo erro.

O dínamo do mundo pode ser o dinheiro e o sexo, mas nem um nem outro tem a ver com amor. A qualidade do amor é a inversa: fazer o mundo parar. Diante dele qualquer outra questão é perdoável, todo outro é de tolo. Dinheiro e sexo reluzem, instigam, e por isso tem preço. Amor é intangível, não pega etiqueta nem pode ter forma, seja de ouro, seja de barro, assim na terra como no céu.

crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br



Escrito por Léo Coutinho às 12h45
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Mocinho novo, enredo velho

 

E o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, trocou o secretario da Segurança. Sai Antonio Ferreira Pinto e entra Fernando Grella Vieira. O discurso de posse serviria para qualquer outra pasta. Trocando policiais por médicos ou professores o doutor Grella poderia assumir a saúde e a educação. Na falta da apresentação de um conceito novo a piada infame já está rolando.

A rigor, substituir a pessoa produz o mesmo efeito em qualquer um dos lados. Digo, substituir o mocinho vai resolver o problema tanto quanto prender o chefe dos bandidos: nada. Se o enredo do filme não mudar continuaremos assistindo diariamente a esta carnificina que só não é mais torpe do que a guerra das estatísticas: o Planalto diz que em São Paulo morre mais gente do que em Gaza, o Bandeirantes responde dizendo que proporcionalmente assassinamos menos do que no resto do Brasil.

A questão para mim é muito clara: o combate ao o crime organizado não é caso de Polícia Militar, mas de Polícia Federal. Enquanto a PM está com seiscentos homens em Paraisópolis, outras centenas no Capão Redondo, mais não sei quantos na Brasilândia,  o saldo da corporação que sobra para garantir a ordem opera desfalcado física e conceitualmente, primeiro porque já não há policiais e viaturas suficientes, depois porque com os colegas morrendo em atentados terroristas qualquer outro delito se torna irrelevante.

Relógio roubado, carteira batida, motoqueiro na contramão, ciclista sobre a calçada, carro avançando o sinal, cachorro brabo sem focinheira, contrabandista de CD pirata, flanelinha achacando quem estaciona para ir ao teatro ou futebol. Tudo pode esperar. Ora, as pessoas estão sendo assassinadas e a madame preocupada com uma bolsa? Compra outra e não amola. Outro dia dois vizinhos meus se pegaram de pau na porta da minha casa. Foi uma baixaria, um descendo o sarrafo no carro do outro e a mulherada aos berros. Quando alguém lembro de gritar pela polícia outro falou em cima: “Mas vai incomodar a PM com isso? Os dois que se fodam.”

Policial Militar é para ser conhecido das pessoas e prevenir crimes e contravenções espontâneas. A sensação de ordem já colabora muito. Mal-comparando, a PM é para não deixar os senadores aprovarem um 14º salario para eles mesmos. Quando aprovam o décimo-quinto ou a isenção fiscal para ambos, é crime organizado, é para chamar os federais e, se necessário, as Forças Armadas. Se o Salão Azul tivesse sido enquadrado na primeira investida, a segunda e a terceira não existiriam. Mas a PM, sobrecarregada, já não consegue cumprir sua função, e vai continuar enxugando gelo até alguém criar coragem para mudar o conceito.

Para concluir esse assunto que já é repetido, falo da outra vantagem da PM não se envolver com o crime organizado que tem dinheiro para corromper e poder para atacar: não adianta comprar os policiais corruptos nem mandar matar os honestos, porque nem uns, nem outros, tem qualquer coisa a ver com o assunto.

Ainda dá tempo. Pelas cartas apreendidas, pelas gravações de telefonemas interceptados, nota-se que eles não são tão organizados assim. Mas que evoluem a cada dia, faturando alto e corrompendo, ninguém duvida.

 



Escrito por Léo Coutinho às 18h10
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A paz por preguiça

Os feriados deixaram a cidade deliciosa. O Ibirapuera poderia estar menos cheio, mas assim mesmo estava um deleite. Três medidas básicas para melhorar a convivência no parque é fazer os ciclistas respeitarem o limite de velocidade de vinte quilômetros por hora e o espaço da ciclovia, estejam eles sobre duas, três, quatro, uma ou quantas rodas a imaginação permitir, isto é, skatistas e patinadores de todas as modalidades não podem brincar no meio dos pedestres. Carrinhos de bebê e cadeiras de roda liberados, é claro. Automóveis proibidos, notadamente o da Guarda-Civil, que também deveria usar bicicleta ou, no máximo, carro elétrico.

Outra medida boa seria a criação de mais parques. O Jockey Club em Cidade Jardim é uma área que deveria ser desapropriada. O clube fica com o espaço e os serviços da sede e o entorno vai para a cidade. Derrubam os muros, inclusive os da Marginal. Na Zona Norte também há muros demais. Passei por lá e fiquei espantado com o tamanho do Parque Aeronáutico na Braz Leme. A freguesia pode conferir pelo satélite do google. É imenso e, melhor, nem precisa ser desapropriado, porque se é da Aeronáutica, é do Brasil e de todos os brasileiros, militares ou civis. É só abrir a porta. Não sei se o comandante da Força Aérea ainda é o brigadeiro Saito mas, se for, tanto melhor, porque de jardim japonês manja muito. O freguês que estiver na rede visite no site novo do Lucas Lenci e confira a foto Domingo no Parque para ver como pode ser bom.

Fui à Zona Norte conhecer a Casa Garabed, um armênio que há cinquenta anos prepara uma esfiha de tirar o chapéu. Comi a de cordeiro com hortelã fresco e snoubar, que são aqueles pinhõezinhos que os italianos dizem pinoles. Que generosidade! E que sabor também. Provei a de carne bovina da minha Neguinha e também gostei muito. Depois experimentamos o quibe assado e o mudjectere, que é o arroz com lentilhas e ainda mais snoubars, e coalhada seca. Tudo feito da hora. Nunca vi coalhada seca tão fresca.

Esse negócio de diferenciar a comida árabe é para especialistas. O Dudu Kalili sabe a diferença entre o tempero sírio e o libanês. O Ronaldo Cury de Cápua também. Diz que sua cozinha predileta na cidade é a do Club Homs – que pelo nome deve ser síria. Uma coisa é certa: parecem todos iguais, mas são muito diferentes. Na véspera da Casa Garabed, que é armênia, almoçamos no Cedro do Líbano, na Pamplona, que também faz esfias na hora, e que no prato parecem iguais, mas na boca e na digestão são completamente distintas. A cozinha armênia é mais leve e perfumada, mas as duas são gostosas.

Se a gente atravessar o Mediterrâneo e for à Itália da na mesma. Outro dia, conversando com um amigo novo chamado Gerardo Landulfo, que sabe tudo de lá, ouvi uma interessante. Alguém lhe serviu uma massa à bolonhesa e enfeitou o prato com um ramo de manjericão, o que bastou para ele recusar: em Bolonha o clima proíbe ervas frescas. Estas, por sinal, só mais ao sul ou no litoral. Pode? Mas para falar a verdade nós também temos as nossas. Uma moqueca capixaba jamais seria servida com dendê. Botou dendê virou baiana. E com o feijão, que confusão? Os cariocas comem o preto e os paulistas o marronzinho, chamado carioquinha.

A humanidade é assim, simples e complexa ao mesmo tempo. Duas fitas ótimas que estão no cinema falam disso. Ontem fui ver Um alguém apaixonado. Saí babando: elenco, diálogos, roteiro, direção, trilha e até a locação. Eu moraria feliz na casa do velhinho. Os japoneses absorveram a influência ocidental sem perder a identidade, e há um diálogo sobre uma tela chamada A garota e o papagaio que é exatamente isto: técnica ocidental com espírito japonês.

O outro filme é o E agora, onde vamos?, da Nadine Labaki, que é a Sophia Coppola franco-libanesa. Lindíssima e com toda a sensualidade que só o pudor constrói ela dirige e atua brilhantemente. Faz um pout pourri onde cabe comédia, drama, romance, musical. E, por que não emendar, documentário, porque me mostrou em duas horas a realidade de uma vila libanesa igual a que os meus amigos Chacra vêm há anos tentando explicar. É um extrato social que na proporção serve à humanidade inteira.

Como diria o José Gregori, as brigas intermináveis às vezes acontecem entre vizinhos ou irmãos. E pelo motivos mais distantes e até insignificantes. Os bolonheses brigam entre si para definir a receita do molho que já foi violada e maltratada no mundo inteiro. Paulistas e cariocas já bateram boca por muita coisa, inclusive por feijão. Mas o clichê política, futebol e religião continua insuperável. E inexplicável, também. A freguesa ou o freguês que chegaram até aqui podem aproveitar para olhar o artigo de ontem no blog do Guga Chacra. Depois de passear por intermináveis tribos, grupos, governos, Estados, territórios, religiões no Oriente Médio, antes de visitar a Líbia e a Tunísia, para não complicar, ele arranja espaço para um cristão marxista que é líder exilado.

Se a paz entre essa turma toda, incluindo os ciclistas, tucanos, petistas, corintianos, palmeirenses, Pires e Camargos não for feita por princípio, que seja por preguiça. Ou por prazer.



Escrito por Léo Coutinho às 17h40
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Batuque na cozinha

Aquele que é tido como o primeiro samba gravado no Brasil está em voga de novo. O Batuque na Cozinha, do João da Baiana em parceria com Donga e Pixinguinha profetizou que batuque na cozinha, sinhá não quer, e que muita gente na cozinha sempre dá alteração, mas parece que ninguém anotou.

Enquanto de um lado da casa, para aumentar a reserva nos banheiros, sobram pastilhas, metais e porcelanas, e os casais que podem instalam tudo em dobro, digo práticos gabinetes e românticos chuveiros, com os mais abastados se valendo até de do banheiro inteiro em dobro, um exclusivo para cada, a cozinha vem se tornando num ambiente de convivência familiar e até social.

Abro parênteses breves para lembrar da exceção: sei de um casal que mandou substituir o bidê por uma latrina extra, e assim desde cedo já começam a prosa conjugal, comentando as notícias do jornal. Fecha parênteses, porque tara se trata com discrição.

Os que viajam pra valer e invés do Hilton qualquer lugar vivem o cotidiano do local hospedados numa casa, dizem que na Europa e nos Estados Unidos o costume é absolutamente difundido. Não o das privadas conjugadas, que já estão superadas aqui, mas o da cozinha como ambiente social da classe média. O cinema e a arquitetura dizem a mesma coisa, e as “cozinhas americanas” estão aí derrubando fronteiras e paredes erguidas há décadas.

Atenção: é preciso não confundir as cozinhas americanas com a celebridade atual do mercado imobiliário, notadamente as “copas gourmet” instaladas nas varandas. Estas são a involução das churrasqueiras, que pelo menos tinham a vantagem de ser ao ar livre. Depois que o feliz proprietário pilotar o terceiro churrasco corporativo para o pessoal lá da empresa a fase exibicionista passa e ele volta a pedir pizza por telefone. O buraco da churrasqueira é condenado ao abandono ou, com sorte, vira bancada para orquídeas.

As cozinhas americanas são iguais a qualquer cozinha, só que mais bonitas, inteligentes e equipadas, tanto que falam de igual pra igual com a sala. O problema é que essas cozinhas são americanas do norte, e aqui somos a América do Sul, onde o complexo de sinhazinha permanece entranhado no povo. Então a parede cai, mas a separação continua, porque a sinhazinha na sala de jantar continua ocupada em nascer e morrer. Lavar louça nem pensar. E de ouvir o batuque ela também não gosta.

Aqui todo mundo quer ter uma mucama. Não é raro que a empregada doméstica ou babá da casa do rico tenha outra empregada doméstica ou babá na própria casa. É sempre alguém subjugado, uma prima distante que vem para a cidade e topa o serviço em troca do teto. Esta é a base da remuneração dos empregados domésticos no Brasil: o teto. Sem trocadilho ou jogo de palavras: a primeira recompensa que o empregador doméstico oferece é um lugar para morar. É a senzala que sobrevive em nós e faz parte do complexo de sinhazinha. Não é privilégio brasileiro. Qualquer população subdesenvolvida está sujeita.

Dois obstáculos fantásticos agora surgem e devem, se não resolver, melhorar muito a situação. Primeiro: a economia está crescendo e a fila está andando. Os bons empregados domésticos estão cada vez mais raros e merecidamente caros. O segundo vem na esteira: a legislação está mudando e agora eles terão os mesmos direitos de qualquer trabalhador, como limite de oito horas de carga horária diária e 44 semanais, hora-extra, adicional noturno, seguro desemprego e contra riscos de acidente de trabalho e outros tantos. É uma maravilha para toda a sociedade, mas é claro que a sinhazinha vai chiar antes de começar a se entender com a cozinha americana. Porque batuque na cozinha, sinhá não quer. O que ela quer é tudo na boquinha.

 



Escrito por Léo Coutinho às 17h18
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Despertador

O despertador social funciona igual àqueles dos criados mudos. Há quem acorde no primeiro toque, quem peça mais cinco minutos de soneca, mais dez, quinze, há quem quebre o despertador e também aqueles que não estão nem aí com a hora do Brasil, como diria o meu amigo Reginaldo de Melo Lima. Aonde andará o Reginaldo?

Amanhã, na cidade de São Paulo, será celebrado, com feriado, o Dia da Consciência Negra. A ideia é que ele funcione como despertador social, que, diante de um dia para parar e refletir, a sociedade chegue mais perto do fim da discriminação racial, ou pelo menos em relação aos negros.

Enquanto isso na internet rola um vídeo com um jornalista americano entrevistando o Morgan Freeman, que perguntado sobre o que acha de uma data semelhante nos Estados Unidos responde: - “Ridículo”, e conclui que a melhor maneira de encerrar a questão da discriminação é supera-la, deixar de falar sobre isso, tratarmos uns aos outros como indivíduos, sem adjetivo.

Contra a opinião do ator não falta quem proteste. Há quem diga que fingir que o preconceito não existe não resolve nada. Ora, o preconceito é do homem, vai existir até o último estertor de vida humana. Temos que aceita-lo como uma realidade, inclusive lembrando que pode ser a favor. Nunca vi algum negro reclamando do preconceito sobre raça ser sexualmente bem-dotada. O que não pode ser tolerado, em hipótese alguma, é a discriminação. E ter um dia específico para a Consciência Negra é uma forma de discriminação. O Dia Internacional da Mulher também.

Minha impressão é que o nosso maior problema social é econômico. Estamos atravessando um período em que o dinheiro fala mais alto em qualquer circunstância. A simples posse da grana está sendo mais valorizada do que qualquer outra coisa. De modo que, quem não tem, não tem nenhum valor. Você pode ter educação, cultura, beleza, charme, talento, simpatia: sem dinheiro não terá valor. É como se, sem o porte de ouro, o arco-íris fosse dispensável – quando vale exatamente o inverso.

A sem importância com que os feriados são tratados traduzem esta situação onde a falta de cultura é agravada pela distorção de valores. O 15 de Novembro vale pela possibilidade de aproveitar a folga da maneira mais bacana possível. Sobre a República, nenhuma linha. Com o 20 de novembro é ainda pior. A situação sócioeconômica condena a maioria de negros pobres a passar o dia da Consciência Negra servindo aos brancos. Sobre como diminuir este abismo social, cultural e econômico só o Morgan Freeman falou alguma coisa.

Ele está adiantado no tempo? Sem dúvida. Mas não dá para a gente parar o relógio e esperar que todo mundo acorde no primeiro toque do despertador. Vamos ter que tocar o alarme repetidas vezes, infinitas talvez, e mesmo assim haverá quem se recuse a despertar para a nova realidade. Porém, alguém precisa garantir que os ponteiros continuem avançando, e neste papel o mister Freeman está perfeito.



Escrito por Léo Coutinho às 17h29
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