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O dia feliz de um editor
As modas vão e vem por todos os cantos. Há modas de comer, beber, ouvir, elogiar, esculhambar, pentear, presentear e tantas outras; até de vestir. E, como não poderia ser diferente, o jornalismo também tem as suas. De vez em quando é uma palavra, uma figura, um tema. E também pode ser uma pergunta. Há algum tempo a pergunta predileta dos repórteres que entrevistavam seus pares, por ocasião da publicação de um livro, mudança de órgão ou coisa que o valha, era a seguinte: - “Qual notícia você gostaria de dar?” E a turma respondia o óbvio: cura da AIDS, fim da miséria, paz entre os homens. Se perguntado fosse, eu escolheria não a alvíssara definitiva, mas uma série de pequenas boas novas que pudessem ser curtidas com delicadeza, como marolas que chegam à praia, ou os pratos e os vinhos de uma ágape tranquila, sem hora para terminar. O Estadão de hoje chegou assim, e o doutor Ruy Mesquita deve estar almoçando merecida e folgadamente. Começa na capa, com a chamada da florada das palmeiras plantadas pelo Burle Marx, que nos leva direto a última página do Metrópole. Com direito ao retrato das copas exuberantes, no texto ficamos sabendo que essas árvores, nativas do Sri Lanka, florescem uma única vez na vida, antes de dar frutos e depois morrer. No ano do centenário do nosso paisagista, nada menos que uma dúzia, plantada por ele no Aterro do Flamengo, floresceu unida. E o mais bonito: ele sabia, quando as plantou, que não viveria para ver a florada, mas quis deixar um presente para os que vivessem. Os grandes homens são assim, capazes de plantar aroeiras na véspera da morte anunciada. 
Logo abaixo da matéria da Clarissa Thomé, outra jornalista carioca, Márcia Vieira, emenda mais uma grata novidade: depois de 24 dias de internação e duas cirurgias, um amigo centenário do paisagista, chamado Oscar Niemeyer, embarcou numa mercedinha e atravessou a Baía da Guanabara para lançar o quinto número da revista que edita com a mulher, Vera Lúcia, e declarou que, por tanta idade, não fica bem comemorar os 102 anos que completará no dia 15 de dezembro, mas que de qualquer maneira vai deixar as portas abertas para os amigos que quiserem chegar. É o melhor estilo carioca. E do Rio ainda vem mais: Roberta Pennafort assina a notícia do restabelecimento do Cordão da Bola Preta. Segundo ela, mérito do Sérgio Cabral, que conseguiu do filho governador a cessão de um imóvel no número 13 de uma rua na Lapa, que lhe servirá como sede. Como diz a marcha oficial do cordão, “quem não chora não mama”, e o Bola Preta tem todo direito de mamar. Afinal, são 90 anos de história, parelha às palmeiras do Aterro e ao Oscar, e uma cidade sem história não merece Olimpíada. De volta à primeira página, me delicio com a imagem de um rosbife impecável, preparado pelo restaurante Maní e premiado pelo caderno Paladar. Nada obstante (esteve em moda) o rosbife ser o prato símbolo da minha família, fiquei contente em saber que lá, onde cozinha uma menina linda chamada Helena Rizzo, não é endereço macrobiótico ou vegetariano. Não sei por onde eu desenvolvi mais este preconceito – e nem quero saber. Estou com água na boca para provar da iguaria e não vou me demorar. Agora o Caderno 2, coluna da Chris Mello. Logo abaixo da foto dela, que avança sobre o leitor como que para roubar uma bitoca, uma cauda de baleia, sedutora e grandiosa, fotografada em preto e branco pelo craque Sebastião Salgado. Com ela, a dica que depois de três anos sem uma exposição individual no País, outras duas meninas cariocas, chamadas Gigi Basto e Carolina Dias Leite, “donas do passe do Tião”, vão abrir a Galeria Tempo, com uma seleção de fotos do artista. Melhor: pelo menos até 2012 ele não vai aparecer nem para tomar um chopinho. Antes disso, vai ficar trabalhando. Que sirva de exemplo para os coleguinhas das artes tão dedicados ao café-soçaite. 
E enfim, o chantili: Luís Fernando Veríssimo, que passou os oito anos achincalhando o governo FHC, finalmente veio a público reconhecer que a derradeira crise econômica que abalou o País, depois de China, Rússia, México e outras, foi causada pelo terrorismo petista. De lá pra cá só tivemos marolinha. E comemora, ainda que a contragosto, o êxito da política econômica que transformou o Real em moeda e criou condições para o Brasil poder crescer, agora reconhecida pela revista The Economist. O contragosto aí eu compartilho, por entende-la continuísta e já conservadora, além de estar custando caro para nós, que no período só conseguimos crescer mais do que o Haiti. Para encerrar, encimando o chantili, a cereja, a jóia do doce, a jóia do dia: 26 de novembro é o aniversário da menina mais bonita que eu já conheci. Parabéns e beijos gordos em você.
Escrito por Léo Coutinho às 14h00
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De vez em quando morre um bar
A menina que eu adoro andou preocupada. Com jeito e graça confessou não saber o que será de mim quando acabar o Bar da Dona Onça. Ela é doce e talvez só estivesse investigando, à sua maneira, algum outro prazer por mim cultivado, além das conversas nas mesas dos bares. Quem é assíduo desta página sabe que eu tenho outros prazeres, mas só de ouvir a possibilidade do Dona Onça, que é praticamente um recém nascido, com tantos litros pela frente, baixar o pano, senti e não tentei disfarçar o medo em meu lábio inferior, que fremia como o de um menino cristão prestes ao confessionário. 
Logo em seguida me acalmei, lembrando que se por parte de mãe ele é filho da panela de pressão da Janaína, do seu lado paterno está o Clubinho dos Artistas, também conhecido como Bar do Museu, que era onde o Julinho Toledo Piza almoçava antes da sesta que fazia até o horário do uísque, e que hoje está nos estertores finais. Isto é: se a aclamação do Dona Onça se deve ao talento da Janaína e da Sissi, sua existência deriva da vontade do Julinho de ter um lugar para comer e beber ao lado de casa. Louvada seja a preguiça. Lembrando disso tentei explicar para ela que os bares são como as pessoas, e que de vez em quando morre um. É triste, muito triste, mas é a verdade. Quem vai ao estrangeiro pode beber em bares centenários; por aqui é muito raro. Menos difícil é que centenário seja o imóvel, a tradição familiar ou um garçom. Mas o próprio bar com cem anos de portas abertas é mosca branca no Brasil. Primeiro porque a nossa história é pouca, depois porque no nosso ritmo ninguém aguenta. Quero ver quantos pubs ingleses fariam aniversário fechando, sob protestos e pinduras, ao raiar do sol. Batendo o sino às onze horas e recebendo adiantado até eu volto para o lado de lá do balcão. Aqui em São Paulo a morte de bar mais chorada da nossa época foi a do Pandoro. Os senhores que lá resistiam há quarenta anos, na última mesa antes da curva para o restaurante, se perderam pela cidade, estranhando muito as cadeiras sem estofamento e o serviço executado por garçonetes universitárias. Ninguém me contou: vi com meus próprios olhos quando, diante de uma delas, o Pedro Paulo de Melo Saraiva corou, disfarçou a vontade do uísque de sempre e perguntou, coçando a cabeça e fazendo um bico: - “Tem açaí?” O Helito Bastos conta que quando morreu o Paribar, na Praça Dom José Gaspar, houve até velório ou, por outra, uma vigília cívica, que varou a noite com todo mundo enchendo a cara até não mais poder impedir o abotoar do paletó. Como a gente vê, até no estilo a morte dos bares é parecida com a das pessoas. O Pandoro, como um velho, foi abandonado aos poucos enquanto agonizava, mas manteve os bons amigos por perto até o suspiro derradeiro. O Paribar morreu de acidente, de repente, como os jovens, e mereceu velório cheio. O Ilha das Flores chegou a baixar UTI, mas foi salvo pelas mãos sagradas – e agora calejadas – do Felipe do Val e hoje, osculando os vinte anos, está a todo vapor. Eu tive um grande amigo de copo, não de bar, porque na praia onde a gente morava eles só funcionavam nos finais de semana. Todo santo dia, no final da tarde, eu ia a casa dele para derrubar um uisquinho. Às vezes era cerveja, mas também era mais cedo. No final de tarde era uísque e seresta, ou uísque e dominó, por vezes conversa, por outras calados. Ele se chamava Geraldo Bittencourt, mas a gente tratava de Tio Gê. E embora eu não tenha percebido na hora ele se despediu de mim. E tanto que, quando o telefone tocou, antes de tirar do bolso eu sabia que era o Marcinho, seu fidelíssimo escudeiro, portando a notícia. Exatamente como aconteceu com o Tio Gê e comigo, a gente sente quando o bar está se despedindo. No começo ninguém quer aceitar, mas com o tempo ele mesmo vai se distanciando e a nossa mesa se dispersando. Nos une e nos consola a possibilidade de oferecer, em qualquer endereço, um gole para o santo, ou para o amigo, ou para o bar, e a certeza de que um dia a gente volta a se encontrar.
Escrito por Léo Coutinho às 18h35
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As certinhas do Leléu - Karina Tavares
A Karina nasceu mais ou menos uma semana na minha frente. É pouco. Menos que nada. Mas se as meninas bonitas constrangem os meninos românticos com a simples presença, numa idade em que o tempo vivido faz diferença, o fato de elas serem um suspiro mais velhas é o suficiente para congelar qualquer movimento deles. (Elas amadurecem antes, e logo descobrem este poder, que será usado até o fim da vida.) O queixo é o primeiro que para, embaixo, e nada poderá ergue-lo. Em seguida some o movimento das mãos. Das pernas você esquece – convém estar sentado. E o olhar, ah, esse fica estático, como o de um peixe abatido, fixo num ponto qualquer, e daí em diante ela vive em câmera lenta. Foi exatamente assim que eu fiquei diante da primeira aparição da Karina Tavares na minha vida. Feito um David que o Michelangelo não esculpiu para economizar em mármore, Leléu em tenra idade era a estátua do constrangimento. 
Karina e Leléu em seu último encontro
Nós estudávamos no mesmo colégio e pertencíamos ao mesmo ano; quiçá à mesma sala, à mesma carteira... Mas posto que ela ia pela manhã e eu, como sempre, só funcionei à tarde, nós ainda não havíamos nos encontrado. A turma da manhã sempre foi mais esperta do que a da tarde. Pode ser aquele ditado que Deus ajuda quem cedo madruga. Tanto faz: de modo geral eles eram mais ligeiros e as meninas notadamente mais saudáveis. As da tarde eram lânguidas, românticas. Mas a saúde definitivamente estava nas meninas da turma da manhã. E a Karina era a mais saudável delas. Eu disse que éramos desconhecidos? Pois então: o destino corrigiu essa falta nos unindo em um desses acampamentos feitos para grupos escolares, tipo Sítio do Carroção ou Rancho Ranieri. Me lembro que passei o período todo em transe, só me reabilitando e tomando coragem para falar normalmente com ela já no ônibus de volta – e normalmente anoto que na concepção de um garoto: pedi o batom dela emprestado para passar na boca dos que dormiam, achando que ela ficaria encantada com a bagunça. Ela não aprovou nem reprovou, só pediu que eu tivesse cuidado para não quebrar o bastão. Em vão. Agora, perguntem se ela se chateou? Aparentemente, não. E tanto que debruçada sobre o espaldar da minha poltrona, me fazia cafuné e lamentava a minha insegurança. Naquele momento, um dos mais graves da minha vida, eu tive a certeza de que ela gostava de mim, mas não pude vencer o bloqueio. Insistindo nos ditados, é a tal da esmola, que quando é muita faz o pobre desconfiar até de si mesmo. No dia seguinte veio a desilusão: o nego mais feio da classe, meu amigo Thiago Moherdaui, chega com a novidade: está namorando a Karina Tavares. Eu ainda duvidei: - “Como é que pode, ô? A gente chegou ontem no fim da tarde e cada um fez a sua pista”. E ele: -“De noite eu liguei para a casa dela e perguntei: ‘quer namorar comigo?’; e ela disse que sim”. Foi a primeira noção do atrevimento próprio dos árabes que tive na vida. Além da própria natureza, a Karina leva uma vantagem oculta sobre as outras meninas: uma irmã mais velha, igualmente privilegiada em charme, saúde e beleza, chamada Renata. Esta é amiga da minha prima Dindin e, na piscina da Fazenda do tio Duva, onde eu passava o final de semana todo dentro d’água, disfarçando minha alegria em ver de perto tantas primas e tantas amigas das primas tomando sol, ela um dia me pegou e lamentou: - “Bem que você poderia ter telefonado antes. Aquele turquinho narigudo é muito feio, coitado”. Ironia do destino, hoje a Renata é casada com o Nando Abdalla. Mas justiça seja feita: ele é mais bonito que o Thiago. 
A Karina, se até hoje não veio me namorar, se arranjou com um galã de cinema e televisão, ator dos bons. Se eu sinto ciúme? Um pouco, não nego. Mas devo acrescentar, sem falsa modéstia, que quando vê as fotos do casal Leléu se sente bem representado. Como a lua, Karina segue feliz, brilhante e generosa em qualquer fase, mesmo se desaparece. E para completar sua vocação de satélite, tornou-se em fotógrafa, e hoje pega a luz do sol, e de outras fontes, e sai em busca da beleza que houver além dela.
Escrito por Léo Coutinho às 19h03
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O Curau
Não é da minha personalidade, mas eu gostaria de ter o hábito de telefonar amiúde e sem motivo relevante para amigos que há tempos não encontro. Me pegar pensando em um deles e simplesmente telefonar, procurar saber como estão indo, lembrar dos bares que fechamos, dos apuros que escapamos, dizer o quanto foi importante a passagem de cada um deles na minha vida e declarar o desejo de um encontro para um chopinho, para um uísque, para breve. 
Eu ligaria, por exemplo, para o Curau, ou o Regina, que batizado mesmo foi Reginaldo de Melo Lima. Queria saber como ele está, se se regenerou, se tem tratado bem a nega, se chega em casa para jantar e no dia seguinte se levanta a ponto de não se atrasar. Acho que não. E como estarão Cintia e Paola, suas filhas? Queria saber se ele ainda vai à quadra da Camisa 12 do Corinthians, se a úlcera deu sossego, se as moquecas estão liberadas. E à praia, em Mongaguá, será que ele tem ido, visitar seus pais e seu irmão, o Moinha, que lá na areia era fiscal? Queria me desculpar por ter recusado ceder a gravata que usava no dia de seu casamento, para a cerimônia de arrecadação; não era minha, mas mesmo assim não tem perdão. Estar lá, com a sua gente, ouvindo o couro comer nas mesas de lata, pontuou minha vida. Quando o Bezerra da Silva morreu eu pensei em você, que foi quem me apresentou sua música, e depois ficou com ciúme quando eu decorei as letras todas. A nossa Veraneio teve final inglório: morreu estampada no muro do Jockey Clube, em frente à casa do Alemão. Mas eu sei que entre nós, na nossa memória, ela vai estar sempre viva. E da Ipanema, você se lembra? Também se findou bestamente, na descida do morro de Camburi. Mas antes disso já tinha sobrevivido a apuros tremendos, como naquela viagem para Campos do Jordão, quando um pai enlouquecido, defendendo a honra das filhas, nos perseguiu de arma em punho. Quer dizer, perseguiu você, porque o Bochecha, o Luciano e eu nos enfiamos debaixo dos bancos, apavorados, enquanto você, aflito, clamava para alguém se levantar e pedir desculpas. Não me esqueço de quando você respondeu para a minha mãe, que explicava o próprio tom de voz dizendo que não era bronca, mas seu jeito de falar, e que àquela altura do campeonato já não podia mudar: - “Pois é dona Vera, papagaio velho só aprende palavrão”. Pois é,meu amigo, tenho saudades de você e principalmente das nossas conversas, das risadas que demos juntos. Qualquer dia eu pego o telefone e dou um jeito de te encontrar. Por enquanto fica com o meu abraço fraterno e esta lembrança.
Escrito por Léo Coutinho às 19h22
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Trabalho, amor e pescaria
Todos nós, incluindo você, freguês ou freguesa desta página, e o próprio bloguista, estamos sujeitos à injúria, à calúnia e à difamação, em maior ou menor intensidade. Em casos graves a vítima deve apelar à Justiça, para de alguma maneira restabelecer sua moral – o que raramente acontece. É como diz aquele ditado popular: “As ofensas são como as plumas de uma almofada aberta no alto de uma colina: se espalham de tal maneira que mesmo com todo esforço do mundo não se poderá reuni-las novamente.” Com as de menor intensidade o processo não é muito diferente. O que muda é o interesse do ofendido em estabelecer a verdade, obviamente menor e curiosamente mais eficaz do que o oficial. Ao meu respeito o palpite mais errado que já ouvi foi que eu seja contra o trabalho. Ora, logo eu, que me comovo com a lâmina já estreitada pela chaira que vai e vem a toda hora nas mãos do açougueiro; justo eu, que sinto vontade de ceder meu lenço ao motoboy que aguarda na fila do banco, para que possa recolher um pouco da fuligem impregnada à face; como eu, se me controlo para não oferecer salmoura e massagem nos pés às meninas mal pagas para enfeitar estandes em feiras promocionais? Tenho que confessar meu quinhão de culpa, por talvez não saber comunicar exatamente a minha implicância com o trabalho, e viver esculhambando seu conceito pelas mesas dos bares: minha diferença é com o trabalho cretino, desnecessário em propósito ou em condições. Diga-me, quem puder, qual a função de um palestrante, desses pagos para animar encontros de executivos? E me ajude quem souber a resposta para que os nossos ônibus urbanos não sejam todos climatizados e automáticos, poupando o infeliz do motorista, que cumpre uma função vital para qualquer cidade, de um esforço hecúleo e diário? Não tolero, não admito e vou continuar pregando minha indignação perante a estes e outros males aos quais nós vamos nos habituando, como se fossem plausíveis. Não são. E isso, quero adiantar, não é justificativa por esses dias afastado do blog. Explico. Entrei de gaiato num torneio de pesca oceânica, para o qual saí na sexta-feira à tarde e só voltei hoje, um bocado baleado. Logo mais pretendo engolir um Mirtax e descansar músculos que eu nem desconfiava que tinha. Ao comandante Mangabeira, Egláucio, Guto, Felipe, Zé Manda Bala e James o meu desejo de pronta recuperação física, já que as cabeças de vocês, como a minha, devem estar azuis e frescas como as águas singradas pela Dolce Vita. Voltando à minha defesa, vou aproveitar para desfazer mais uma que corre, eu sei, pelas bocas destituídas de assunto melhor: que eu fosse contra o casamento. Há quem acredite que eu nunca vou me casar, que não acredito no matrimônio, que meu destino é vadiar, e que por isso faço pouco dos casais que procuram se unir sob o mesmo teto e constituir família. Mais uma vez não é verdade, e como o fio antigo da faca do açougueiro a imagem da Zélia Gattai abraçada ao seu Jorge Amado sempre extrai lágrimas dos meus olhos. Acredito profundamente que o único sentido da existência humana é o desenvolvimento espiritual, e que este só se dá pelo amor, e que este deve ser exercido em suas diversas possibilidades, notadamente as mais intensas, que acontecem entre casais e entre pais e filhos.

Por outro lado, nunca neguei nem tentei disfarçar meu desprazer em conviver com casais que não se amam, que estão mais para duplas buscando atender às convenções e expectativas sociais do que aos próprios sentimentos. A estes, que se amam sem paixão, meu eterno desprezo e a vontade de distância. Para encerrar, a justificativa derradeira e talvez mais ansiada pela clientela fiel: hoje é dia 22 e eu não tenho a Certinha do Leléu. Sem me dar conta, deixei escapar, mas prometo que vou cumprir e que não me demoro. Fosse perguntada a equipe da pescaria, os cafajestes diriam que a Certinha de novembro foi uma baleia que nos acompanhou nadando quase que colada ao costado da lancha, se exibindo em jacarés deslumbrantes – segundo a galera, por estar apaixonada pelo gordo que batuca este teclado. Disseram mais: que às 17h00, quando recolhemos as linhas e iniciamos o retorno à Barra do Uma, que ela teria emergido os olhos e derramado uma lágrima, como aquela que salvou o Tom Hanks náufrago. Pode até ser, e é verdade que eu também fiquei maravilhado com ela. Mas apesar de mais de trinta horas juntos, eles não souberam entender o meu momento, este absorvido rapidamente por uma menina muito divertida que conheci hoje, no Ilha das Flores. Ao final do período de um almoço, onde eu pude provar uma posta da cavala-wahoo capturada pela nossa equipe, ela virou-se para mim e disse: - “Aí, hem, pescador, fisgou uma sereia!”. E eu quero dizer para você, minha mais nova velha amiga, que não há nada de mais sério no coração deste pescador gaiato do que o carinho da nossa sereia.
Escrito por Léo Coutinho às 22h51
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O fim do mundo
Crônica publicada no Portal Onne em 20.11.2009
Variedades | Blogueiro Maneiro www.cesargiobbi.com.br Nada menos do que 890 mil, de um total e 1,3 milhão de pessoas que juntas formaram o público de cinema no Brasil no final de semana que passou, escolheram assistir ao fim do mundo na versão de 2012. E, em plena segunda-feira, quando cheguei ao cinema, tive que sentar na primeira fileira por falta de outro lugar. O que será tão atraente na catástrofe? O que une tanta gente em torno das últimas notícias sobre um desastre que matou pessoas desconhecidas? Solidariedade, prazer mórbido ou a aproximação com a morte, que nos aproxima da dimensão do fim? Ou tudo isso? As salas cheias para ver 2012 podem ser explicadas também pela qualidade dos efeitos especiais, mas no fundo acredito que a gente queira comparar a imagem que cada um tem do fim do mundo e qual atitude tomaria nos momentos finais. É esse momento, o último instante, que nos atrai. O Nelson Rodrigues, que teve a vida pautada pela tragédia, adquiriu intimidade com o fim, com a morte, e identificou o ponto de atração: é o momento mais puro e verdadeiro do ser humano; é quando ninguém pode fazer pose. O conceito do fim revela o que é realmente importante na vida de cada um. Nosso último desejo é também o primeiro. 
Durante a exibição da fita eu estava exatamente com quem eu gostaria que estivesse ao meu lado. Perguntei o que ela faria na iminência do fim. Ouvi que ficaria braçada à própria mãe, na casa onde moram. Achei lindo. E como ela quisesse saber a minha ideia, confessei, sem chance de pose, que iria para o bar do Antiquarius. Mas a individualidade não é importante só no momento derradeiro. O que fica claro em todas as previsões de apocalipse ambiental é que se cada um de nós cuidar do próprio micro ambiente, o todo sairá vitorioso. Com o espírito é a mesma coisa: a gente deve cuidar só do nosso, porque sem paz e plenitude não se pode ajudar ninguém. É como no procedimento de salvatagem aérea: antes vista a sua máscara de oxigênio, e só depois procure ajudar alguém, porque em perigo você não pode nada. Acho que foi o meu xará, Leon Tolstói, que recomendou: “Canta tua aldeia e serás universal”. Em termos ambientais é a mesma coisa: cuide da sua aldeia e ajude o Universo. E no amor não poderia ser diferente: se não há paz interior, nem o maior amor do mundo é possível.
Escrito por Léo Coutinho às 18h51
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A equação da satisfação
E finalmente, coroando a trilogia que inaugura a colaboração do bom Bahia neste blog, vou transmitir as minhas impressões pessoais sobre a equação da satisfação, a partir de uma fórmula precisa – um tipo de 2+2=4 humanista: satisfação = realidade - expectativa. Meu palpite é muito parecido com o do Bahia, embora o dele seja técnico e avance sobre a economia, matéria da qual, por limitação e responsabilidade, eu prefiro manter distância, no máximo osculando concordar com a hipótese apresentada por ele de que a crise global ensaiada no começo do ano ter sido motivada também pela expectativa de lucro exagerada que os donos do dinheiro vem nutrindo. Ninguém precisa de tanto. E, ainda sobre a crise, é curioso verificar como as expectativas pelas suas dimensões também foram inflacionadas. No cotidiano, que é o que me interessa, as relações pessoais também estão sendo sacrificadas pela alta expectativa. Todos nós temos pelo menos um amigo ou familiar sofrendo de ansiedade, depressão ou síndrome do pânico, apesar da vida privilegiada de classe média que levamos no Brasil. E, quando ouvimos os sintomas de um ou de outro, não é raro reconhecermos o nosso próprio sofrimento. Comigo pelo menos é assim. Apesar de gostar da simplicidade e de não ter expectativas materiais exageradas – só o suficiente para evoluir a minha realidade –, no plano emocional eu serei sempre infeliz e ansioso, ou pelo menos até aparecer uma Lila Bôscoli na minha vida, com a coragem para viver só de amor. Será mesmo impossível? Acho que sim, até porque eu não sou o Vinicius de Moraes e o Rubem Braga – que apresentou o casal assim: “Esta é Lilá Bôscoli, este é Vinicius de Moraes... e seja o que Deus quiser” – não está mais aí. Muito bem. E apesar disso, tenho o direito de ser infeliz? Não, não tenho. Se não há a presença física do Rubem na minha vida, em seu lugar há uma menina linda, uma irmã que tive o privilégio de poder escolher, que me apresentou a outra menina linda, pela qual me apaixonei definitivamente e com requinte, na noite do apagão, com o Brasil inteiro à luz de velas. Se um dia ela quiser casar comigo, vou chamar a Dilma e o Lobão para testemunhas. É interessante como a paixão me faz sofrer. Não temo a dor do fim, da perda, da despedida. É no começo que meu coração aperta, sempre que eu não posso olhar no olhos dela. Sei que essa ansiedade assusta e que parece desleixo em relação ao sentimento. Uma vez me disseram que para ter rosas num canteiro é preciso regar todo dia, de pouquinho, e que o meu defeito é entornar o regador todo de uma vez, afogando o botão. Nunca ouvi nada mais verdadeiro. Infelizmente, nesse quesito eu sou Paulinho da Viola: “Eu sou assim, quem quiser gostar de mim, eu sou assim...”

Perdão pelo excesso de auto-referências. A caríssima freguesia nada tem a ver com isso, mas espero que possa compreender o momento. Enfim, o que eu queria dizer é que para ter satisfação a gente deve maneirar nas expectativas. É urgente que as meninas entendam que o Valtinho Moreira Salles é um só e já é casado. E os marmanjos deverão aceitar que a Luana Piovani nunca vai ficar em casa cantando “Com açúcar, com afeto” enquanto espera o namorado chegar do bar. Só em sonho e no cinema. Também não acho saudável adotar uma personalidade catastrofista como a dos economistas que previram a crise econômica como a maior de todos os tempos. Viver contente esperando o pior e se contentando com o que vier seria medíocre. Mas se a vida te der um teto para morar, um fogão que faça fumaça todo dia e uma menina cujos olhos brilham quando fitam os seus, que sorri na sua presença e que pega a sua mão e faz um carinho assim de leve, como o dedão, considere tola a sua dor: você é um homem tão feliz quanto eu.
Escrito por Léo Coutinho às 15h29
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Depois do papo com o Bahia
"Há um renovar-se de esperanças Porque hoje é sábado" Vinícius de Moraes
Ontem eu disse que voltaria hoje para explicar a equação do bem estar, definida pelo Bahia. Pois é, disse, mas só vou cumprir amanhã. E, de acordo com o comentário que ele mesmo deixou aqui, desfaço um engano substituindo bem estar por satisfação. Outra coisa que prometi e não cumpri foi um drinque de final de tarde com a minha amiga Miru, no Ilha das Flores. Definitivamente, nesses dias de calor, algo que se desidrata é o meu caráter. Posso, sem mais, falhar com qualquer palavra empenhada. É uma espécie de anemia moral, que abala, mas não mata. Quem pode raciocinar direito debaixo do bafo e da luz branca desse mormaço? Para completar, a vida ainda me presenteou com um motivo de alegria crescente. E, como dizia o Antonio Maria, as pessoas quando estão muito tristes, ou muito contentes, adquirem aquele andar de quem não tem destino. Quem me vir pela rua, andando como se passeasse sem compromisso, pode ter certeza: ali vai um gordo feliz. E foi assim que continuei meu último sábado na cidade de São Paulo. Deixei o clube enxuto e arejado, depois de um banho com direito a bucha, e subi pela sombra da Cristóvão Diniz, onde tomei uns pingos de chuva – que é a legítima Água Benta –, mas só até a Oscar Freire, que estava repleta de gente organizada, daquelas que antecipam as compras de Natal. Talvez não fosse gente organizada e haja mesmo “o grande aumento no consumo”, conforme apontou o Poetinha. Logo na primeira esquina dei de cara com uma loja chamada Mosteiro. Ouvi dizer que lá eles vendem as coisas da padaria do Mosteiro de São Bento. A loja até que é jeitosa, mas é claro que não se compara com a original. E tenho que confessar um motivo pessoal para implicância: ela está onde seria reaberto o bar Supremo, que dançou na lei do Psiu. Que Deus me perdoe, mas o burburinho da confraternização nos bares ainda me diz mais do que o Canto Gregoriano. Na outra esquina, inevitavelmente, tive que passar pelo Santo Grão, aquele lugar onde a sociedade emergente pode se encontrar protegida da verdade do vinho. Deixa de lado: logo adiante eu encontraria o Frevo, que me conforta pelas delícias, pela existência, pelas memórias. Quis fazer um pit-stop para um rabo de peixe no balcão do Chuchu, mas meu coração falou mais alto: havia prazo. Na próxima quadra encontrei a Julinha Duailibi e um grupo de amigas procurando sandálias para uma festa de casamento. Na hora fiquei contente, porque se há algo que me anima é ver pé de moça sobre um salto alto. Mas logo em seguida lamentei, lembrando que hoje em dia a turma anda tão esculhambada que já estão servindo as Havaianas antes dos jantares nupciais. Depois da música eletrônica, nada estraga mais o ambiente de uma festa do que esse tipo de desleixo disfarçado de cuidado. Já na Hadock Lobo outra grata surpresa: encontrar minha prima Marinoca e seu pai, o Guy Coutinho. Marinoca é o resultado celestial da mistura da beleza das Coutinho com a intensidade italiana, que puxou da mãe, tia Kathia, e uma pitada da doçura tão feminina das libanesas que vem da tia Julieta, sua avó paterna. Joana, sua irmã, também tem tudo isso, mas naquele momento, infelizmente, estava se entretendo com alguma prateleira. Anoto isso não só por que é verdade, mas também para acalmar o Leo Chacra, que anda aborrecido com as piadas que eu fiz sobre os “turcos” no Brasil. Acho que exagerei e quero me desculpar. Em cada um desses encontros a brisa gelada que saía das lojas me seduzia, feito um canto térmico de sereia, tentando me desviar da única coisa que eu realmente gostaria de fazer naquele dia. O bafo quente já estragara boa parte do serviço da bucha e da ducha gelada no vestiário do clube. Mas o que é o desconforto do corpo quando o espírito flana em verdadeiros campos primaveris? Quem chegou a esta altura da crônica deve estar se perguntando qual seria o motivo da minha alegria, dessa leveza espiritual. E tem razão a freguesa em sua curiosidade, apesar de só desejar a confirmação do óbvio, que é o gostar de alguém. Que mais tem esse poder sobre o ânimo do homem? Pois bem: aconteceu uma nova amizade, mas o nome dela vai seguir reservado, porque ninguém tem nada a ver com isso. Debaixo de sua janela, fadigado como se tivesse enfrentado a subida da Cajaíba, em Paraty, interfonei pedindo por suas tranças. Rapunzel moderna e livre da torre, ela surgiu linda e cheirosa na calçada, e o encontro do meu corpo quente com sua pele fresca foi como o abraço da cachoeira, que só merece quem encara a Cajaíba. 
Então fomos pegar um arzinho no Le Vin e aproveitamos para sorver uns mariscos com batatas fritas e Cerpa gelada. Saindo de lá, a caminho de uma festa de aniversário, passamos pela casa dela, onde fui recebido com tanta simpatia que nem sei se mereço e se virerei tempo bastante para tentar retribuir. Na saída da festa, passando em frente ao Pasta Gialla, ainda improvisamos um encontro com uma plêiade de amigos, que desfiou histórias antigas madrugada adentro, e vai continuar em excursão noturna pelo centro da cidade depois do feriado. E agora, pondo a modéstia de canto, vou me entregar ao sono dos justos, só desejando uma coisa: que todos os homens tenham direito a pelo menos um sábado como este.
Escrito por Léo Coutinho às 03h34
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De papo com o Bahia
Coisa boa num sábado de sol, na cidade de São Paulo, é encarar uma piscina, se possível com gente boa e bonita para olhar. Daqui escreve um nego sortudo, que no sábado que passou saiu em bermudas a passeio pelo Jardim Paulista e foi até o clube Paulistano, onde meteu uma sunga amarela e foi investigar a frequência na borda da piscina social. O público não podia ser melhor: Heleninha Mourão, Carol Barros, Biri, Diego Palma, Giuliano Giusti, Leo Chacra, Fernando Chiocca e outros amigos, todos muito bonitos e saudáveis. Só eu é que vou meio derrubado, mas a turma é muito gentil e não comenta nada. 
Como na borda da piscina não faz sombra, logo tivemos que tomar providências para arranjar abrigo no bar – que além de sombra tem garçons. O nosso era o Wesley, meio atrapalhado, mas prestativo e simpático. Recheou nossa mesa com cervejas e aperitivos leves, como legumes em palitos e queijo fresco em cubos. Com o passar do tempo naturalmente evoluímos e tivemos vodka gelada e ostras frescas. Minha companhia principal nesta mesa era o bom amigo Bahia, que tem esse apelido derivado do sobrenome, que é Bayeux. E mais: apesar de não assinar, dizem que é Almeida Prado. Nego fino, chique de verdade. O Bahia trabalha numa firma grande, produtora de cosméticos. É um especialista em pesquisas de mercado e, por força do ramo, tem análises técnicas dos gostos e desejos da mulher brasileira. O exercício de observação que a seleta freguesia cá do blog já conhece é um prazer deste bloguista e, ainda que de vez em quando acerte, é uma atividade amadora, executada por prazer e sem base científica. Já com o Bahia a coisa é séria e ele tem relatórios sobre o que elas esperam da indústria e, por consequência, da vida. Por exemplo: a santíssima trindade da sedução, que torna um produto – ou um sujeito – irresistível para uma mulher é a seguinte: elegância, sofisticação e sensualidade. Qualquer coisa, lugar, pessoa, ideia, enfim, que reúna estas três características, vai seduzir uma mulher. Outro dado curioso sobre elas é a ordem de prioridades obedecida na hora de vestir. O homem que imaginar que elas usam biquíni fio-dental para seduzi-lo é um tolo. Ele – o pano – estará ali enterrado antes para as amigas dela poderem ver como ela está sarada, depois para ela mesma sentir prazer com a forma alcançada e, num longínquo e retardatário terceiro lugar, a possibilidade de agradar a um homem. Usei o fio dental como exemplo porque havia um passando a caminho do banheiro enquanto a gente conversava. E, ainda segundo o Bahia, a quantidade de meninas que usam calcinha fio dental no dia a dia é muito maior do que as que são adeptas do biquíni do mesmo modelo, o que nos traz um conceito surpreendente sobre o conforto proporcionado pela peça. Pensando nisso, lembro do Ronald Golias, que respondeu assim à uma repórter que perguntara sua opinião ocasião do lançamento da moda: - “Bonito eu acho, mas não sei não: se fiapo de manga já incomoda no dente, imagina aquele pedaço de pano...” Ainda pelo Bahia tomei pé de um conceito do qual já desconfiava, mas nunca havia imaginado equacionado cientificamente: (Bem estar = realidade - expectativa). Mas esse fica para amanhã.
Escrito por Léo Coutinho às 01h41
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Por que a cachaça não ganha o mundo
Há quem defenda que foi o Mick Jaeger que inventou o Tequila Sunrise, ou aquele coquetel que mistura o espírito mexicano a suco de laranja e um lance de grenadine, que dá o efeito do crepúsculo. A invenção teria, como sempre, nascido da dificuldade: proibido de beber por ordens médicas, ele teria feito um acordo com o barman de um hotel durante uma turnê pelo México. O Toquinho conta que o Vinicius de Moraes fazia a mesma coisa, só que com vodka no lugar daTequila, quando fugia da clínica onde se auto-internava para maneirar de vez em quando. Mas o assunto aqui é a Tequila e as maneiras como ela ganhou o mundo, fenômeno que está difícil de acontecer com a nossa cachaça. Além do coquetel do Mick Jaeger, o mundo bebe tequila em margaritas, margaritas frozem e pura, com sal e limão. Quer dizer, versões de fácil consumo – exatamente o oposto da cachaça, que depende da caipirinha. A caipirinha genuína se faz com limão galeguinho, açúcar, gelo e cachaça branca. Logo, aqui em São Paulo,capital da gastronomia, o único bar que eu sei capaz de servir a caipirinha legítima é o Dona Onça, que tem o limão certo. Os demais fazem com limão tahiti, que chega perto, mas não vale. Seria como botar azeitona preta num dry martini e achar que está tudo bem. Não está. 
(Diz a turma metida com citricultura que há uma lei proibindo o plantio do limão galego, por que ele seria o hospedeiro do amarelinho, que é a praga que acaba com os laranjais. Eu acho que é chute, mas no Brasil tudo pode ser. E quem já viu um pé de limão galego sabe da dificuldade de cultivar a iguaria: a árvore é densa, cheia de espinhos e tem a copa muito gorda e muito baixa, o que dificulta a colheita, que se reflete no preço: o quilo sai por R$120,00.) A partir desta primeira violência, a caipirinha sofre outras diversas, sendo preparada com toda sorte de frutas e até de outras bebidas, como a vodka, o rum e até o saquê. Fica bom? Às vezes sim – mas não é caipirinha. Pior: o gosto brasileiro por frutas amassadas com açúcar e bebidas inferniza a vida de qualquer barman. Numa mesa de seis pessoas, não é raro o pedido chegar assim ao bar: - “Uma caipirinha de limão, outra de maracujá, outra de abacaxi, uma de morango e outra de lichia; uma com cachaça, duas com vodka, duas com saquê, e uma com rum; uma com açúcar, outra com adoçante e nas demais você não bota nada que eu vou levar para temperar na mesa.” É de enlouquecer, ou não? Por isso só é possível num país como o nosso, onde há mão de obra barata. Vá convencer um europeu de ficar contando e socando frutas a noite inteira... A caipirinha é uma bebida difícil e, para ajudar a cachaça ganhar o mundo, precisaria firmar sua identidade com a receita original. Estabelecida e respeitada a receita, ela ganharia em nobreza e distinção, e tudo ficaria mais fácil. Depois era só torcer para um astro internacional "garrar na pinga".
Escrito por Léo Coutinho às 15h04
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A beleza e as mulheres
Apesar da busca pela igualdade, há certas diferenças e reservas entre os gêneros que são muito boas e merecem, pela própria delícia, serem preservadas. O cavalheirismo, por exemplo, é um prazer tanto para homens quanto para mulheres. Numa mesa de bar completamente masculina, há a liberdade de dizer as maiores barbaridades sem nenhuma censura, beber até perder os sentidos sem a preocupação de proteger uma dama presente. Sei de mesas, em bares de sauna, que mesmo as vestes são dispensadas, e a turma enche a cara e fala abobrinhas mil sem pudor algum, completamente livre até da possibilidade da aterrissagem feminina. Mas nas mesas de calçada há sempre a chance de chegar moça conhecida – no bom sentido – e, com efeito, a chance de ela aceitar sentar-se um pouco, para contar uma novidade, saber de outra, beber um copo de cerveja, fumar um cigarro ou simplesmente jogar um pouco de conversa fora. E é nesse momento que a gente se dá conta da importância da vaidade. Não aquela vaidade de espírito, sempre tola. A vaidade física, mais exatamente conhecida como faceirice. A faceirice nas moças é a coisa mais preciosa da vida. Para muitos o móvel que mais combina com a mulher é o tanque. Ou a pia, o fogão, vá lá. Isso hoje em dia já está meio caduco e só funciona em piada. Mas há pouco tempo foi um conceito absoluto. Tanto faz: para mim, em qualquer tempo, o móvel mais feminino que existe é a penteadeira. O que pode ser mais belo do que ela escovando os cabelos, sentada em frente ao espelho, num quarto claro e levemente ventilado, enquanto decide qual perfume é mais apropriado para a temperatura do momento? Nada. Mas mesmo a penteadeira já é um móvel antigo, que pode acabar morrendo com a pressa da atualidade. Infelizmente. Enfim, se morrer a penteadeira, que tenham longa vida as moças faceiras. Uma moça que surge, numa tarde quente, desfilando seu cachorrinho e um vestido leve e colorido, com o pescoço nu pelo rabo de cavalo e o colo fresco e perfumado a lavanda, é uma maravilha. E, se ela aceita sentar-se para um café ou um refresco, melhor ainda. 
Então os homens todos endireitam as posturas e procuram coisas amenas para dizer, como dicas de viagem ou comentários sobre a arte em cartaz na cidade, ou mesmo a lembrança de um filme antigo. Os mais sofisticados elogiam a doçura da safra de pêssegos e a florada dos agapantus. Agora, o que há de mais interessante nas moças faceiras, além da graça que ninguém pode negar, é o objeto de interesse. Agora não sei dizer se esta é a expressão exata, mas explicando o palpite talvez ela apareça. O que eu quero dizer é que, botar-se ajeitada e melhorar o que há em si e ao seu redor é mais importante para uma menina do que para qualquer outra coisa. O belo definitivo não interessa às mulheres. Elas sempre vão desejar – e conseguir – melhorar o que existe. A primeira missão delas, de enfeitar a existência na Terra, depende das melhorias possíveis. É por isso que elas adoram o imperfeito, o que pode ser aperfeiçoado. A beleza completa e definitiva é entediante para as mulheres. É por isso que elas são irremediavelmente atraídas por tudo aquilo – e todo aquele – que anda fora da linha. É o respeito inconsciente da missionária. E quando algo é, sim, definitivamente belo, como o por do sol, uma rosa, um diamante ou a Serra do Mar? Diante desses fenômenos elas não podem nada além da contemplação. E não é à toa nem coincidência que são justamente esses fenômenos que mais combinam com a presença delas.
Escrito por Léo Coutinho às 13h20
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Reacionários instantâneos
Crônica publicada no Portal Onne em 13.11.2009
Variedades | Blogueiro Maneiro www.cesargiobbi.com.br Tenho um primo executivasso, daqueles que se um dia acordar mal-humorado e der uma declaração impensada pode derrubar a Bolsa e alguns ministros. É claro que isso não vai acontecer, principalmente porque o salário dele é um repelente natural contra o mau-humor, mas também porque ninguém destemperado vai ter um tinteiro tão cheio quanto o dele. Enfim, o homem é o que o vulgar chamaria de “pica”. Pois bem: aqui de baixo, há mais ou menos um ano, telefonei para ele e propus um negócio que, pelos jornais, soube que lhe interessaria. Ele estava nos Estados Unidos com a mulher comprando roupas para os filhos. Desculpei-me pedindo que ele me chamasse no final das férias. E ele: - “Mas eu não estou em férias. Passa os dados por e-mail”. Obedeci. Em menos de uma hora tive a resposta, retransmitida por ele mesmo, com parecer do diretor responsável pelo departamento. A justificativa, acompanhada de cordiais saudações e nítida atenção ao assunto era simples: o negócio era bom, mas pequeno para o porte deles. Ah, o tal diretor estava no Goiás, quiçá pescando. Pela imprensa vira e mexe chega uma notícia parecida, sobre o método de gestão das companhias que integram a chamada “nova economia”. São, em sua maioria, empresas de tecnologia, criadas por garotos que continuam usando jeans, camiseta e tênis – quando não bermudas e chinelos –, além das inexoráveis tatuagens e alguns brincos espalhados pela pele. Não tem horário fixo de expediente, dispõe de salas para soneca, vídeo game, sinuca, bate-papo, e até botequim. Ninguém pega no pé deles desde que, é claro, metas sejam cumpridas. Valem bilhões de dólares. 
Quem sai de São Paulo por um dos nossos aeroportos, cuja frequência é maciçamente executiva, pode verificar que mesmo fora dos escritórios a turma do MBA continua trabalhando pra valer. Acredito que estejamos todos de acordo, no sentido de que a tecnologia permite que profissionais das áreas mais diversas sejam produtivos onde quer que estejam. Pode haver quem ainda prefira as oito horas tradicionais atrás de uma mesa, mas ninguém pode negar a possibilidade de eficiência à distância – desde que seja na iniciativa privada. Quando o assunto é o poder público, sabe-se lá por que, o sujeito mais progressista se transforma num monstro reacionário, defensor de protocolos, relógio de ponto, carimbos, arquivos, segunda, terceira, quarta via. Fique tranquila a freguesia desta página que me conhece pessoalmente: este barnabé não pretende legislar em causa própria. Meus defendidos de hoje são os famigerados parlamentares brasileiros, constantemente criticados pela baixa frequência em plenário – que, aliás, só acontece para valer às terças e quartas, pois a sessão de quinta-feira é sempre amistosa. Ora, o trabalho de um deputado, por exemplo, não se restringe a discursar na tribuna. Ele tem que fiscalizar, ler, estudar, conversar, pensar, elaborar projetos de lei, enfim, como a maioria das pessoas, trabalhar. E isso, fora as sessões plenárias, pode ser feito em qualquer lugar. Mas exatamente conforme ocorre na iniciativa privada, onde chefes preguiçosos preferem avaliar o trabalho de seus subordinados não pela qualidade, mas pela quantidade de horas trabalhadas; não pelas ideias e experiências, mas por títulos e diplomas; não pelo que fazem em silêncio, mas pelo que se comenta nos corredores; alguns jornalistas encarregados de fiscalizar a atuação dos congressistas sentam sobre os próprios rabos indolentes e vão conferir o relógio de ponto das casas legislativas. Ora, isso lá é referência que se preze? O jornalista que quiser contribuir com o eleitor na fiscalização do trabalho dos políticos deveria sair um pouco da redação e ir investigar de perto a vida de cada um. Tenho certeza que assim teríamos matérias, análises, artigos – e legislaturas melhores para o País.
Escrito por Léo Coutinho às 11h23
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Emoções celestiais
O Nelson Rodrigues implicava com o azul do céu brasileiro, dizendo que era manchado. Sua metáfora predileta para um céu bonito era “um azul escandinavo”, que realmente é mais íntegro e decidido. Não sei se é por causa da umidade que o nosso azul é assim, manchado. Um amigo especializado em fotografias aéreas me disse que é sempre muito difícil fazer essas fotos no Brasil, notadamente no litoral, por causa da névoa, presente mesmo nos dias de sol intenso. Para o gosto deste bloguista o céu mais bonito são vários, e sempre vai depender das circunstâncias. Mas outro dia, olhando o céu brasileiro num dia de muito sol e algumas nuvens, agradeci pela presença delas. Quando a gente é criança sempre olha para as nuvens e imagina formas. Ficamos horas olhando para elas, namorando seus movimentos, adivinhando suas transformações. Algumas só nós podemos reconhecer, não adianta insistir com quem está ao lado. As nuvens excitam a nossa imaginação. Também são elas que, de vez em quando, chegam para nos refrescar com sua sombra incomparável num dia de sol. É nas nuvens que vivem os anjos e os santos, e quem está numa fase boa da vida está nas nuvens, não num campo florido, numa ilha deserta, nem debaixo de um céu imaculado com sol a pino. Dizem que a vida nos países escandinavos é muito parecida com a do céu de lá: tudo é perfeito, tudo funciona, nada pode atrapalhar. Por coincidência, aqui no Brasil, num piscar de olhos tudo pode mudar, do céu à conjuntura nacional. Num segundo um sol absoluto, no outro uma tempestade tropical. Será a influência dos céus na identidade nacional? Quem poderá dizer? O que eu sei é que só sei viver assim, achando graça no inusitado, na nuvem que de repente se forma. Nos bares e nas praças, nas manchetes dos jornais, nos telefonemas das comadres e no espírito de qualquer pessoa, o inusitado sempre terá peso dois. A conta é simples: a vida cotidiana, quando rigidamente programada, será mais fácil e segura na mesma medida em que será entediante. O inverso também é verdadeiro: a experiência de uma agenda ortodoxa na vida de um aventureiro pode ser estimulante. Neste caso, inusitada é a rotina. Emoções muito fortes e consecutivas levariam qualquer um à fadiga. Pior: com a tendência que o homem têm para adaptação, elas também acabariam caindo num lugar comum e se esvaziando, tornando incomum as pequenas emoções. Nuvens para mim são emoções celestiais. Uma tormenta tem sua beleza, pela força, pela imposição de suas vontades, que submete o sujeito mais urbano aos caprichos da Natureza. Mas assim como as emoções da vida, as minhas nuvens prediletas são as brancas e densas, como tufos gigantescos de algodão. Tem coisa mais gostosa do que num dia quente de trabalho, com trânsito caótico, sair para almoçar sem grandes expectativas e, de repente, ver se formar uma mesa vasta de amigos diversos e queridos? São as chamadas brancas nuvens, que se formam ao sabor dos ventos, ao calor das massas. E, quando nessa mesa de amigos, integralmente masculina, por um momento o homem se desliga no deleite de um molho espesso de pimenta verde, e ainda flanando em sensações ele se sente solitário, apesar de tão bem acompanhado? É porque ele está se apaixonando, e vai se sentir sozinho sempre que não estiver dividindo seu prazer com ela, a sinhazinha de seus pensamentos. 
Pensar nela é como imaginar formas nas nuvens brancas da infância, mas com a possibilidade real de poder toca-la e sentir toda a ternura, a maciez e o frescor de seu corpo. Pensar nela é ter alegria de criança com privilégios de adulto. É a melhor coisa que existe.
Escrito por Léo Coutinho às 19h16
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Declaração de amor
“Eu, vou falar pra todo mundo, vou falar pra todo mundo, que eu só quero é você.” Esse foi o Martinho da Vila para a Madalena do Jucu. O Tim Maia, provavelmente sem algum pra levar a namorada ao cinema, pagar uma pizza e um chopinho, saiu-se com essa: “Grito ao mundo inteiro, não quero dinheiro, eu só quero amar”. Na vida real me comove o namorado que picha o muro em frente à janela do seu amor, ou aquele que encomenda faixas e manda pendurar pelo caminho dela. Já vi de perto quem botasse anúncio no jornal se declarando apaixonado depois de casado, e não posso deixar de lembrar das serenatas, que apesar de escassas para mim continuam sendo uma imagem linda e definitiva. Joel do Bandolim, João Nogueira e Sérgio Cabral em sereneta para Beth Carvalho
Sei também de um craque, que em conluio com seus filhos simulou ter esquecido o aniversário da própria mulher e deixou o dia correr como qualquer outro, para só ao cair da noite se desculpar, botar a culpa no trabalho e convida-la para jantar. Foram ao Antiquarius e,quando entraram, encontraram tudo escuro, breu absoluto, como o apagão de ontem. Quando as velas se acenderam ele estava com um microfone à mão e, em volta, todos os amigos e a família deles. Cantou conforme pôde Como é Grande o Meu Amor Por Você, do Rei, e arrematou deixando o coração falar sem cortes ou edição. A aniversariante teve que ser socorrida, mas logo voltou ao normal ou, antes, conseguiu se controlar: ao que era antes nunca mais voltará, e a festa seguiu fabulosa (Obrigado, Tiche). Em tempo: ele também nunca mais foi o mesmo, e agora vive sob o olhar de ódio dos amigos, que passaram a ser cobrados pelas respectivas em algo igual ou superior. Hoje em dia a turma anda meio receosa em se declarar. Com a frivolidade reinando as pessoas estão desenvolvendo o pudor de amar. É uma insegurança natural diante dessa aridez sentimental contemporânea. Da mesma maneira que não fica bem ostentar bens materiais num país miserável. Mas como ao contrário do jipão importado, o coração não se pode blindar, a turma segue rasgando dinheiro na frente dos pobres e amando em segredo. Mas como em todo processo existem focos de resistência, tenho encontrado, contente, bons exemplos no Facebook. Recentemente conheci um casal muito bacana e hoje estamos conectados. Ela é simpática, mas calada e algo severa, e diz mais com os olhos, lindos, do que com a boca ou gestos. Mas entre as poucas fotos que exibe em seu mural há uma dele com uma legenda de fazer o solteiro mais convicto rever sua posição. Outro caso bacana está acontecendo com uma amiga minha que sempre condenou a prática “ridícula” de atualizar relacionamento numa rede social. Segundo ela, isso não é da conta de ninguém. No ato eu concordei: além do Facebook eu já participava do Orkut e relutei em declarar se estava solteiro, namorando ou casado. Não, casado quem está deve declarar para evitar confusão. É como uma aliança virtual. Mas os demais só se forem para valer. Pensava eu... Até que um dia a encontrei aos chamegos com um camarada num boteco. Mais uma semana e fotos do novo casal começaram a pipocar. Outra e finalmente ela se rende e declara para todo mundo que “está em um relacionamento sério”. Agora estão na fase de dizer que só pensam em love, love, love, sem o menor pudor. Daqui a tudo vou assistindo e me deleitando com os pombinhos. Minha torcida é a do amor. Mas aviso às gerais: tudo isso só vale se for absolutamente verdadeiro. Cafajestadas e principalmente empolgações serão sempre desmascaradas, constrangendo a todos. Encerro apostando num palpite: que a dimensão do amor total a gente têm quando a vontade de contar pra todo mundo se torna irresistível.
Escrito por Léo Coutinho às 13h05
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A Trilogia da Paixão
Deu na Folha: dormir mal pode levar à impotência. A manchete da página Saúde é baseada numa pesquisa feita na cidade de São Paulo com 449 homens de 20 a 80 anos. Não é uma beleza, o homem ter 80 anos e dizer que anda meia-bomba por falta de sono? Mas o que surpreendeu os cientistas foi o quinhão de brochas precoces, de até 29 anos. Do total de 17%, 7% são dessa idade. É mesmo muito estranho, um fenômeno eu diria. Agora, impossível é não lembrar no Ênio Mainardi, um dos publicitários mais bacanas que o Brasil já viu. Alto lá: não consta que ao Ênio faltasse o moral – muito pelo contrário. Lembrei dele como o criador do slogan dos biscoitos Tostines: “Vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?” Fique tranquila a freguesa desta página, porque o bloguista jamais arriscaria trocadilhos com biscoitos murchos, amanhecidos, e muito menos com a expressão “molhar o biscoito”. A lembrança é para perguntar o que vem antes: falta de sono ou a disfunção erétil? 
No meu governo, todo homem apaixonado teria direito à licença para curtir sua namorada sem se preocupar com o horário de despertar. Quer coisa mais justa do que poder se dedicar à sua pequena o dia todo, num quarto arejado, com varanda dando para o mar? Café da manhã justos na cama, banhos de banheira, troca de massagens, violão no final da tarde, acender velas no começo da noite e sair de casa, no máximo, para buscar flores. Pois é, mas como eu não mando nada, o homem apaixonado continua tendo que levantar cedo, mesmo depois de dormir tarde – e, ainda segundo à pesquisa, quem acorda cedo tem mais chances de falhar quando solicitado. Então como fica o resultado da pesquisa, se quem namora muito dorme pouco? Sei não, mas para mim convém desconfiar. A não ser por um dado: na verdade, o que faz falta ao homem é o tempo de sono REM, que é o trecho ligado aos sonhos. Quer dizer: quem não sonha, brocha. E para quem está apaixonado, a própria realidade já é onírica. O psicanalista Helito Bastos explica o efeito do romance sobre as pessoas, ensinando a Trilogia da Paixão: o simbiótico, o sintôtico e o essencial. O simbiótico é quando existe química entre dois seres, ou “aquele negócio de pele”. O sintônico tem a ver com a harmonia mecânica dos corpos, que é “quando a gente se encaixa”. E o essencial é a combinação das animas, ou quando “almas gêmeas se encontram”. Aí, nego, sai de baixo que ninguém segura. É algo irrefreável, invencível, mais forte do que a própria Natureza. É o genuíno estado de Graça. É quando nada pode ser mais importante. O Homem não pensa em dinheiro, poder e nem na opinião alheia, esta que atrasa a vida na Terra. Nesse estado o Homem não sente fome – que dirá sono! E mesmo assim tudo vai bem, diversas vezes ao dia. Assino embaixo: no dia em que a gente parar de sacanagem e só transar quando se apaixonar, o índice de disfunção erétil cai por terra e o de mulheres que não tem orgasmo será extinto.
Escrito por Léo Coutinho às 12h29
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