Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis


 
Blog do Léo Coutinho


Cidadão modelo

Hoje a moda mudou, e a mulherada anda mais atrevida, se permitindo ao desejo de usar roupas que antigamente eram exclusivas das chamadas “incansáveis operárias do amor”. Isto é: antigamente, só puta se vestia de puta. Numa inversão de valores, surge um fenômeno que é o freguês que busca uma namoradinha pacata e recatada no baixo meretrício, e paga para ouvir dez vezes não, ver cara de nojo, dormir de conchinha. Tempos modernos.

Mas nos idos dos anos 1960/70, a cidade de São Paulo conheceu uma figura que, na porta do clube Samambaia, no Guarujá, estando acompanhado de meia dúzia de putas notórias (meia arrastão, mini saia de couro, unha vermelha comprida, chiclete na boca), foi advertido pelo porteiro (ainda que de forma polida, que também anda rareando):

- Mas, seu Oswaldinho, essas senhoritas são meio suspeitas...

E o Oswaldinho:

- Não, meu caro: essas são putas mesmo, eu garanto. Suspeitas são as convidadas.

Personagem de uma época, figura excêntrica essencial em qualquer sociedade, desde uma aldeia até a maior metrópole do mundo, Oswaldinho Vidigal deixou sua marca na história de São Paulo. Descendente de banqueiros, tinha capital de sobra para o exercício de suas extravagâncias. Viveu permanentemente como um artista performático, sem nunca ter se preocupado com o reconhecimento da crítica e do público. Talvez do público, vá lá, que ele gostava de chocar. Apresentava-se assim:

- Muito prazer, Oswaldo Lara Vidigal. Todo Lara é louco; todo Vidigal é ladrão.

No auge da Rua Augusta, quando a sociedade paulistana procurava ver e ser vista nas carangas e calçadas fazendo o footing, os lojistas chegaram a mandar acarpetar toda a extensão da via, como decoração de final de ano ou coisa que o valha. Rindo-se daquela caipirice toda, Oswaldinho entrou em cena e desceu a Rua Augusta montado em um cavalo. A freguesia deste blog, neste momento – e com razão – pensa assim: “Até aí, nada demais.” Pois é, mas isso porque eu já ia me esquecendo de dizer que, do traje apropriado para montaria, as botas eram as únicas peças que o Oswaldinho usava.

Outra que ele gostava de fazer, antevendo essa volúpia executiva que desperdiça a vida trancada em escritórios, era mandar encher um caminhão com areia da praia, espetar guarda-sóis, espalhar esteiras, armar cadeiras de náilon e enfeitar com meninas lindas de biquíni. Depois saía, numa terça-feira ensolarada, tomando sol ao lado delas e saudando os amigos presos nas bancas, bancos e escritórios da Rua Boa Vista e da Avenida Paulista.

De tanto aprontar, acabou expulso da Sociedade Harmonia de Tênis, mas não se fez de rogado – muito pelo contrário: alugou um helicóptero e lançou na pequena piscina do clube centenas de pastilhas de Alka Seltzer. Contam ainda que, no dia em que a filha do presidente que o expulsou chegou para a festa em que iria debutar, encontrou a Rua Canadá congestionada por centenas de galinhas que traziam seu nome escrito em placas penduradas nos pescoços.

Por essas e outras a dúvida de todo anfitrião era convidar o Oswaldinho para as festas e torcer para que ele viesse num dia tranquilo, ou não convidar e passar a festa temendo a pilhéria. Um que resolveu não convidar soube no dia seguinte que o desafeto contratara moleques de rua para recolher todo tipo de merda nas calçadas e espalhar pelas maçanetas das Mercedes e Galaxies dos convidados. Até que um menino, diante de um Fusca, perguntou ao comandante da operação:

- Seu Oswaldo, e nesse aqui, eu passo?

- Esse já está na merda, não precisa – respondeu o Oswaldinho.

E por falar em Galaxies e meninos de rua, naquela época ele já praticava modalidades que só recentemente foram reconhecidas. A primeira era uma banheira instalada no porta-malas de seu Galaxie onde ele protegia uma tartaruga marinha, na vanguarda da ecologia. Sobre meninos de rua, ele foi o primeiro a empregar um batedor de carteiras egresso da carceragem, criando um programa de reabilitação social casado com formação técnica, onde o profissional ensinava as manhas da atividade aos trombadinhas que só sabiam puxar cordão de ouro e bolsa de madama.

Faz ou não faz falta um cidadão exemplar como esse?



Escrito por Léo Coutinho às 13h58
[] [envie esta mensagem] [ ]



Crônica de ano novo

Crônica publicada no Portal Onne em 08.01.2010

www.cesargiobbi.com.br

 

 

Deus me negou esse dom de fatiar o tempo. Nada obstante minhas implicâncias com os costumes tropicais nas festas de Ano-bom, simplesmente não reconheço a importância da data. Para mim é mais um dia de festa, que como qualquer outro poderá me emocionar, conforme aconteceu este ano, na ceia da tia Meire e do João Reis, onde pouquíssimas vezes eu deixei de comparecer nestes 32 réveillons que já enfrentei, e sempre fui recebido com todo carinho. Inclusive no de 1990 eu estava lá, no gramado, olhando os fogos que eles sempre capricham, e me lembro que havia nas pessoas um frisson a mais pela virada da década, que se repetiu com mais intensidade em 2000 e 2001 com a discussão sobre o século e o milênio, mas que esse ano pouco ou nada se comentou.

Dizer que eu tenha dificuldade em perceber e compreender o mistério do Tempo seria uma simplificação. Simplesmente ignoro, não presto atenção. Ou por outra: não tenho essa pretensão. Não sei dizer, por exemplo, se uma criança tem quatro ou oito anos; nem saberia medir, como costumam fazer, o valor de um caso de amor pelo número de aniversários comemorados; dormir, acordar, fazer refeições, aproveitar a praia, trabalhar, tomar um drinque – para mim, como na marchinha, “todo dia é dia, toda hora é hora”. A vida vem em fases, e o calendário é só uma muleta burocrática.

Mas alguém há de dizer: isso é papo de poeta, não funciona na vida real, que depende de programação. Ora, que bobagem... A vida, assim como disse o Mussolini sobre a Itália, não é difícil de ser governada – é inútil. O Rubem Braga uma vez mandou trazer do seu Cachoeiro natal um relógio que fora da casa de seus pais, que às quatro horas marcava cinco e batia onze. Quando uma visita reclamava, ele se justificava dizendo que já estava desanimado de querer as coisas todas certinhas neste mundo. Neste momento a mesma pessoa vai lembrar: “Mas o Rubem é poeta!” De fato, em prosa, é. E para você, freguês inconsolável, ofereço as memórias do Wilson Quintella, onde executivo ex-presidente da construtora Camargo Correa narra “a história das maiores obras do país e dos homens que as fizeram”. Quem tiver o prazer de ler vai conferir que nada de concreto ou abstrato pode ser programado, e que é preciso saber dançar a valsa conforme ela chega, sendo impossível combinar a sequencia com a orquestra Celestial, e muito menos acreditando na folhinha pendurada na cozinha como programa.

Ainda assim, minha cara freguesia, vou confessar uns sentimentos esquisitos que vem surgindo desde que cheguei para essa temporadeta caiçara. Por exemplo, sempre que olho para a minha cama desarrumada quando chego em casa, penso que dormia melhor quando a encontrava esticada e perfumada, sob colcha grossa e diversas almofadas decorativas, as quais nunca entendi e sempre considerei um estorvo. Ou à noite, quando o desejo de dar uma olhada no que tem na geladeira interrompe a leitura, sinto um muxoxo ao encontrar no freezer todo aquele lastro de gelo, copos e alguns espíritos gelando, e nenhuma bandejinha de esfihas, ou um pacote de salsichas, um pote de sorvete, um escasso picolé. Na geladeira, vejo um vidro de picles, outro de azeitonas, um com cerejas para Manhattan e a velha mostarda dijon. Mas eu queria mesmo era um bife à milanesa que tivesse sobrado do almoço, salada de batatas, um pouco de arroz, outro de feijão, lascas de manga. Além de iogurte, refresco de caju, queijo minas, geléia e goiabada que moram na porta.

Cheguei a imaginar que essa nova bossa fosse influência das visitas que fiz à casa da Daniela e do Daniel Silveira, onde comi macarrão à bolonhesa; picadinho com farofa, banana e ovo frito; peito de frango com creme de milho e arroz branco; bebi café de coador. Convivi, estando avulso, com mais três casais – além do anfitrião –, nove crianças e um batalhão de babás. Pude aprender receitas e fumar charuto com o Zito, rever com calma toda a energia que brota do Fofinho, meu ex-chefe, e reparar no Rui, amigo novo, que o esporte é mesmo algo que serena a alma do homem. Participei, creiam, de um debate sobre onde adquirir, com o melhor custo benefício, roupas para crianças. Mas quando comecei a ficar com vontade de jogar tranca, estranhei que estivesse gostando e preferi me pirulitar. Pedi licença às senhoras (Daniela, Fernanda, Daniela e Ana – por ordem de marido citado) e parti.

No caminho de volta, pela praia, namorando o crepúsculo, fiz as contas e entendi que nada disso é novo. Isto é: não é de hoje que tenho amigos casados e com filhos, babás e a tralha toda; tenho família grande com mais uma porção de primos nas mesmas condições; casa, comida e os frios que mais gosto na geladeira. E minha cama, se passa o dia desarrumada, não está diferente do que foi nos quatro anos que vivi na praia, e eu mesmo poderia estica-la, se quisesse, e até combinar com a empregada que voltássemos ao antigo trato de serviço diário.

Mas se a única novidade na minha vida é que agora estamos em 2010 – e isso para mim tanto faz – a mudança só pode ser de fase, e que posso estar diante de um chamado da vida para o lado ensolarado da rua. Veremos. Mas se na segunda-feira eu acordar espontaneamente cedo e contente em trabalhar, pego o primeiro ônibus para o psiquiatra. Ou para benzedeira – o que passar primeiro.



Escrito por Léo Coutinho às 18h03
[] [envie esta mensagem] [ ]



Passeio n'areia

O editorial da Folha de hoje mostrou que o Clóvis Rossi voltou dos feriados em plena forma. Está impecável em seu protesto “O foguete Brasil caiu em Angra”, numa alusão à capa da Economist, onde faz coro com o Janio de Freitas contra o que este chamou de “urbanismo criminoso”, se estende apontando para os tietes históricos ou neófitos do governo atual, que fecham os olhos para o descaso com educação, saúde e segurança, querendo crer que há mudanças no quadro da “obscena desigualdade social”, e encerrou chamando atenção para a cor das vitimas das enchentes, em sua maioria “pretos, pardos, cafuzos, não-brancos”, com a exceção dos gaúchos e dos turistas da pousada (eu incluiria São Luiz do Paraitinga, que é, de fato, um caso à parte). As duas últimas frases são as seguintes: “Preto e pobre vítima da combinação do subdesenvolvimento com excessos da natureza é rotina. É aquele imenso pedaço do Brasil que nunca emerge, mas vira e mexe submerge”.

Li a opinião depois de almoçar um comercial de filé de pescada com arroz, feijão, farofa e salada de agrião com cebola, no restaurante do Pascoal, e concluí que era hora de aproveitar a maré baixa e sair para um passeio digestivo na areia batida.

Logo no começo tive uma visão espetacular, que não chegou a desbancar o editorial, mas tirou, com dengo e cadência, um quinhão da sua razão: uma mulata jovenzinha, acompanhada por duas amigas brancas, mas absolutamente integrada ao trio, inclusive no quesito “poder econômico”. Isso, mesmo nos jovens, fica muito claro quando se repara na postura, nos dentes, no cuidado com a pele e os cabelos – sem falar na qualidade dos panos e acessórios, como óculos de marca. E ajuda muito: depois da mão Divina e do trato do homem (obrigado, Vanzolini), o que mais enfeita a mulher ainda é uma graninha extra para o cabeleireiro, o esteticista e as roupas bem cortadas. Tudo isso elas tinham. Mas no quesito “Deus foi quem criou” a mulata botava as amigas no chinelo. Era perfeita. Irretocável. Pena não poder ver as prováveis jabuticabas censuradas por lentes italianas. Pensei no que diria o Sargentelli diante daquele borogodó. Não ia adiantar prometer viajar à Europa, porque isso ela parece fazer todo ano, na companhia dos pais. Concluindo: que me perdoe o Clóvis Rossi, mas hoje eu encontrei na praia um pedaço (de mau caminho) do Brasil que pode emergir e, melhor, ficar por aqui, ao contrário de antigamente, que elas eram como o café tipo exportação, e a gente só via no carnaval.

Outro fenômeno cada vez mais comum no verão é o das “surpresinhas da areia”. Não, isso nada tem a ver com o picolé Frutiverão, que desbancou a concorrência com o velho malho do palito premiado. Lá na casa da Daniela e do Daniel Silveira eu pude ver o êxito da velha prática em nove bocas de criança. Nem tampouco me refiro à satisfação de conferir que aquela coroa que estrela os nossos sonhos desde os verdes anos durou mais um verão e ainda dá um caldo. É como diria o outro: a feijoada mais gostosa se come na véspera de estragar. Agora há pouco encontrei uma delas no passeio, e aceitei o convite para uma caipirinha. Na areia, conversando amenidades, fomos matando a saudade, botando o papo em dia e, como de costume, a conversa derivou para uma sacanagem leve. Perguntei se ela tinha lido na coluna na Chris Mello, no Estadão, a nota sobre um documentário sobre o processo da indústria farmacêutica na busca pelo Viagra feminino, em resposta à chamada “disfunção sexual”, que é o novo eufemismo para frigidez, na mesma linha da “disfunção erétil”, que evita dizer que o distinto brochou. Ela respondeu que não, e desdenhou: “Ora, Leozinho, você sabe que qualquer homem bom traz essa resposta na ponta de língua”, e avançou, corando as faces deste bloguista: “A do meu namorado parece um peixe fora d’água”.

Mas vamos mudar o rumo dessa prosa antes que eu me esqueça de explicar as “surpresinhas da areia”. Quem são elas? São justamente aquelas meninas que não chamam atenção quando estão vestidas, mas que na praia, ou na piscina, podem exibir, com segurança, o produto adquirido à custa de muito suor nas academias. Mesmo de biquíni, pelo conjunto elas não chamam atenção. Mas individualmente cada parte de seus corpos é cheia de beleza e graça, e pode fazer a alegria de quem souber prestar atenção, e com uma vantagem adicional: elas trazem um sorriso franco e fácil, raro de se ver nas Vênus de nascença.

Para encerrar a crônica que começou com o cataclismo ambiental que assola a Nação, quero oferecer o Troféu Sustentabilidade, que vai para o Joãozinho. Sabe-se que o Joãozinho é aquele moleque impertinente que sempre traz, no couro do bodoque, um impropério para atirar contra qualquer pessoa, principalmente contra tias e professoras. Neste caso, o Joãozinho se chama Guilherme, e lá vem ele, descendo a praia em direção ao mar, carregando um balde de plástico transparente, repleto de conchinhas de areia, que pela quantidade e qualidade poderiam enfeitar o Sambaqui do próprio Tibiriçá, e que portanto devem ter sido cuidadosamente selecionadas pelas meninas da casa nos últimos dez dias. De dentro da água, uma magrelinha esganiçada percebeu a iminente cagada e gritou: “Minhas conchinhas não!” E outra, ao seu lado, também desesperada: “Manhê! Olha o Guilherme!” A tal mãe já vinha atrás, em vão, tentando alcançar o infante e gritando: “Guilherme páaaaaara!” Ele então estaciona na beira d’água, e embala o balde, num bamba-lalão ameaçador. Muito aflitas, várias meninas se põem ao seu redor, inclusive a mãe e algumas tias, mas todas evitando o confronto que espalharia conchas para tudo que é lado. Uma menina, chorando, ameaçou: “Se você estragar, você vai ver!”. E a mãe, impotente, fez coro: “Guilherme, o seu pai chega amanhã, pensa bem, menino!” Foi quando veio uma onda e ele esparramou o conteúdo, sem dó nem piedade, para o sempre. E antes que a mulherada, em choque, conseguisse uma reação, bradou: “A gente tem que proteger a Natureza! Deixa as conchinhas viver em paz!” E correu, correu, feito um sonrisal.



Escrito por Léo Coutinho às 19h50
[] [envie esta mensagem] [ ]



Grandes expectativas

Esta é uma velha casa de trinta anos. Não seria, se fosse construída em pedra, longe do mar. Mas não. Ela é uma casa caiçara e pré-fabricada, com trinta anos de idade, sol, chuva, calor, umidade e maresia. De qualquer maneira está aqui, e eu nela, contente como fomos esses anos todos.

Ela já foi mais bem tratada, é verdade. Antigamente, tomava banhos de verniz bienais e todo reparo necessário era para já. Se aparenta mais idade do que realmente tem, é por falta de trato, conforme acontece com qualquer caiçara genuíno. É implacável: a manutenção está para as casas como a higiene, as orações e os exercícios para as pessoas: só adianta se for feita todo dia.

Mesmo assim, meio negligenciada, ela resiste, acolhendo todos que chegam de portas e bar aberto, como qualquer caiçara. O papo na varanda ainda é o mesmo, simpático e imprevisível.

Se o fogão não faz fumaça (como diria o Silvio Modesto) para chamar mais gente, a culpa é do hóspede. Mas se precisar ainda sai uma moqueca baiana, um rosbife de se comer em dois ou três dias, a até o penne a la rabiatta de outrora. Antigamente, de noite, fazia-se muita pipoca, que era regada com Tanjal. Hoje Tanjal já não há, e nem crianças dispostas a engoli-lo. Em seu lugar temos feito Manhatans, Dry Martinis, Horse Necks, Negronis. No dia seguinte, para reanimar, rebatemos com cerveja ou Gin Tonica.

Quando a varanda passa a noite vazia, penso que a grama precisa de uma poda, que o hibisco é como uma nuvem, instigante e incontrolável, ouço música e me sinto como aquela velhinha do Great Expectatios, que morava num casarão em ruínas, bebendo martini seco e ouvindo Besame Mucho. Aliás, penso que a nossa única diferença é que eu não tenho aqui uma sobrinha como a Gwyneth Paltrow. Mas aí quem sai ganhando sou eu, porque pra mulher de mau caráter eu ando sem paciência, e naquela fita ela é muito cruel. Mas se a sobrinha nos separa, a esperança nos une,e graças a Deus se há uma coisa que não me falta são as grandes expectativas. Inclusive para esta velha casa.



Escrito por Léo Coutinho às 21h54
[] [envie esta mensagem] [ ]



Frederico e eu

Posso dizer que venci a única eleição que disputei na vida. Sobre meu desempenho no cargo, infelizmente, não tenho boas notícias. E isso dói.

Foi no fim do século passado. Meu amigo Paulo Almeida Ribeiro me telefonou num dia de semana participando que, naquele dia, eu não voltaria ao trabalho depois do almoço, porque tinha um assunto sério para tratar, que poderia levar a tarde toda. A reunião foi na casa de uma tia dele, Cláudia Toldi, que além de quarto para dormir ainda cedia a sala de jantar para as criações do artista, num tipo de mecenato que era muito divertido e festivo para todo mundo. Além de nós dois, na reunião estava presente o Gabriel “Bochecha” dos Reis. E o Paulinho, que vulgarmente a gente tratava de Alemão ou de Surfe, foi direto ao ponto:

- Lelê está grávida e vocês vão ser tios.

Dito isso, abriu um uísque e ofereceu charutos, antecipando a comemoração própria da aterrissagem da cegonha, e passamos uma tarde contente, onde tramei meus primeiros passos.

Decidido a ser padrinho do bebê, comecei a me movimentar. O apoio do pai, que considerava certo, deixei por último, para não me perder numa questão de casal. Então fui sondar a mãe, que na vez dela, ainda bebê de colo, recebeu numa pia batismal em Veneza o nome de Alessandra, filha de Donatella Lanza e Edgard Albuquerque. Claro que ela já tinha planos traçados, com amigos de infância na cabeça da chapa. A madrinha seria a Marília Franco, e o padrinho o Rodrigo Penteado. Nós, os moleques amigos do Paulinho Surfe, nem sequer éramos cogitados.

Diante do que já era previsto, adotei um discurso de equilíbrio, apelando para a representatividade dos pais na escolha de seus suplentes, mas mantive a estratégia de só convocar o Alemão na última hora. Comecei pelas avós, que eram as pessoas com alguma influência sobre a Lelê – se é que isso é possível. O mais difícil, no entanto, era enfrentar as virtudes do meu adversário. Enquanto eu tinha vinte e poucos anos e um vasto currículo de irresponsabilidades, o Rodrigo já era um homem feito, notadamente sensível e equilibrado, escritor com livros publicados e muito querido por todos. Minha sorte foi ele não ter feito campanha, sem dúvida por considerar uma indignidade qualquer coisa do gênero atrelada a um assunto desse quilate.

A nonna Tella, conforme já era tratada a avó materna, não me deu trabalho algum na sedução política. A gente sempre se deu muito bem, desde a primeira vista, e ela confiou em mim como bom padrinho, aderindo quase que espontaneamente ao pleito. Com a tia Bianca, mãe do Paulinho, não foi muito diferente, porque o santo também batia há muitos anos. Ainda assim, para reforçar sua predileção pelo meu nome, intensifiquei minha reserva de bitucas de cigarro, que é das coisas que ela mais gosta, sempre tomando cuidado para estar abastecido de Hollywood maço quando sabia que a encontraria. Os avós Edgard e Jorge ficaram neutros, como convém a todo aquele que não quer saber de confusão.

E assim a campanha foi rolando, macia, tendo a gestação como prazo. Mas quando veio notícia que o bebê era macho e que se chamaria Frederico, senti que poderia avançar na busca por uma definição. Minha razão era espiritual: eu mesmo, não fosse batizado José Leonardo, seria Frederico. E nesse dia minha própria mãe entrou na campanha, conformando a história para o Paulinho, que enfim pôde manifestar-se em meu favor, ainda que sem tomar partido, como é mais prudente. Vencemos.

Frederico nasceu no 24 de fevereiro de 1999, esparramando alegria pela maternidade do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Nós tínhamos tudo para uma festa normal, talvez só uma banda faltasse, mas a emoção da chegada de um dos nossos supera qualquer pileque, e ficamos todos querendo botar os olhos nele, tentando entender o milagre da vida.

Ainda bebê ele morava na Alameda Lorena, e a impressão que eu tenho é que fiz mais visitas do que o normal, sendo até algo invasivo algumas vezes. Já criança ele mudou-se para a Rua Renato Paes de Barros, em frente ao bar São Pedro São Paulo, e eu continuei bastante presente, embora sem a mesma assiduidade. Então ele foi para uma casinha charmosa lá para os lados do Brooklin, e eu vim morar na praia, onde fiquei uns quatro anos, mas acabávamos nos encontrando no Mulata, o meu falecido restaurante, ou numa casa que a Lelê alugava na Barra do Sahy, ocasiões em que eu podia me atualizar das coisas que ele aprendia e comentava, como na vez em que, diante de uma discussão de casal entre seus pais, chamou um amigo de escola que era seu hóspede e comentou: - “Sabe, meus pais são gente boa, só ficam assim quando passam muito tempo juntos”.

Essas e outras pérolas dariam uma biografia aos dez anos de vida, e minha vontade era viver cada uma delas. Porém, quando me queixo de minha própria ausência a amigos comuns, que me pedem notícias dele, encontro ombros compreensivos, mais vividos, que sabem que esses encontros e desencontros só a vida pode promover, e que o melhor golpe é saber esperar a nossa vez.

Mas o que me trouxe aqui foi uma vontade galopante de encontrar com ele, olhar bastante, dar um passeio e saber das últimas. E essa vontade vem desde o último dia 24 de dezembro, quando pelo telefone da minha comadre querida eu pude cumprimenta-lo e desejar-lhe feliz Natal, bater um papinho e ouvir o seguinte antes da linha cair: - “Um beijo, Dindo. Feliz Natal. Te amo”. É ou não é de doer de saudade?



Escrito por Léo Coutinho às 22h34
[] [envie esta mensagem] [ ]



A ausência de uma menina

Deve haver qualquer coisa de hábito nesse exercício de fazer crônica e botar no blog. Geralmente vou pingando, sem dificuldade, uma letra, depois outra, e quando vejo já tenho o material do dia. Mas aqui na praia, além de não estar pensando em nada, ainda sinto uma preguiça danada de apanhar o computador, trazer para a sala e começar escrever. Isso somado à desobrigação de ir ao computador, que temos no cotidiano,torna tudo mais difícil. Mas só até a hora em que começo. A partir daí o prazer volta e facilita as coisas.

Mas eu disse que não tenho pensado em nada? Não é toda a verdade. Anteontem, quando cheguei em casa de um dos convescotes vespertinos que todo dia acontecem por aqui, e que se estendem pela noite, convidei a Una, a cachorrinha, para dar um passeio na areia, ao luar. Ela anda com umas coisas esquisitas na pele, que a gente pode sentir afagando seu pelo, e a veterinária recomendou que ela ficasse longe da areia. Ora, por questões sanitárias, os cachorros não devem mesmo ir à praia, mas como a Una já tivesse feito suas necessidades, achei que não teria importância leva-la para caçar alguns siris, chamados maria-farinha, do mesmo jeito que eu fazia na infância, sempre voltando com alguns para assustar as meninas da casa. Ah, sobre a orientação da doutora veterinária, desconsiderei, por acreditar que as casquinhas na pele dela eram mais de estresse por saudade de brincar na grama e em grandes espaços do que por qualquer outro motivo – e estava certo: ela já melhorou muito.

Voltamos da praia sem siri algum, até porque não há menina para ser assustada em minha casa, e isso me entristeceu. Ficar sozinho tem suas vantagens, entre elas poder visitar amigos diversos sem se preocupar, ou não precisar combinar horário e tema para refeições, ou ler o Rubem Braga em absoluto silêncio na rede da varanda – esta que, depois de olhar as moças que desfilam orgulhosas, na areia, o produto da faina de um ano nas academias, é a melhor atividade que o homem pode exercer desacompanhado.

Mas lá em casa não tinha nenhuma menina, e nem mesmo um amigo para dividir a birita, e o jeito foi beber sozinho, ouvindo musiquinhas aleatórias no iPod, entre as quais uma não me sai da cabeça, por causa de uma frase que deve ser do Ronaldo Boscoli: “Fraco de lobo é ver o Chapéuzinho de maiô”. Quer coisa mais cafajeste? Não era o que eu precisava, mas me diverti assim mesmo. Então preparei um Manhattan e fui para a varanda, tendo a Una como companheira e uma espingarda como proteção. E lá ficamos, drinque após drinque, olhando a prata da lua nas folhas das arecas, que são umas palmeirinhas festivas e ordinárias, que meu pai plantou no lugar dos chapéus de sol, dizendo que além delas segurarem a poeira que os carros levantam, não soltam tantas folhas nem abrigam morcegos. Tenho minhas dúvidas se foi mesmo uma boa troca, até porque uma árvore é sempre mais digna, e o chapéu de sol, apesar de não ser nativo, tornou-se em símbolo do nosso litoral.

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/0/02/Fried_egg,_sunny_side_up.jpg/300px-Fried_egg,_sunny_side_up.jpg

A cada Manhattan, a ausência de uma menina tornava a casa mais triste. Ficar sozinho, vivendo de improviso, deixa o homem muito vagabundo, errante, sem compromisso com a casa, ou consigo. Uma casa só será um lar se tiver uma menina que coe café duas vezes por dia, espalhando no ar o aroma carinhoso da bebida. Era uma menina assim que eu gostaria de ter aqui. Uma menina que se orgulhasse do arroz branco que sabe fazer, do ovo frito de gema mole com a borda rendada na manteiga quente, de uma farofinha simples, com gosto de raiz, tanto pela mandioca quanto pela sensação de estar ligado a um chão, e que assim, suavemente, me fizesse ficar em casa. Mas essa menina não há.

Entrei um pouco para preparar mais um Manhattan e, da cozinha, ouvi um som diferente, mas como as plantas estivessem estáticas e a lua há pouco tempo brilhava intensa, concluí que vento e chuva não podiam ser. Errei. Era uma chuvinha boa, leve, talvez um ponto acima da criadeira, e na mesma hora me ocorreu que eu deveria tomar aquela chuva, que no fundo é a legítima Água Benta. Foi o que fiz: tirei a roupa toda, botei uma cadeira no gramado e lá me sentei até ficar ensopado. A Una, coitadinha, me fitava da varanda, incrédula, como se diante da estátua da insanidade. Mas se eu tivesse uma menina aqui em casa, poderíamos ter dançado, nus, uma valsa sob a chuva que me abençoou.



Escrito por Léo Coutinho às 17h39
[] [envie esta mensagem] [ ]




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]