Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis


 
Blog do Léo Coutinho


Fábulas diversas misturadas

O Helito Bastos gosta de contar a história de um americano que conheceu num papo de bar. O homem era caçador e, como aqui no Brasil os caçadores são clandestinos e portanto proibidos de contar seus causos, esta freguesia imagine as possibilidades de enredo se inspirando num pescador que não tem por limite o fundo do mar.

Dizia o caçador americano que o coiote, se capturado por aquelas armadilhas parecidas com os jacarés amarelos que prendem a roda dos maus motoristas nos shoppings centers, tem a capacidade de roer a articulação do membro aprisionado para se libertar. Quer dizer, pela liberdade ele suporta sem anestesia a auto-amputação da perna.

Outro bicho que merecia fábula do americano era a morcega. Não as ratazanas aladas, mas os similares humanos, ou seja, mulheres que vivem pela noite e ao lado das quais na manhã seguinte o homem acorda de cabeça para baixo. De acordo com a experiência do caçador, nestes momentos mais vale repetir o coiote deixar o braço debaixo dela do que correr os risco de acordar a morcega e retomar a prosa.

O Helito, que tendo nascido em fevereiro é do signo de peixes e se jacta de ser o legítimo bagre ensaboado, aquele ser irrepreensível, digo, inaprisionável (pode?), acho que é intangível, enfim, aquele que não pega cabresto de jeito nenhum, mesmo assim morre de inveja do coiote. E tem razão, porque com morcega qualquer artimanha pode ser conveniente.

O Vinícius de Moraes, que era do mesmo padrão, tem um versinho assim: “Há damas de todas as classes, umas difíceis, outras fáceis”. Com as morcegas vale a mesma coisa. Quer ver? Cleópatra. Quer mais morcega que a Cleópatra? Rainha e morcegona. Botou o mundo inteiro de cabeça pra baixo. Primeiro traçou o irmão, Ptolomeu, de quinze anos. Depois, escondida feito recheio num tapete enrolado, chegou aos aposentos do Julio Cesar e ficou. Para dividir a bronca o imperador sugeriu que ela casasse com o outro irmão, que também chamava Ptolomeu, sendo uma boa estratégia inclusive para não gemer nome errado. E quando mataram o Julinho ela ficou com o melhor amigo dele, o Marco Antonio. É morcega ou não é?

Além de morcega era superpoderosa. Um tipo de Batgirl, só que de verdade e com muito mais traquitanas na cinta. É tão grande a importância da Cleópatra que alguns historiadores chegam a dizer que se o nariz dela fosse um pouco maior, ou menor, o Mundo seria diferente do que este que recebemos.

O Fernando Reinach escreveu outro dia no Estadão sobre a capacidade de cicatrização de um camundongo que, mais esperto do que o coiote do americano, quando vai parar na boca da cobra deixa a pele toda para trás e em pouco tempo está restabelecido. Sabe o rabo da lagartixa, que fica na mão de quem tenta apanha-la garantindo sua fuga para depois crescer de novo, sem sequelas? Pois é, com esse rato acontece o mesmo só que com a pele inteira, ou quase toda. Depois de esfolado ele volta a ser branquinho, simpático e, sobretudo, fica vivo.

Os biólogos estão estudando isso para ajudar no processo de cicatrização humana. Segundo o Fernando, quiçá pensando no nariz da Cleópatra, a história do Brasil poderia ser diferente se o dedo mindinho do Lula tivesse se restabelecido depois do acidente no torno.

Mas de qualquer maneira ninguém ganha de um certo camarão de uma polinésia qualquer. Este é insuperável. Não tem morcega que segure. Sabe do que ele é capaz? Depois do ato sexual deixa o próprio pinto de presente para a fêmea. E dali a pouco já tem outro pinto no lugar, novo em folha, pronto para usar.

crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br



Escrito por Léo Coutinho às 13h38
[] [envie esta mensagem] [ ]



Quando Zé Dirceu falou a verdade

 

Numa entrevista recente que repercutiu bastante, Clara Becker, a primeira mulher do Zé Dirceu, revelou temer que ele não resista e se mate na cadeia. Sim, a família já se prepara para frequentar a detenção e planeja o cronograma de visitas.

O maior receio da mãe do filho mais velho do ex-primeiro-ministro do governo Lula é em relação a comida. Ela diz que o homem é bom de garfo, mas no sentido de gastrônomo, não de glutão, e sabe-se que recentemente ele desenvolveu o gosto por vinhos caros.

Quem lê a reportagem nota que o amor não se esvaiu com a separação, ou que é eterno como todo amor de verdade, conforme o Nelson Rodrigues nos disse. De Cruzeiro do Oeste, onde vive no Paraná, levou à casa do ex em Vinhedo um cordeiro marinado com vinho branco e alecrim. Antes de sair telefonou avisando: - “Benhê, limpa a área que eu estou chegando”.

Clara faz questão de exclusividade enquanto está presente. Por causa disso perdeu o grande amor, aquele que ela considerava “tudo o que pediu a Deus”. Quando veio a anistia no final da ditadura militar ele se apresentou como Zé Dirceu e mudou-se para São Paulo a fim de retomar a agenda política. Eram casados há quatro anos, mas ela o conhecia por Carlos Henrique, órfão imigrante da Argentina.  Entendeu e perdoou a mentira, mas não entendeu e nem perdoou a pulada de cerca.

Com ele em São Paulo ela continuou no Paraná e de vez em quando vinha fazer uma visita. Numa delas a loira encontrou cabelos de mulher morena no banheiro. Imagino que tenha feito um escândalo, ao que o Dirceu lhe respondeu: - “Se eu tenho outra mulher é um problema, agora se a gente vai se separar é outra questão.” Digam o que quiserem a respeito dele que hoje é o inimigo público número um, mas com a mãe do filho o nego foi sincero. Poderia ter dito que era da empregada, de uma militante que passou, mas tratou a questão com a verdade e a mulher com respeito.

E a boba diz que se arrepende, mas não por ter encerrado o casamento. Seu pesar é “por ter deixado o campo limpo”, provando que o ciúme prejudica a compreensão até do quadro mais simples. Como todo ciumento possessivo ela acredita que a base da fidelidade é a vigilância, mas na hora de visitar o ex-marido exige a ausência da namorada atual. E mais: hoje diz que ele jamais amou qualquer mulher na vida, só a luta política, e provoca: - “Agora que o cartão de crédito acabou quero ver quem vai visita-lo na cadeia”.

Enfim, acho que vim para escrever uma coisa e saiu outra. Minha vontade original era avisar a dona Clara que o ser humano se acostuma com tudo. O Paulo Francis, também gostava de comida e roupas de primeira linha, quando foi preso entrou pensando em se matar – dois dias depois, só de cueca, batia a colher na grade quando o grude atrasou. O Zé Dirceu, frio e duro do jeito que é, não terá maiores dificuldades nesse iminente retorno ao xilindró. Fique tranquila e leve um cordeiro de vez em quando.

 



Escrito por Léo Coutinho às 16h47
[] [envie esta mensagem] [ ]



O tabu, este insuperável

 

Foi um escândalo quando a última virgem adulta de Santa Catarina resolveu leiloar sua pureza na internet. Quando anunciaram o vencedor japonês virou piada. Agora a notícia de que ela vai desfilar na semana de moda do Rio está revoltando as moçoilas que se julgam melhor modelo, tanto de conduta quanto de manequim 

Enquanto isso no Amazonas as virgindades de índias adolescentes são vendidas no atacado a quem dispor de vinte reais. Com o milhão que desembolsou pelo cabaço da catarina o japonês poderia deflorar cinquenta mil indiazinhas. É de fazer o Conde D’Eu virar no tumulo.

A verdadeira prostituição e o vício mais perigoso para a sociedade estão no acalentar dos tabus. Enquanto a o absurdo da realidade descrita nos dois primeiros parágrafos persiste há políticos que demonizam o aborto, a igreja proíbe a camisinha e a família não consegue controlar sequer a fecundação, seja dos pais, seja dos filhos. Só o Espírito Santo é que pulou fora e não engravidou mais ninguém.

Com as drogas a vitória também é dele, do tabu, este canalha insuperável. Fomos condicionados a crer que elas ainda vão acabar com o mundo – mas desde que sejam proibidas. Drogas legalizadas, creiam ó bovinos!, não mata. Aliás, nem vicia. Mal? Também não faz. Podem tomar seus ansiolíticos comprados sem receita, ou com receita mas sem consulta, e dormir tranquilos ante esta realidade brutal.

A capa de uma Veja recente falou o que ninguém sabia: maconha faz mal. Ora, é claro que faz. Uísque e tabaco também. E o açúcar, então? Faz mal pra danar! Respirar a fumaça do túnel Nove de Julho é pior ainda. Mas diria a Poliana que tudo tem seu lado bom, e você que está louco para tomar um uisquinho daqui a pouco, ou você que sente vontade de fumar cigarrinho depois do café, e também você que teria traçado um pudim de leite depois do almoço, e todos vocês que sabem que vão amargar no congestionamento enquanto pensam em tudo isso não podem negar que a maconha em algum momento seja positiva. É questão de lógica: tudo tem o lado bom. Isto é, menos o congestionamento.

Mas para salvar os jovens brancos da classe média desse mal irremediável que quase todo mundo fumou mas não tragou estamos condenando os moleques pretos e pobres ao trafico de drogas. É o famoso jogo do perde-perde: enquanto os mauricinhos não deixam de dar pelo menos um tapinha para ver qual é, favelados de doze anos de idade estão matando uns aos outros com fuzis de guerra.

O propósito do governo na luta contra o tráfico de drogas ilegais é o mais acertado: cortar o faturamento, tirar a grana dos traficantes. A estratégia de enfrentamento, porém, mais que errada é inócua. Nunca terá êxito. O único jeito de acabar com o poder financeiro dos traficantes que compram armas e corrompem autoridades é a que Chicago usou contra o Al Capone: revogar a Lei Seca ou, no caso, legalizar todas as drogas.

Assim o dinheiro vai deixar de ir para os criminosos e começará a vir para o Estado, que poderá investir em educação e saúde, ou notadamente em prevenção e tratamento de viciados em potencial. Isso sem contar a economia que faremos com segurança pública, trazendo a polícia de volta para sua função original, que não é atacar, mas proteger os cidadãos, sejam índias do norte, putas do sul, brancos do asfalto ou pretos do morro. 

 



Escrito por Léo Coutinho às 15h11
[] [envie esta mensagem] [ ]



Obama de novo

Entrei no blog do Guga Chacra para responder a vinte perguntas sobre a intensidade da minha simpatia ao governo Obama e saí murcho: além de vinte motivos para não gostar da gestão do Baraca (obrigado, LFV), não encontrei aquele que considero seu pior momento, que foi o assassinato do Bin Laden, com direito a invasão acho que do Paquistão e sem direito a julgamento ou enterro. Quer dizer, para mim são 21 motivos para não aplaudir esses quatro anos da casa Branca.Por outro lado, posso dizer que são só 21, até porque alguns deles vão muito além da parcialidade polêmica, chegando a parecer torcida, donde se crê que não deve haver outro. Se o Guga relacionou vinte falhas do candidato republicano no mesmo tom, comi bola, não vi.

Sobre o furação ou tempestade Sandy que assolou a costa leste dos Estados Unidos na semana passada ouvi dois comentários de meter vergonha em cara de pau. O primeiro tipo – que se multiplicou pelas redes sociais – foi de gente se solidarizando com quem foi a Nova Iorque correr a maratona e perdeu a viagem. O que dizer? É como lamentar levar cano de uma menina porque ela acaba de ser estuprada. O que o prefeito deveria ter feito é transformado a maratona. Invés de corrida, a medalha de ouro iria para quem recolhesse mais lama. 

Outra coisa bocó foi a opinião de um sujeito tido como esclarecido, desprezando fleumaticamente a possibilidade de os americanos se sensibilizarem com a tragédia e votarem pela reeleição do Obama, que por sinal teve o apoio do Michael Bloomberg, prefeito de Nova Iorque.

Ora, se o desempate depender do tratamento que democratas e republicanos dão à questão do meio-ambiente, e ainda que, segundo o Guga, o Baraca tenha sabotado a Rio+20, não encontro nada comparável à preferência dos republicanos pela produção e pelo consumo desenfreado sobre a preservação da Natureza. Em outras palavras, acho mais grave não ter assinado o Protocolo de Kyoto do que ter faltado à Rio+20. E é claro que tudo isso deve influenciar as eleições nacionais, ainda que através de um gesto pontual como o socorro (obrigatório) às vitimas de um furacão.

A mensagem que vai na atuação direta com o incidente é a da preocupação em reverter o efeito estufa e outros males que o século vinte legou à Terra. Acredito que são notadamente dois e que estão diretamente relacionados ao furacão Sandy: endireitamento de rios e similares (o mundo todo fez marginais, cortou morros, construiu aterros, enfim), e  a cultura do carro e da gasolina.

Há quem inclua nisso o volume da produção de carne e o consequente gás metano, mas com reservas, porque nela vai a maravilha que é a proteína animal e todo o bem que ela fez à humanidade.

Para encerrar logo, até porque este assunto, além de distante, aqui mesmo já vai longe, se fosse votar na eleição de hoje tentaria somar a frequência de incidentes tidos como naturais à escala do terrorismo e decidir pelo candidato mais adequado a frear estes números, e assim escolheria o Barack Obama, não por ser o bom, mas por parecer o melhor intencionado.

 



Escrito por Léo Coutinho às 15h17
[] [envie esta mensagem] [ ]



Passeando em Finados

O casal mais bonito da paróquia tem nome e sobrenome: Angelina e Amadeu Santisi. Não sei qual é a relação entre eles, mas sei que vivem em endereços distintos: ela na Zé Maria Lisboa ao lado da pizzaria Veridiana e ele na rua Saint Hilaire, onde quem faz pizza é a Prestíssimo.

Individualmente o mais bonito lá do meu pedaço é o Ipê, que fica na Capitão Pinto Ferreira, ou Capetão simplesmente, como prefere a Patrícia Pimenta, moradora que migrou há muitos anos. Meu palpite é que o Ipê é parente da Angelina e do Amadeu. Creio que os três sejam filhos do Vilanova Artigas. Mas com certeza só o Amadeu, porque ostenta na fachada um painel lindo do artista e arquiteto que também desenhou o Edifício Louveira, que é o mais feliz da freguesia de Higienópolis, tanto pela arquitetura quanto pelo entorno.

Gosto muito de onde eu moro, mas estou de mudança. Um freguês desta página pode duvidar que eu sinta algum tipo de vergonha, mas a verdade é que uma delas é ainda viver em casa de mamãe. Que luta! Aquela história de padecer no Paraíso depois de um tempo o homem herda. A mordomia é boa, qual o carinho, mas o nego sofre mesmo assim. Tenho que dar um jeito e para logo.

Morei alguns períodos fora, um deles na casa de Juquehy, que também era dela. Hoje já não vou lá. Tenho preguiça. Na quinta-feira de véspera do Dia de Finados fui fazer sauna no clube e o Manduca, que batizado foi Armando Iaropoli Neto, me disse que pela previsão do tempo mais de cinquenta por cento das pessoas deveria desistir de ir a praia. Concordei. O diabo é que a outra metade já é mais que o dobro do que as estradas e as próprias praias comportam.

Outra coisa que fiquei sabendo é que entrou ladrão na casa. O saldo do roubo ainda não temos, porque parece que ele ainda está lá. Isso já tem pelo menos uns seis meses. Um vizinho disse que eles são amigáveis e que não fugiram pelo mesmo motivo: receio de congestionamento. Ora, todos hão de convir que não fica bem fazer uma fuga com a Rio-Santos entupida. Vamos ver se depois do carnaval eles fogem. Eu que morei lá sei que o fim de semana do dia das mães é menos cheio. Fica a dica.

Por essas e outras passei o feriado em São Paulo, no que cada vez mais acho uma delícia. O do Ano Bom é o melhor de todos. Consigo aproveitar as ruas, comer as jabuticabas e as pitangas que estão pelas calçadas, ver arquitetura boa como a do Artigas, passear com a Una, ficar a sós com a minha Nega. E descobrir lugares novos, inclusive na minha paróquia. Vejam que sorte.

Na noite de quinta, depois da sauna, fui enfim ver um restaurante Siciliano que fica na Itú entre a Nove de Julho e a Pamplona, chamado Taormina. Desde que vi a Connie Corleone matando o Don Altobello com uma porção de cannolli persigo esses canudos, e por uma conversa entre o Pedro Rosa Bandeira e o Fabio Mazza ouvi falar do Taormina. Chegamos e entramos, mas descobrimos que estávamos, na verdade, na Tasca da Esquina, filial paulistana de um restaurante moderninho de Lisboa. O Taormina é vizinho e só funciona no almoço.

Ficamos e fomos felizes. Sem reserva, nos restou uma mesa diante da boqueta, que apesar do frisson é agradável, até porque as galeras tanto da cozinha quanto do salão incluem portugueses genuínos, o que deixa tudo pitoresco.

Resolvi me deixar na mão do chefe numa degustação de quatro pratos – pode-se ir até sete, com sobremesa. Começou com um gaspacho de manga e presunto, evoluiu para pastéis de pato com chutney de pimentão e abacaxi (ótimo), seguiu com camarões entre umas torradas que eles chamam de tostas de trigo, o que me pareceu uma redundância de crocantes, mas que estavam bons, apesar do sal excessivo, e finalizamos com um bacalhau a Brás refinadamente rústico e algo cremoso, como se levasse as natas daquela outra receita.

Quem nos atendeu desde o começo foi um garçom simpaticíssimo chamado Wando, que já se aportuguesou. Quando perguntei se seu nome era uma homenagem ao saudoso cantor colecionador de calcinhas, me respondeu: - “Não acredito. Mamãe não faria isso comigo”.

No final o dono veio à mesa e vendeu uma degustação de sobremesas e um cálice de ginjinha “com elas” para acompanhar. Eram os doces: claras em neve com favas toncas (ovos nevados com um tipo de baunilha), creme queimado (creme brule), mousse de chocolate e então a gloriosa, a colossal, a apoteótica Encharcada de Ovos. E ainda tem muito mais. Voltaremos. Mas antes, ao Taormina.

 



Escrito por Léo Coutinho às 16h25
[] [envie esta mensagem] [ ]



Eu te disse, eu te disse!

Sempre acho que é do Muttley, o cachorro do Dick Vigarista, o bordão que peguei emprestado para o título. Mas o Google, aonde fui conferir a grafia do nome do cão com espírito de porco, me corrige avisando que “Eu te disse, eu te disse!” era a Motoquinha pentelha que repetia e repetia e repetia.

Ontem pela manhã, quando botei as mãos no Estadão, tal qual à Motoquinha obsessiva voltei à cozinha onde a minha Neguinha terminava o café. Sem mais ninguém para alugar, sobrou para ela tolerar a minha imodéstia despudorada em plena manhã de domingo.

Logo na primeira página três destaques repetiam o que eu escrevi nesta página há mais ou menos dois e há um ano, respectivamente. A manchete antecipando o que a prefeitura do Haddad (que é petista, mas disse à revista Época SP que seu governo não será, Oxalá!) e a chamada para o artigo do Fernando Henrique diziam a mesma coisa, porém de fontes antagônicas: é preciso dar atenção à nova classe média, estuda-la a fundo, até pelo princípio da recíproca, porque essa turma está estudando como nunca. Ao contrário dos entediados acomodados no topo da pirâmide, para eles tudo é novidade e excitante. Compram computadores, assinam jornais, revistas, TV a cabo, frequentam novos lugares, trocam de carro, querem viajar, experimentar, saber, e isso inclui política. A chave para o PSDB é contar que a transformação do Brasil não é milagre do Lula: começou com o Plano Real e o fortalecimento da democracia, quem nem Lula, nem Collor, souberam respeitar. Está aqui numa crônica chamada O ovo do tucano, de 19 de outubro de 2010.

E o presidente FHC capricha muito mais citando o artigo do Carlos Mello publicado no mesmo jornal, nós tucanos temos que explicar o que significa ser liberal na economia, social-democrata nas políticas públicas e progressista nos costumes, mas pondera que “Essa poderia continuar a ser a mensagem do partido, desde que se acrescente ao liberalismo econômico o contrapeso de um Estado atuante nas agências reguladoras e capaz de preservar instituições-chave para o desenvolvimento, como a Petrobrás e os bancos públicos, sem chafurdar no clientelismo e na confusão entre público e privado. O progressismo nos costumes implica a defesa da igualdade de gênero, o apoio às medidas racionais de compensação social e racial, bem como políticas modernas de controle da violência e das drogas que não joguem as populações pobres contra os governos. Sem esquecer que o crescimento do produto interno bruto (PIB) só é satisfatório quando respeita o meio ambiente e beneficia a maioria da população.”

Mas vamos adiante. Na manchete do caderno Cidades, o óbvio que ululava sem ninguém notar: os traficantes cariocas estão em São Paulo desde a ocupação dos morros no Rio. Confiro agora e noto que escrevi isto no três de abril deste ano, o que segundo o Estadão a PM confirmou prendendo os imigrantes do Rio abrigados em Paraisópolis.

Ora, só não viu quem não quis. Os governos federal e fluminense ocuparam várias comunidades controladas pelo tráfico de drogas e não prenderam quase ninguém. Ato continuo, a criminalidade explode nas cidades ao redor da Guanabara e em seguida São Paulo começa a conviver com a proliferação de bailes funk e arrastões, que nunca tiveram espaço por aqui. Nem precisa ser esperto para fazer a conclusão. Está aqui no arquivo sob o título de “Mais carioca que os biscoitos Globo”. Eu te disse, eu te disse! 



Escrito por Léo Coutinho às 14h39
[] [envie esta mensagem] [ ]




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]