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Blog do Léo Coutinho


Fotografia do passeio

De passagem por São Paulo a família Fleming deixou a vida na cidade mais gostosa. O Ian ainda está por aqui nos melhores cinemas com o jubileu de ouro do 007, que é uma maravilha. A Renée fez um rasante a convite da Sociedade de Cultura Artística. Não sei se são parentes de sangue, mas são artistas gigantescos, cada um na sua.

O 007 Skyfall, assim como as canções da Renée, são um convite ao essencial. Na tela ele abandona as traquitanas e ela encheu a Sala São Paulo com sua voz e o piano do Gerald Martin Moore, nada mais, e sem prejuízo nenhum, muito pelo contrário. Não entendo nada de espionagem nem de música lírica,  mas me deleitei com os dois de uma maneira que só o refinamento sublime pode proporcionar:  livre de qualquer sofisticação atende a todo mundo, leigos ou especialistas.

O essencial está ao alcance de todos, não precisa ir ao teatro ou ao cinema. Um dos passeios mais gostosos da vida urbana é cumprir o caminho da roça na manhã fresca depois de uma noite de chuva. Não temos o cheiro rural da terra molhada, mas a diminuição da temperatura e da poluição na atmosfera lavada já contentam. E ainda tem o som que escapa do conservatório musical Sousa Lima, que nome lindo!, a golden-retriever que na saída do pet-shop, com o pelo ainda estufado, rola na calçada molhada e levanta cor-de-rosa com as flores do ipê, a criança que se diverte com os jatos grosseiros dos pneus sobre a poças d’água.

A garoa e a distância da poluição melhoram o passeio em qualquer hora do dia, desde que você esteja a pé. Na sexta passada andei do Iguatemi JK até o clube Paulistano. Com o trafego entupido nas ruas, a calçada fica ainda mais atraente.

Fui ao JK ver a SP/Arte Foto. O melhor, além da arquitetura do próprio shopping, que talvez seja o nosso mais bonito, foi a visita dos cariocas. Comecei pela laje e de cara parei diante do olhar da Cláudia Jaguaribe sobre Rocinha, Vidigal, Leblon e Ipanema. Um retrato vertiginoso por tão amplo, em todos os sentidos. O céu está nublado, mas o sol ilumina o morro e brilha no mar. E a favela, o que é? A Costa Amalfitana hoje é o morro do Vidigal amanhã. Só falta acabamento. A linha que separa as classes sociais no Rio é quase subjetiva, igual a Vieira Souto vista de cima. Morro e asfalto se confundem. A obra está na H.A.P., ou Heloísa Amaral Peixoto. Quer mais aristocrata? Mas para o Wagner, motorista da galeria que sabe de tudo, mostra o livro da artista e avisa ao freguês interessado no preço: - “Segura aí que a dona Lolô está chegando.” Tudo suave e natural. E então, está sol aqui e nublado lá ou vice-versa?

Outros trabalhos que vieram do Rio e me animaram foram os véus do Thales Leite, também na H.A.P., e que parecem uma versão urbana das dunas do Cristan Cravo, que está na DAN de SP, as espumas do Bruno Veiga na Galeria da Gávea, tão leves e concretas como as dunas e os véus, além dos pátios de aviões do Cassio Vasconcelos, direto da Pequena Galeria 18.

Nesse caminho de volta entre a Vila Olímpia e o Jardim América uma quadra faz toda a diferença. Fui avançando aos poucos pelo Parque do Povo, depois Cidade Jardim e quando notei tinha superado a Faria Lima. Então entrei pela Rússia e fiz aquele caminho de rato até chegar na Espanha. Uma quadra! Uma mísera quadra para o ar perder o ardido da fumaça, a temperatura cair dois graus e se ter de volta o pio dos pássaros.

Outra SP/Arte Foto só no ano que vem, quando esperamos que as galerias paulistanas honrem o nome da feira e tragam coisas novas. Antes disso, já para este feriadíssimo de clima inglês, na galeria do centro cultural Ruth Cardoso – FIESP, fotos da cena londrina desde 1930. A ilha toda junta e misturada, numa curadoria que parece não ter deixado escapar nada dos últimos oitenta anos.

Crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br



Escrito por Léo Coutinho às 11h39
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Luana S/A

Esse pôster que está nas bancas já deve ter causado acidente. A Luana Piovani cobrindo a peteca só com uma das mãos quer enlouquecer qualquer cristão. E o olhar de ressaca? Capitu é uma lagoa.

Dela posso falar tranquilo. Primeiro porque a minha Neguinha garante que não sente ciúme. E justifica, com requintes de crueldade: - “Ela não daria para você”. Depois porque ela é casada e em mulher alheia eu não reparo. O sortudo é um certo Vianna, aristrocrata, carioca, surfista e pai do Dom. Algum cínico há de lembrar que ela já botou chifre em um. Ora, chifre da Luana é troféu de se exibir na sala. Um mérito antes de qualquer coisa.

Tragado pelo poster comprei um exemplar da GQ que nos fez o favor de traze-la. Fazia tempo que não levava para casa uma revista. Tirando a Piauí e o Amarello, para o qual humildemente colaboro, não há outra que me atraia a ponto de valer a compra. Os clássicos da LP&M custam menos e valem infinitamente mais. Mas quando a Luana está na capa eu compro por princípio. Explico.

No miolo, onde contam como foi a prosa, ela fala que ainda não posou completamente nua, ou até a peteca, que é como ela prefere chamar a dita cuja, por uma questão de mercado: sente que a imagem da própria vale muito mais do que as que vêm nas capas da Playboy. E tem toda razão. Mas ainda não é por isso que eu comprarei qualquer revista com ela na capa. 

Meu interesse, creiam, é antes na personalidade do que na peteca da marquesa de Jabuticabal. Acho maravilhoso que exista alguém como ela, disposta a perder contratos de publicidade para não ter que maneirar opiniões ou assinar contrato de exclusividade com a TV Globo. É a liberdade vingadora. Uma franqueza total e tão convicta que acovarda certas marcas ao mesmo tempo que recusa qualquer falsidade. Sandália cafona ela não calça nem para o comercial. Sopa para emagrecer? Não toma e não recomenda.

De qualquer maneira ninguém há de negar a importância da independência financeira. Dinheiro é igual uísque: não faz ninguém diferente, mas acentua as características. Isto é, melhora os bons e piora os ruins.  Imagina a Luana milionária. É isso o que todos nós podemos fazer através de uma revista. Como numa S/A, cada brasileiro pinga dez, vinte reais, para deixa-la cada vez mais linda, franca e, porque não?, nua.

 



Escrito por Léo Coutinho às 14h24
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Coitada da cabra

 

Para minha surpresa as pessoas mais sintonizadas com o progresso social são as que estão atirando pedras no artigo do J.R. Guzzo publicado na última Veja, intitulado Parada gay, cabra e espinafre. Me parece que a turma só leu o destaque, sem se dar ao trabalho de conferir a dua frase que introduz a ideia: “Já deveria ter ficado para trás no Brasil a época em que ser homossexual era um problema.”

É claro que ele está sendo agressivo quando propõe virar a página enquanto grande parte das pessoas ainda não conseguiu entender o que está escrito na atual (com os analfabetos vocacionais não vamos perder tempo). Mas do que afinal é feito o progresso se não de atitudes corajosas que no presente parecem fora de sintonia, e que só no futuro recebem o reconhecimento devido? Tratar como assunto pessoal qualquer orientação sexual é tudo o que deveríamos desejar.

Na guerra é também assim. Primeiro é o bombardeio aéreo, que sendo o auge da brutalidade fere a todos sem distinção, matando soldados e civis, homens, mulheres e crianças. Em seguida vem a invasão por terra, mais seletiva, mas ainda bruta. O restabelecimento da liberdade e da justiça é o último e quiçá infinito estágio, porque há de sempre ser ajustado.

Para quem usa arte invés de guerra o cenário é o mesmo. No facebook vi o Pedro Machado Granato e uma atriz que prefere não ser citada atacando o artigo do Guzzo. Como para mim os dois são referências no teatro, vou continuar na ribalta para tentar expor meu ponto de vista. 

O nosso dramaturgo maior era um bombardeiro. As peças do Nelson Rodrigues abalavam a todos indiscriminadamente. Os conservadores diziam que ele era progressista, e estes o chamavam de reacionário. Quando houve liberdade para se fazer justiça, todos reconheceram que o alvo dele era um só: os idiotas da objetividade – que por sua vez ainda não entenderam nada e continuam babando na gravata.

Outro dramaturgo, o Edward Albee, também usou uma cabra para chacoalhar a sociedade. No texto A Cabra ou Quem é Sylvia ele toma do bicho para discutir os limites do amor, preconceito e tolerância. Quando ele bota uma cabra no lugar de uma mulher como amante do marido infiel, bombardeia o método de raciocínio impregnado nas pessoas, também conhecido como pré-conceito. E dessa confusão proporciona novas perspectivas. Isto é arte.

Modestamente a mesma coisa aconteceu comigo. Sou sócio e conselheiro do clube Paulistano, e como tal participei da audiência que deliberou sobre a questão homoafetiva. Folgo em dizer que contribuí para a decisão final do Conselho, que foi no sentido de acompanhar a interpretação do Supremo Tribunal Federal e desconsiderar qualquer significado do Código Civil que impeça o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar. Tendo a oportunidade de falar na penúltima reunião do Conselho, disse mais ou menos o seguinte:

“Não se pode deixar herança para o gato, botar sobrenome em cachorro, incluir o papagaio como dependente aqui no clube. Porque a Justiça não reconhece a relação de afeto entre espécies distintas como unidade familiar. Entre os da mesma espécie, porém, a Justiça reconhece. E recentemente o STF reconheceu inclusive a união entre os iguais de gênero.

O Supremo está em voga. Um dos melhores advogados criminalistas que conhecemos disse algo exemplar sobre as decisões daquela corte: são como a bala de prata que mata até lobisomem, definitivas, inapeláveis.

As crianças, que acreditam em saci-pererê, mula sem cabeça e outras assombrações, aprendem que mulher com mulher dá jacaré e homem com homem dá lobisomem. É mentira. É ignorância. Lobisomem não existe. E se não existe não precisamos esperar a bala de prata do Supremo para aceitar que dois irmãos nossos se amam e constituíram família.”

 



Escrito por Léo Coutinho às 13h59
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Cada macaco no seu galho

Como não sei desenhar para clarear o entendimento geral, vou usar o velho truque de apontar uma imagem manjada de todos: o cinema americano. Qualquer filme de gangster poderia me socorrer, mas vamos logo para aquele que é tido como o melhor de todos: O Poderoso Chefão.

Eu diria que corre até o risco da unanimidade. Nas redes sociais, quando a pessoa é estimulada a revelar sua fita predileta, nenhuma ganha do padrinho. No Orkut já era assim e continua no facebook. E é delas que brota minha irritação que provocou a malcriação que inicia este palpite: não posso acreditar quando vejo gente esclarecida incentivando a guerra entre a Polícia Militar e o crime organizado em São Paulo e até políticos dos mais respeitados analisando a cena com um olho nos cadáveres e o outro em 2014.

Muito bem. No Poderoso Chefão, quando a polícia local toma partido da organização criminosa que suborna melhor, a família Corleone reage com brutalidade: de civil o Michael passa a soldado, marca um encontro com o Turco e o capitão de polícia numa cantina e assassina ambos com tiros a queima-roupa, numa cena brilhante, onde a tensão no ar pode ser fatiada de tão densa. Mil parabéns ao Copolla, que a partir daí explica a guerra que se instala em Nova Iorque com a sucessão de manchetes de jornais narrando as batalhas de cada dia, exatamente como assistimos hoje toda manhã, infelizmente na vida real, com gente e sangue de verdade.

A diferença entre o Brasil e os Estados Unidos é a polícia que trata do caso: sai a polícia local e entra o FBI, que é a Polícia Federal deles. Há muitas razões para isso, teóricas, práticas, políticas. A teórica é básica: crime organizado não é assunto de polícia local, que vamos chamar de PM, mas de Polícia Federal. A PM serve para proteger, não para investigar e muito menos atacar. Na prática, além de manter a PM em sua atividade fundamental, botando a PF para combater o crime organizado o Estado salva duas vezes o policial, pelo princípio da impessoalidade: os PMs, que serão melhores tanto quanto forem conhecidos das comunidades, sendo honestos estarão protegidos de ataques covardes, e sendo corruptos não terão como facilitar os negócios de seus patrocinadores. E tendo isso bastante claro, a população não fica vulnerável ao jogo político abjeto que assistimos hoje no Brasil. É cada macaco no seu galho.

O ministro da Justiça José Eduardo Cardozo é dos raros quadros do PT original que podemos respeitar. Mas talvez tendo um olho em 2014 e querendo gritar “Vai pra cada, Padilha!”, foi à imprensa oferecer ajuda das forças federais ao estado de São Paulo. Ora, como assim oferecer? Tinha que determinar: a Polícia Federal, se necessário com a ajuda do Exército, vai ocupar os redutos onde o crime organizado se instalou. A questão não é se a PM de SP tem ou não condições de enfrenta-los. A questão é de competência, e crime organizado, sobretudo se envolve tráfico de drogas, é assunto federal.

Em São Paulo não há espaço para plantar coca. E salva uma ou outra zona de fronteira com a Bolívia ou a Colômbia, duvido que haja qualquer plantação da folha em todo território nacional. Então é claro que a cocaína é importada. E se é importada é mais um motivo para ser assunto federal, não regional. O PCC, inclusive, segundo o Estadão de hoje, já é multinacional.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, por sua vez, parece ter resistido ao acordo de colaboração com o governo federal. Aliás, o trato firmado no Palácio dos Bandeirantes se resume à redundância do que deveria acontecer sempre: uma agência foi criada para combater o tráfico e sintonizar a inteligência das polícias e dos diversos níveis judiciários.

Creio que a posição do governador deveria ser a de cobrar o ministro da Justiça, que não faria mais do que sua obrigação enviando tropas federais a São Paulo. Por outro lado, se a iniciativa fosse do ministro, o governador teria que acatar. Resistir seria como se o prefeito da Capital, por ser de partido adversário, decretasse que a Guarda Civil Metropolitana agora é responsável pelo policiamento da cidade, e a Polícia Militar que fosse cuidar do interior e do litoral.



Escrito por Léo Coutinho às 12h36
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