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Blog do Léo Coutinho


Novo endereço

Freguesia caríssima, este blog mudou para um endereço novo. Criado há sete anos por sugestão da Fefê Suplicy para funcionar como um HD externo ou uma nuvem, como dizemos hoje, e armazenar textos escritos eventualmente, de 2009 para cá, inspirado por uma conversa entre o Guga Chacra e o Antonio Prata sobre regularidade de postagens em blogs, comecei escrever e publicar diariamente. O efeito não poderia ter sido melhor: o exercício me deu uma profissão e um norte, me explicou o que eu queria fazer da minha vida profissional. É isto: escrever. Posso me envolver pontualmente em outras atividades, mas quero ganhar a vida escrevendo.

E o espaço foi esgotado. Este blog gratuito do UOL tem limitações, entre as quais o espaço do banco de dados. Por isso com a ajuda dos irmãos Diego e Caio Senra, da Heavy Weigth Design, criei um site onde vou manter o corpo e o espírito do blog, mas com vantagens técnicas diversas, que começam com o endereço mais simples, passa pela possibilidade de taguear, organizar por categorias, compartilhar nas redes sociais e evolui até a chance de receber patrocínio de empresas e doações de leitores.

Tenho que agradecer a muita gente e é claro que a memória vai me trair. Mas a condição reciclável do blog autoriza a ousadia, porque amanhã posso corrigir as injustiças. Então obrigado a minha madrinha Pituca, Cesar Giobbi, Nara Alves, Tissy Brauen, Alice Moura, Tomás Biagi Carvalho, Aninha Castanho, Felipe do Val do Ilha das Flores, Janaina Rueda e Julinho Toledo Piza do Bar da Dona Onça, Kiko Gallucci do Mercearia São Roque, Luizinho Campliglia do Paribar, Robert Chacra do Gulero, Tuca Andrade, meus pais, minha Neguinha e aos amigos e a freguesia que me ajudou chegar até aqui. Vamos em frente.

Novo endereço: www.blogdoleocoutinho.com.br



Escrito por Léo Coutinho às 13h33
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Ouro de tolo

Aproveitei a calmaria da cidade para rever os oitenta anos do cotidiano inglês expostos em fotografias no centro cultural Ruth Cardoso – FIESP. Claro que é um extrato, mas a impressão é que consegue o essencial, que para mim é a densidade do espírito britânico. Dizem que é melhor vergar do que resistir até quebrar. Mas não para os ingleses. Eles podem estar nus, sangrando e chorando, mas não vão se ajoelhar. Tanto faz se rico ou pobre, preto ou branco, nobre ou plebeu. Ser inglês é algo substantivo, não cabe adjetivo.

As criadas servindo o jantar são tão inglesas quanto seus patrões. O mineiro jantando imundo de carvão ao lado da mulher é um lorde. A pedra que testemunhou um assassinato e continua lá depois de anos impávida como o monumento na praça que sobreviveu à guerra sob sacos de areia e a mensagem que a internet vulgarizou: “Keep calm and carry on”. Assim seguem os ingleses. A granfina no sofá de veludo pode ser tão forte quanto a mãe que ampara os filhos depois de ter a casa destruída por um bombardeio aéreo.

Desci as escadas e aproveitei para passar pelo Nelson Rodrigues, que neste centenário mereceu exposições diversas e também da FIESP/CESI, além da montagem de duas peças no auditório: Boca de Ouro e A Falecida.

No mesmo dia voltamos para ver o Marco Ricca no papel do bicheiro múltiplo. É notável o fascínio pelo metal. Antigamente as pessoas tinham uma volúpia da morte, que hoje migrou para a juventude, ou até um frisson, como se quem não estiver em movimento contínuo, vivenciando ou apenas simulando sensações, estivesse morto ou, pior, ficando velho, essa coisa abjeta. Mas o ouro continua fascinando: se antes era a vontade de passar para a eternidade deitado num caixão maciço, agora é ser eternamente jovem e rico, não importa a que preço. A comunhão das loucuras está nesses sorrisos de um branco perfeito, total, virgem como um anjo, como se jamais tivesse vivido, e que por isso não poderá morrer jamais.

Enquanto isso a Veja destaca o pensamento do filósofo Michael Sandel. O que o preferido de Harvard propõe é que deveríamos impor limites para a sanha do mercado, porque é degradante imaginar transações envolvendo órgãos, filhos, ventres, cidadania, lugares em filas. E a Veja envolve desde a capa a virgindade leiloada da menina se Santa Catarina.

Para mim ao balcão é tão estreito que sempre que começo a pensar no assunto me confundo, sem saber dizer onde nasce o vício, se na compra, na venda ou se é a conjunção de ambos. Porém, por mais delgado que seja, enxergo o balcão que separa o comprador do vendedor, e entendo que, se é verdade que se um não vender outro venderá, os compradores são limitados, e não é todo mundo que, tendo dinheiro, compraria. A linha é tênue demais, e as respostas definitivas variam muito. Quem pode antecipar a reação diante um momento de necessidade extrema? De qualquer maneira tendo a condenar antes o comprador, não pela transação, mas pela crença em que o vil metal prevalece sempre. E quem assim crê pode ser o tomador do capital. Quando dinheiro não se faz com adulação, bajulação, rufianismo assistencial, golpe do baú?

Sobre a virgindade da menina, que por sinal é maior de idade e vacinada, já disse que enxergo antes do dinheiro e do próprio hímen um gesto político, que liberta a mulher, sempre condenada, ora a dar, ora a não dar. E me parece que quem se escandaliza com o volume de dólares envolvido, mas tolera a prostituição comum, que por sinal é algo insignificante como uma sessão de massagem,  se importa antes com o dinheiro do que com a pessoa, donde ocorre no mesmo erro.

O dínamo do mundo pode ser o dinheiro e o sexo, mas nem um nem outro tem a ver com amor. A qualidade do amor é a inversa: fazer o mundo parar. Diante dele qualquer outra questão é perdoável, todo outro é de tolo. Dinheiro e sexo reluzem, instigam, e por isso tem preço. Amor é intangível, não pega etiqueta nem pode ter forma, seja de ouro, seja de barro, assim na terra como no céu.

crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br



Escrito por Léo Coutinho às 12h45
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Mocinho novo, enredo velho

 

E o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, trocou o secretario da Segurança. Sai Antonio Ferreira Pinto e entra Fernando Grella Vieira. O discurso de posse serviria para qualquer outra pasta. Trocando policiais por médicos ou professores o doutor Grella poderia assumir a saúde e a educação. Na falta da apresentação de um conceito novo a piada infame já está rolando.

A rigor, substituir a pessoa produz o mesmo efeito em qualquer um dos lados. Digo, substituir o mocinho vai resolver o problema tanto quanto prender o chefe dos bandidos: nada. Se o enredo do filme não mudar continuaremos assistindo diariamente a esta carnificina que só não é mais torpe do que a guerra das estatísticas: o Planalto diz que em São Paulo morre mais gente do que em Gaza, o Bandeirantes responde dizendo que proporcionalmente assassinamos menos do que no resto do Brasil.

A questão para mim é muito clara: o combate ao o crime organizado não é caso de Polícia Militar, mas de Polícia Federal. Enquanto a PM está com seiscentos homens em Paraisópolis, outras centenas no Capão Redondo, mais não sei quantos na Brasilândia,  o saldo da corporação que sobra para garantir a ordem opera desfalcado física e conceitualmente, primeiro porque já não há policiais e viaturas suficientes, depois porque com os colegas morrendo em atentados terroristas qualquer outro delito se torna irrelevante.

Relógio roubado, carteira batida, motoqueiro na contramão, ciclista sobre a calçada, carro avançando o sinal, cachorro brabo sem focinheira, contrabandista de CD pirata, flanelinha achacando quem estaciona para ir ao teatro ou futebol. Tudo pode esperar. Ora, as pessoas estão sendo assassinadas e a madame preocupada com uma bolsa? Compra outra e não amola. Outro dia dois vizinhos meus se pegaram de pau na porta da minha casa. Foi uma baixaria, um descendo o sarrafo no carro do outro e a mulherada aos berros. Quando alguém lembro de gritar pela polícia outro falou em cima: “Mas vai incomodar a PM com isso? Os dois que se fodam.”

Policial Militar é para ser conhecido das pessoas e prevenir crimes e contravenções espontâneas. A sensação de ordem já colabora muito. Mal-comparando, a PM é para não deixar os senadores aprovarem um 14º salario para eles mesmos. Quando aprovam o décimo-quinto ou a isenção fiscal para ambos, é crime organizado, é para chamar os federais e, se necessário, as Forças Armadas. Se o Salão Azul tivesse sido enquadrado na primeira investida, a segunda e a terceira não existiriam. Mas a PM, sobrecarregada, já não consegue cumprir sua função, e vai continuar enxugando gelo até alguém criar coragem para mudar o conceito.

Para concluir esse assunto que já é repetido, falo da outra vantagem da PM não se envolver com o crime organizado que tem dinheiro para corromper e poder para atacar: não adianta comprar os policiais corruptos nem mandar matar os honestos, porque nem uns, nem outros, tem qualquer coisa a ver com o assunto.

Ainda dá tempo. Pelas cartas apreendidas, pelas gravações de telefonemas interceptados, nota-se que eles não são tão organizados assim. Mas que evoluem a cada dia, faturando alto e corrompendo, ninguém duvida.

 



Escrito por Léo Coutinho às 18h10
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A paz por preguiça

Os feriados deixaram a cidade deliciosa. O Ibirapuera poderia estar menos cheio, mas assim mesmo estava um deleite. Três medidas básicas para melhorar a convivência no parque é fazer os ciclistas respeitarem o limite de velocidade de vinte quilômetros por hora e o espaço da ciclovia, estejam eles sobre duas, três, quatro, uma ou quantas rodas a imaginação permitir, isto é, skatistas e patinadores de todas as modalidades não podem brincar no meio dos pedestres. Carrinhos de bebê e cadeiras de roda liberados, é claro. Automóveis proibidos, notadamente o da Guarda-Civil, que também deveria usar bicicleta ou, no máximo, carro elétrico.

Outra medida boa seria a criação de mais parques. O Jockey Club em Cidade Jardim é uma área que deveria ser desapropriada. O clube fica com o espaço e os serviços da sede e o entorno vai para a cidade. Derrubam os muros, inclusive os da Marginal. Na Zona Norte também há muros demais. Passei por lá e fiquei espantado com o tamanho do Parque Aeronáutico na Braz Leme. A freguesia pode conferir pelo satélite do google. É imenso e, melhor, nem precisa ser desapropriado, porque se é da Aeronáutica, é do Brasil e de todos os brasileiros, militares ou civis. É só abrir a porta. Não sei se o comandante da Força Aérea ainda é o brigadeiro Saito mas, se for, tanto melhor, porque de jardim japonês manja muito. O freguês que estiver na rede visite no site novo do Lucas Lenci e confira a foto Domingo no Parque para ver como pode ser bom.

Fui à Zona Norte conhecer a Casa Garabed, um armênio que há cinquenta anos prepara uma esfiha de tirar o chapéu. Comi a de cordeiro com hortelã fresco e snoubar, que são aqueles pinhõezinhos que os italianos dizem pinoles. Que generosidade! E que sabor também. Provei a de carne bovina da minha Neguinha e também gostei muito. Depois experimentamos o quibe assado e o mudjectere, que é o arroz com lentilhas e ainda mais snoubars, e coalhada seca. Tudo feito da hora. Nunca vi coalhada seca tão fresca.

Esse negócio de diferenciar a comida árabe é para especialistas. O Dudu Kalili sabe a diferença entre o tempero sírio e o libanês. O Ronaldo Cury de Cápua também. Diz que sua cozinha predileta na cidade é a do Club Homs – que pelo nome deve ser síria. Uma coisa é certa: parecem todos iguais, mas são muito diferentes. Na véspera da Casa Garabed, que é armênia, almoçamos no Cedro do Líbano, na Pamplona, que também faz esfias na hora, e que no prato parecem iguais, mas na boca e na digestão são completamente distintas. A cozinha armênia é mais leve e perfumada, mas as duas são gostosas.

Se a gente atravessar o Mediterrâneo e for à Itália da na mesma. Outro dia, conversando com um amigo novo chamado Gerardo Landulfo, que sabe tudo de lá, ouvi uma interessante. Alguém lhe serviu uma massa à bolonhesa e enfeitou o prato com um ramo de manjericão, o que bastou para ele recusar: em Bolonha o clima proíbe ervas frescas. Estas, por sinal, só mais ao sul ou no litoral. Pode? Mas para falar a verdade nós também temos as nossas. Uma moqueca capixaba jamais seria servida com dendê. Botou dendê virou baiana. E com o feijão, que confusão? Os cariocas comem o preto e os paulistas o marronzinho, chamado carioquinha.

A humanidade é assim, simples e complexa ao mesmo tempo. Duas fitas ótimas que estão no cinema falam disso. Ontem fui ver Um alguém apaixonado. Saí babando: elenco, diálogos, roteiro, direção, trilha e até a locação. Eu moraria feliz na casa do velhinho. Os japoneses absorveram a influência ocidental sem perder a identidade, e há um diálogo sobre uma tela chamada A garota e o papagaio que é exatamente isto: técnica ocidental com espírito japonês.

O outro filme é o E agora, onde vamos?, da Nadine Labaki, que é a Sophia Coppola franco-libanesa. Lindíssima e com toda a sensualidade que só o pudor constrói ela dirige e atua brilhantemente. Faz um pout pourri onde cabe comédia, drama, romance, musical. E, por que não emendar, documentário, porque me mostrou em duas horas a realidade de uma vila libanesa igual a que os meus amigos Chacra vêm há anos tentando explicar. É um extrato social que na proporção serve à humanidade inteira.

Como diria o José Gregori, as brigas intermináveis às vezes acontecem entre vizinhos ou irmãos. E pelo motivos mais distantes e até insignificantes. Os bolonheses brigam entre si para definir a receita do molho que já foi violada e maltratada no mundo inteiro. Paulistas e cariocas já bateram boca por muita coisa, inclusive por feijão. Mas o clichê política, futebol e religião continua insuperável. E inexplicável, também. A freguesa ou o freguês que chegaram até aqui podem aproveitar para olhar o artigo de ontem no blog do Guga Chacra. Depois de passear por intermináveis tribos, grupos, governos, Estados, territórios, religiões no Oriente Médio, antes de visitar a Líbia e a Tunísia, para não complicar, ele arranja espaço para um cristão marxista que é líder exilado.

Se a paz entre essa turma toda, incluindo os ciclistas, tucanos, petistas, corintianos, palmeirenses, Pires e Camargos não for feita por princípio, que seja por preguiça. Ou por prazer.



Escrito por Léo Coutinho às 17h40
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Batuque na cozinha

Aquele que é tido como o primeiro samba gravado no Brasil está em voga de novo. O Batuque na Cozinha, do João da Baiana em parceria com Donga e Pixinguinha profetizou que batuque na cozinha, sinhá não quer, e que muita gente na cozinha sempre dá alteração, mas parece que ninguém anotou.

Enquanto de um lado da casa, para aumentar a reserva nos banheiros, sobram pastilhas, metais e porcelanas, e os casais que podem instalam tudo em dobro, digo práticos gabinetes e românticos chuveiros, com os mais abastados se valendo até de do banheiro inteiro em dobro, um exclusivo para cada, a cozinha vem se tornando num ambiente de convivência familiar e até social.

Abro parênteses breves para lembrar da exceção: sei de um casal que mandou substituir o bidê por uma latrina extra, e assim desde cedo já começam a prosa conjugal, comentando as notícias do jornal. Fecha parênteses, porque tara se trata com discrição.

Os que viajam pra valer e invés do Hilton qualquer lugar vivem o cotidiano do local hospedados numa casa, dizem que na Europa e nos Estados Unidos o costume é absolutamente difundido. Não o das privadas conjugadas, que já estão superadas aqui, mas o da cozinha como ambiente social da classe média. O cinema e a arquitetura dizem a mesma coisa, e as “cozinhas americanas” estão aí derrubando fronteiras e paredes erguidas há décadas.

Atenção: é preciso não confundir as cozinhas americanas com a celebridade atual do mercado imobiliário, notadamente as “copas gourmet” instaladas nas varandas. Estas são a involução das churrasqueiras, que pelo menos tinham a vantagem de ser ao ar livre. Depois que o feliz proprietário pilotar o terceiro churrasco corporativo para o pessoal lá da empresa a fase exibicionista passa e ele volta a pedir pizza por telefone. O buraco da churrasqueira é condenado ao abandono ou, com sorte, vira bancada para orquídeas.

As cozinhas americanas são iguais a qualquer cozinha, só que mais bonitas, inteligentes e equipadas, tanto que falam de igual pra igual com a sala. O problema é que essas cozinhas são americanas do norte, e aqui somos a América do Sul, onde o complexo de sinhazinha permanece entranhado no povo. Então a parede cai, mas a separação continua, porque a sinhazinha na sala de jantar continua ocupada em nascer e morrer. Lavar louça nem pensar. E de ouvir o batuque ela também não gosta.

Aqui todo mundo quer ter uma mucama. Não é raro que a empregada doméstica ou babá da casa do rico tenha outra empregada doméstica ou babá na própria casa. É sempre alguém subjugado, uma prima distante que vem para a cidade e topa o serviço em troca do teto. Esta é a base da remuneração dos empregados domésticos no Brasil: o teto. Sem trocadilho ou jogo de palavras: a primeira recompensa que o empregador doméstico oferece é um lugar para morar. É a senzala que sobrevive em nós e faz parte do complexo de sinhazinha. Não é privilégio brasileiro. Qualquer população subdesenvolvida está sujeita.

Dois obstáculos fantásticos agora surgem e devem, se não resolver, melhorar muito a situação. Primeiro: a economia está crescendo e a fila está andando. Os bons empregados domésticos estão cada vez mais raros e merecidamente caros. O segundo vem na esteira: a legislação está mudando e agora eles terão os mesmos direitos de qualquer trabalhador, como limite de oito horas de carga horária diária e 44 semanais, hora-extra, adicional noturno, seguro desemprego e contra riscos de acidente de trabalho e outros tantos. É uma maravilha para toda a sociedade, mas é claro que a sinhazinha vai chiar antes de começar a se entender com a cozinha americana. Porque batuque na cozinha, sinhá não quer. O que ela quer é tudo na boquinha.

 



Escrito por Léo Coutinho às 17h18
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Despertador

O despertador social funciona igual àqueles dos criados mudos. Há quem acorde no primeiro toque, quem peça mais cinco minutos de soneca, mais dez, quinze, há quem quebre o despertador e também aqueles que não estão nem aí com a hora do Brasil, como diria o meu amigo Reginaldo de Melo Lima. Aonde andará o Reginaldo?

Amanhã, na cidade de São Paulo, será celebrado, com feriado, o Dia da Consciência Negra. A ideia é que ele funcione como despertador social, que, diante de um dia para parar e refletir, a sociedade chegue mais perto do fim da discriminação racial, ou pelo menos em relação aos negros.

Enquanto isso na internet rola um vídeo com um jornalista americano entrevistando o Morgan Freeman, que perguntado sobre o que acha de uma data semelhante nos Estados Unidos responde: - “Ridículo”, e conclui que a melhor maneira de encerrar a questão da discriminação é supera-la, deixar de falar sobre isso, tratarmos uns aos outros como indivíduos, sem adjetivo.

Contra a opinião do ator não falta quem proteste. Há quem diga que fingir que o preconceito não existe não resolve nada. Ora, o preconceito é do homem, vai existir até o último estertor de vida humana. Temos que aceita-lo como uma realidade, inclusive lembrando que pode ser a favor. Nunca vi algum negro reclamando do preconceito sobre raça ser sexualmente bem-dotada. O que não pode ser tolerado, em hipótese alguma, é a discriminação. E ter um dia específico para a Consciência Negra é uma forma de discriminação. O Dia Internacional da Mulher também.

Minha impressão é que o nosso maior problema social é econômico. Estamos atravessando um período em que o dinheiro fala mais alto em qualquer circunstância. A simples posse da grana está sendo mais valorizada do que qualquer outra coisa. De modo que, quem não tem, não tem nenhum valor. Você pode ter educação, cultura, beleza, charme, talento, simpatia: sem dinheiro não terá valor. É como se, sem o porte de ouro, o arco-íris fosse dispensável – quando vale exatamente o inverso.

A sem importância com que os feriados são tratados traduzem esta situação onde a falta de cultura é agravada pela distorção de valores. O 15 de Novembro vale pela possibilidade de aproveitar a folga da maneira mais bacana possível. Sobre a República, nenhuma linha. Com o 20 de novembro é ainda pior. A situação sócioeconômica condena a maioria de negros pobres a passar o dia da Consciência Negra servindo aos brancos. Sobre como diminuir este abismo social, cultural e econômico só o Morgan Freeman falou alguma coisa.

Ele está adiantado no tempo? Sem dúvida. Mas não dá para a gente parar o relógio e esperar que todo mundo acorde no primeiro toque do despertador. Vamos ter que tocar o alarme repetidas vezes, infinitas talvez, e mesmo assim haverá quem se recuse a despertar para a nova realidade. Porém, alguém precisa garantir que os ponteiros continuem avançando, e neste papel o mister Freeman está perfeito.



Escrito por Léo Coutinho às 17h29
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Fotografia do passeio

De passagem por São Paulo a família Fleming deixou a vida na cidade mais gostosa. O Ian ainda está por aqui nos melhores cinemas com o jubileu de ouro do 007, que é uma maravilha. A Renée fez um rasante a convite da Sociedade de Cultura Artística. Não sei se são parentes de sangue, mas são artistas gigantescos, cada um na sua.

O 007 Skyfall, assim como as canções da Renée, são um convite ao essencial. Na tela ele abandona as traquitanas e ela encheu a Sala São Paulo com sua voz e o piano do Gerald Martin Moore, nada mais, e sem prejuízo nenhum, muito pelo contrário. Não entendo nada de espionagem nem de música lírica,  mas me deleitei com os dois de uma maneira que só o refinamento sublime pode proporcionar:  livre de qualquer sofisticação atende a todo mundo, leigos ou especialistas.

O essencial está ao alcance de todos, não precisa ir ao teatro ou ao cinema. Um dos passeios mais gostosos da vida urbana é cumprir o caminho da roça na manhã fresca depois de uma noite de chuva. Não temos o cheiro rural da terra molhada, mas a diminuição da temperatura e da poluição na atmosfera lavada já contentam. E ainda tem o som que escapa do conservatório musical Sousa Lima, que nome lindo!, a golden-retriever que na saída do pet-shop, com o pelo ainda estufado, rola na calçada molhada e levanta cor-de-rosa com as flores do ipê, a criança que se diverte com os jatos grosseiros dos pneus sobre a poças d’água.

A garoa e a distância da poluição melhoram o passeio em qualquer hora do dia, desde que você esteja a pé. Na sexta passada andei do Iguatemi JK até o clube Paulistano. Com o trafego entupido nas ruas, a calçada fica ainda mais atraente.

Fui ao JK ver a SP/Arte Foto. O melhor, além da arquitetura do próprio shopping, que talvez seja o nosso mais bonito, foi a visita dos cariocas. Comecei pela laje e de cara parei diante do olhar da Cláudia Jaguaribe sobre Rocinha, Vidigal, Leblon e Ipanema. Um retrato vertiginoso por tão amplo, em todos os sentidos. O céu está nublado, mas o sol ilumina o morro e brilha no mar. E a favela, o que é? A Costa Amalfitana hoje é o morro do Vidigal amanhã. Só falta acabamento. A linha que separa as classes sociais no Rio é quase subjetiva, igual a Vieira Souto vista de cima. Morro e asfalto se confundem. A obra está na H.A.P., ou Heloísa Amaral Peixoto. Quer mais aristocrata? Mas para o Wagner, motorista da galeria que sabe de tudo, mostra o livro da artista e avisa ao freguês interessado no preço: - “Segura aí que a dona Lolô está chegando.” Tudo suave e natural. E então, está sol aqui e nublado lá ou vice-versa?

Outros trabalhos que vieram do Rio e me animaram foram os véus do Thales Leite, também na H.A.P., e que parecem uma versão urbana das dunas do Cristan Cravo, que está na DAN de SP, as espumas do Bruno Veiga na Galeria da Gávea, tão leves e concretas como as dunas e os véus, além dos pátios de aviões do Cassio Vasconcelos, direto da Pequena Galeria 18.

Nesse caminho de volta entre a Vila Olímpia e o Jardim América uma quadra faz toda a diferença. Fui avançando aos poucos pelo Parque do Povo, depois Cidade Jardim e quando notei tinha superado a Faria Lima. Então entrei pela Rússia e fiz aquele caminho de rato até chegar na Espanha. Uma quadra! Uma mísera quadra para o ar perder o ardido da fumaça, a temperatura cair dois graus e se ter de volta o pio dos pássaros.

Outra SP/Arte Foto só no ano que vem, quando esperamos que as galerias paulistanas honrem o nome da feira e tragam coisas novas. Antes disso, já para este feriadíssimo de clima inglês, na galeria do centro cultural Ruth Cardoso – FIESP, fotos da cena londrina desde 1930. A ilha toda junta e misturada, numa curadoria que parece não ter deixado escapar nada dos últimos oitenta anos.

Crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br



Escrito por Léo Coutinho às 11h39
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Luana S/A

Esse pôster que está nas bancas já deve ter causado acidente. A Luana Piovani cobrindo a peteca só com uma das mãos quer enlouquecer qualquer cristão. E o olhar de ressaca? Capitu é uma lagoa.

Dela posso falar tranquilo. Primeiro porque a minha Neguinha garante que não sente ciúme. E justifica, com requintes de crueldade: - “Ela não daria para você”. Depois porque ela é casada e em mulher alheia eu não reparo. O sortudo é um certo Vianna, aristrocrata, carioca, surfista e pai do Dom. Algum cínico há de lembrar que ela já botou chifre em um. Ora, chifre da Luana é troféu de se exibir na sala. Um mérito antes de qualquer coisa.

Tragado pelo poster comprei um exemplar da GQ que nos fez o favor de traze-la. Fazia tempo que não levava para casa uma revista. Tirando a Piauí e o Amarello, para o qual humildemente colaboro, não há outra que me atraia a ponto de valer a compra. Os clássicos da LP&M custam menos e valem infinitamente mais. Mas quando a Luana está na capa eu compro por princípio. Explico.

No miolo, onde contam como foi a prosa, ela fala que ainda não posou completamente nua, ou até a peteca, que é como ela prefere chamar a dita cuja, por uma questão de mercado: sente que a imagem da própria vale muito mais do que as que vêm nas capas da Playboy. E tem toda razão. Mas ainda não é por isso que eu comprarei qualquer revista com ela na capa. 

Meu interesse, creiam, é antes na personalidade do que na peteca da marquesa de Jabuticabal. Acho maravilhoso que exista alguém como ela, disposta a perder contratos de publicidade para não ter que maneirar opiniões ou assinar contrato de exclusividade com a TV Globo. É a liberdade vingadora. Uma franqueza total e tão convicta que acovarda certas marcas ao mesmo tempo que recusa qualquer falsidade. Sandália cafona ela não calça nem para o comercial. Sopa para emagrecer? Não toma e não recomenda.

De qualquer maneira ninguém há de negar a importância da independência financeira. Dinheiro é igual uísque: não faz ninguém diferente, mas acentua as características. Isto é, melhora os bons e piora os ruins.  Imagina a Luana milionária. É isso o que todos nós podemos fazer através de uma revista. Como numa S/A, cada brasileiro pinga dez, vinte reais, para deixa-la cada vez mais linda, franca e, porque não?, nua.

 



Escrito por Léo Coutinho às 14h24
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Coitada da cabra

 

Para minha surpresa as pessoas mais sintonizadas com o progresso social são as que estão atirando pedras no artigo do J.R. Guzzo publicado na última Veja, intitulado Parada gay, cabra e espinafre. Me parece que a turma só leu o destaque, sem se dar ao trabalho de conferir a dua frase que introduz a ideia: “Já deveria ter ficado para trás no Brasil a época em que ser homossexual era um problema.”

É claro que ele está sendo agressivo quando propõe virar a página enquanto grande parte das pessoas ainda não conseguiu entender o que está escrito na atual (com os analfabetos vocacionais não vamos perder tempo). Mas do que afinal é feito o progresso se não de atitudes corajosas que no presente parecem fora de sintonia, e que só no futuro recebem o reconhecimento devido? Tratar como assunto pessoal qualquer orientação sexual é tudo o que deveríamos desejar.

Na guerra é também assim. Primeiro é o bombardeio aéreo, que sendo o auge da brutalidade fere a todos sem distinção, matando soldados e civis, homens, mulheres e crianças. Em seguida vem a invasão por terra, mais seletiva, mas ainda bruta. O restabelecimento da liberdade e da justiça é o último e quiçá infinito estágio, porque há de sempre ser ajustado.

Para quem usa arte invés de guerra o cenário é o mesmo. No facebook vi o Pedro Machado Granato e uma atriz que prefere não ser citada atacando o artigo do Guzzo. Como para mim os dois são referências no teatro, vou continuar na ribalta para tentar expor meu ponto de vista. 

O nosso dramaturgo maior era um bombardeiro. As peças do Nelson Rodrigues abalavam a todos indiscriminadamente. Os conservadores diziam que ele era progressista, e estes o chamavam de reacionário. Quando houve liberdade para se fazer justiça, todos reconheceram que o alvo dele era um só: os idiotas da objetividade – que por sua vez ainda não entenderam nada e continuam babando na gravata.

Outro dramaturgo, o Edward Albee, também usou uma cabra para chacoalhar a sociedade. No texto A Cabra ou Quem é Sylvia ele toma do bicho para discutir os limites do amor, preconceito e tolerância. Quando ele bota uma cabra no lugar de uma mulher como amante do marido infiel, bombardeia o método de raciocínio impregnado nas pessoas, também conhecido como pré-conceito. E dessa confusão proporciona novas perspectivas. Isto é arte.

Modestamente a mesma coisa aconteceu comigo. Sou sócio e conselheiro do clube Paulistano, e como tal participei da audiência que deliberou sobre a questão homoafetiva. Folgo em dizer que contribuí para a decisão final do Conselho, que foi no sentido de acompanhar a interpretação do Supremo Tribunal Federal e desconsiderar qualquer significado do Código Civil que impeça o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar. Tendo a oportunidade de falar na penúltima reunião do Conselho, disse mais ou menos o seguinte:

“Não se pode deixar herança para o gato, botar sobrenome em cachorro, incluir o papagaio como dependente aqui no clube. Porque a Justiça não reconhece a relação de afeto entre espécies distintas como unidade familiar. Entre os da mesma espécie, porém, a Justiça reconhece. E recentemente o STF reconheceu inclusive a união entre os iguais de gênero.

O Supremo está em voga. Um dos melhores advogados criminalistas que conhecemos disse algo exemplar sobre as decisões daquela corte: são como a bala de prata que mata até lobisomem, definitivas, inapeláveis.

As crianças, que acreditam em saci-pererê, mula sem cabeça e outras assombrações, aprendem que mulher com mulher dá jacaré e homem com homem dá lobisomem. É mentira. É ignorância. Lobisomem não existe. E se não existe não precisamos esperar a bala de prata do Supremo para aceitar que dois irmãos nossos se amam e constituíram família.”

 



Escrito por Léo Coutinho às 13h59
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Cada macaco no seu galho

Como não sei desenhar para clarear o entendimento geral, vou usar o velho truque de apontar uma imagem manjada de todos: o cinema americano. Qualquer filme de gangster poderia me socorrer, mas vamos logo para aquele que é tido como o melhor de todos: O Poderoso Chefão.

Eu diria que corre até o risco da unanimidade. Nas redes sociais, quando a pessoa é estimulada a revelar sua fita predileta, nenhuma ganha do padrinho. No Orkut já era assim e continua no facebook. E é delas que brota minha irritação que provocou a malcriação que inicia este palpite: não posso acreditar quando vejo gente esclarecida incentivando a guerra entre a Polícia Militar e o crime organizado em São Paulo e até políticos dos mais respeitados analisando a cena com um olho nos cadáveres e o outro em 2014.

Muito bem. No Poderoso Chefão, quando a polícia local toma partido da organização criminosa que suborna melhor, a família Corleone reage com brutalidade: de civil o Michael passa a soldado, marca um encontro com o Turco e o capitão de polícia numa cantina e assassina ambos com tiros a queima-roupa, numa cena brilhante, onde a tensão no ar pode ser fatiada de tão densa. Mil parabéns ao Copolla, que a partir daí explica a guerra que se instala em Nova Iorque com a sucessão de manchetes de jornais narrando as batalhas de cada dia, exatamente como assistimos hoje toda manhã, infelizmente na vida real, com gente e sangue de verdade.

A diferença entre o Brasil e os Estados Unidos é a polícia que trata do caso: sai a polícia local e entra o FBI, que é a Polícia Federal deles. Há muitas razões para isso, teóricas, práticas, políticas. A teórica é básica: crime organizado não é assunto de polícia local, que vamos chamar de PM, mas de Polícia Federal. A PM serve para proteger, não para investigar e muito menos atacar. Na prática, além de manter a PM em sua atividade fundamental, botando a PF para combater o crime organizado o Estado salva duas vezes o policial, pelo princípio da impessoalidade: os PMs, que serão melhores tanto quanto forem conhecidos das comunidades, sendo honestos estarão protegidos de ataques covardes, e sendo corruptos não terão como facilitar os negócios de seus patrocinadores. E tendo isso bastante claro, a população não fica vulnerável ao jogo político abjeto que assistimos hoje no Brasil. É cada macaco no seu galho.

O ministro da Justiça José Eduardo Cardozo é dos raros quadros do PT original que podemos respeitar. Mas talvez tendo um olho em 2014 e querendo gritar “Vai pra cada, Padilha!”, foi à imprensa oferecer ajuda das forças federais ao estado de São Paulo. Ora, como assim oferecer? Tinha que determinar: a Polícia Federal, se necessário com a ajuda do Exército, vai ocupar os redutos onde o crime organizado se instalou. A questão não é se a PM de SP tem ou não condições de enfrenta-los. A questão é de competência, e crime organizado, sobretudo se envolve tráfico de drogas, é assunto federal.

Em São Paulo não há espaço para plantar coca. E salva uma ou outra zona de fronteira com a Bolívia ou a Colômbia, duvido que haja qualquer plantação da folha em todo território nacional. Então é claro que a cocaína é importada. E se é importada é mais um motivo para ser assunto federal, não regional. O PCC, inclusive, segundo o Estadão de hoje, já é multinacional.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, por sua vez, parece ter resistido ao acordo de colaboração com o governo federal. Aliás, o trato firmado no Palácio dos Bandeirantes se resume à redundância do que deveria acontecer sempre: uma agência foi criada para combater o tráfico e sintonizar a inteligência das polícias e dos diversos níveis judiciários.

Creio que a posição do governador deveria ser a de cobrar o ministro da Justiça, que não faria mais do que sua obrigação enviando tropas federais a São Paulo. Por outro lado, se a iniciativa fosse do ministro, o governador teria que acatar. Resistir seria como se o prefeito da Capital, por ser de partido adversário, decretasse que a Guarda Civil Metropolitana agora é responsável pelo policiamento da cidade, e a Polícia Militar que fosse cuidar do interior e do litoral.



Escrito por Léo Coutinho às 12h36
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Fábulas diversas misturadas

O Helito Bastos gosta de contar a história de um americano que conheceu num papo de bar. O homem era caçador e, como aqui no Brasil os caçadores são clandestinos e portanto proibidos de contar seus causos, esta freguesia imagine as possibilidades de enredo se inspirando num pescador que não tem por limite o fundo do mar.

Dizia o caçador americano que o coiote, se capturado por aquelas armadilhas parecidas com os jacarés amarelos que prendem a roda dos maus motoristas nos shoppings centers, tem a capacidade de roer a articulação do membro aprisionado para se libertar. Quer dizer, pela liberdade ele suporta sem anestesia a auto-amputação da perna.

Outro bicho que merecia fábula do americano era a morcega. Não as ratazanas aladas, mas os similares humanos, ou seja, mulheres que vivem pela noite e ao lado das quais na manhã seguinte o homem acorda de cabeça para baixo. De acordo com a experiência do caçador, nestes momentos mais vale repetir o coiote deixar o braço debaixo dela do que correr os risco de acordar a morcega e retomar a prosa.

O Helito, que tendo nascido em fevereiro é do signo de peixes e se jacta de ser o legítimo bagre ensaboado, aquele ser irrepreensível, digo, inaprisionável (pode?), acho que é intangível, enfim, aquele que não pega cabresto de jeito nenhum, mesmo assim morre de inveja do coiote. E tem razão, porque com morcega qualquer artimanha pode ser conveniente.

O Vinícius de Moraes, que era do mesmo padrão, tem um versinho assim: “Há damas de todas as classes, umas difíceis, outras fáceis”. Com as morcegas vale a mesma coisa. Quer ver? Cleópatra. Quer mais morcega que a Cleópatra? Rainha e morcegona. Botou o mundo inteiro de cabeça pra baixo. Primeiro traçou o irmão, Ptolomeu, de quinze anos. Depois, escondida feito recheio num tapete enrolado, chegou aos aposentos do Julio Cesar e ficou. Para dividir a bronca o imperador sugeriu que ela casasse com o outro irmão, que também chamava Ptolomeu, sendo uma boa estratégia inclusive para não gemer nome errado. E quando mataram o Julinho ela ficou com o melhor amigo dele, o Marco Antonio. É morcega ou não é?

Além de morcega era superpoderosa. Um tipo de Batgirl, só que de verdade e com muito mais traquitanas na cinta. É tão grande a importância da Cleópatra que alguns historiadores chegam a dizer que se o nariz dela fosse um pouco maior, ou menor, o Mundo seria diferente do que este que recebemos.

O Fernando Reinach escreveu outro dia no Estadão sobre a capacidade de cicatrização de um camundongo que, mais esperto do que o coiote do americano, quando vai parar na boca da cobra deixa a pele toda para trás e em pouco tempo está restabelecido. Sabe o rabo da lagartixa, que fica na mão de quem tenta apanha-la garantindo sua fuga para depois crescer de novo, sem sequelas? Pois é, com esse rato acontece o mesmo só que com a pele inteira, ou quase toda. Depois de esfolado ele volta a ser branquinho, simpático e, sobretudo, fica vivo.

Os biólogos estão estudando isso para ajudar no processo de cicatrização humana. Segundo o Fernando, quiçá pensando no nariz da Cleópatra, a história do Brasil poderia ser diferente se o dedo mindinho do Lula tivesse se restabelecido depois do acidente no torno.

Mas de qualquer maneira ninguém ganha de um certo camarão de uma polinésia qualquer. Este é insuperável. Não tem morcega que segure. Sabe do que ele é capaz? Depois do ato sexual deixa o próprio pinto de presente para a fêmea. E dali a pouco já tem outro pinto no lugar, novo em folha, pronto para usar.

crônica publicada no www.cesargiobbi.com.br



Escrito por Léo Coutinho às 13h38
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Quando Zé Dirceu falou a verdade

 

Numa entrevista recente que repercutiu bastante, Clara Becker, a primeira mulher do Zé Dirceu, revelou temer que ele não resista e se mate na cadeia. Sim, a família já se prepara para frequentar a detenção e planeja o cronograma de visitas.

O maior receio da mãe do filho mais velho do ex-primeiro-ministro do governo Lula é em relação a comida. Ela diz que o homem é bom de garfo, mas no sentido de gastrônomo, não de glutão, e sabe-se que recentemente ele desenvolveu o gosto por vinhos caros.

Quem lê a reportagem nota que o amor não se esvaiu com a separação, ou que é eterno como todo amor de verdade, conforme o Nelson Rodrigues nos disse. De Cruzeiro do Oeste, onde vive no Paraná, levou à casa do ex em Vinhedo um cordeiro marinado com vinho branco e alecrim. Antes de sair telefonou avisando: - “Benhê, limpa a área que eu estou chegando”.

Clara faz questão de exclusividade enquanto está presente. Por causa disso perdeu o grande amor, aquele que ela considerava “tudo o que pediu a Deus”. Quando veio a anistia no final da ditadura militar ele se apresentou como Zé Dirceu e mudou-se para São Paulo a fim de retomar a agenda política. Eram casados há quatro anos, mas ela o conhecia por Carlos Henrique, órfão imigrante da Argentina.  Entendeu e perdoou a mentira, mas não entendeu e nem perdoou a pulada de cerca.

Com ele em São Paulo ela continuou no Paraná e de vez em quando vinha fazer uma visita. Numa delas a loira encontrou cabelos de mulher morena no banheiro. Imagino que tenha feito um escândalo, ao que o Dirceu lhe respondeu: - “Se eu tenho outra mulher é um problema, agora se a gente vai se separar é outra questão.” Digam o que quiserem a respeito dele que hoje é o inimigo público número um, mas com a mãe do filho o nego foi sincero. Poderia ter dito que era da empregada, de uma militante que passou, mas tratou a questão com a verdade e a mulher com respeito.

E a boba diz que se arrepende, mas não por ter encerrado o casamento. Seu pesar é “por ter deixado o campo limpo”, provando que o ciúme prejudica a compreensão até do quadro mais simples. Como todo ciumento possessivo ela acredita que a base da fidelidade é a vigilância, mas na hora de visitar o ex-marido exige a ausência da namorada atual. E mais: hoje diz que ele jamais amou qualquer mulher na vida, só a luta política, e provoca: - “Agora que o cartão de crédito acabou quero ver quem vai visita-lo na cadeia”.

Enfim, acho que vim para escrever uma coisa e saiu outra. Minha vontade original era avisar a dona Clara que o ser humano se acostuma com tudo. O Paulo Francis, também gostava de comida e roupas de primeira linha, quando foi preso entrou pensando em se matar – dois dias depois, só de cueca, batia a colher na grade quando o grude atrasou. O Zé Dirceu, frio e duro do jeito que é, não terá maiores dificuldades nesse iminente retorno ao xilindró. Fique tranquila e leve um cordeiro de vez em quando.

 



Escrito por Léo Coutinho às 16h47
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O tabu, este insuperável

 

Foi um escândalo quando a última virgem adulta de Santa Catarina resolveu leiloar sua pureza na internet. Quando anunciaram o vencedor japonês virou piada. Agora a notícia de que ela vai desfilar na semana de moda do Rio está revoltando as moçoilas que se julgam melhor modelo, tanto de conduta quanto de manequim 

Enquanto isso no Amazonas as virgindades de índias adolescentes são vendidas no atacado a quem dispor de vinte reais. Com o milhão que desembolsou pelo cabaço da catarina o japonês poderia deflorar cinquenta mil indiazinhas. É de fazer o Conde D’Eu virar no tumulo.

A verdadeira prostituição e o vício mais perigoso para a sociedade estão no acalentar dos tabus. Enquanto a o absurdo da realidade descrita nos dois primeiros parágrafos persiste há políticos que demonizam o aborto, a igreja proíbe a camisinha e a família não consegue controlar sequer a fecundação, seja dos pais, seja dos filhos. Só o Espírito Santo é que pulou fora e não engravidou mais ninguém.

Com as drogas a vitória também é dele, do tabu, este canalha insuperável. Fomos condicionados a crer que elas ainda vão acabar com o mundo – mas desde que sejam proibidas. Drogas legalizadas, creiam ó bovinos!, não mata. Aliás, nem vicia. Mal? Também não faz. Podem tomar seus ansiolíticos comprados sem receita, ou com receita mas sem consulta, e dormir tranquilos ante esta realidade brutal.

A capa de uma Veja recente falou o que ninguém sabia: maconha faz mal. Ora, é claro que faz. Uísque e tabaco também. E o açúcar, então? Faz mal pra danar! Respirar a fumaça do túnel Nove de Julho é pior ainda. Mas diria a Poliana que tudo tem seu lado bom, e você que está louco para tomar um uisquinho daqui a pouco, ou você que sente vontade de fumar cigarrinho depois do café, e também você que teria traçado um pudim de leite depois do almoço, e todos vocês que sabem que vão amargar no congestionamento enquanto pensam em tudo isso não podem negar que a maconha em algum momento seja positiva. É questão de lógica: tudo tem o lado bom. Isto é, menos o congestionamento.

Mas para salvar os jovens brancos da classe média desse mal irremediável que quase todo mundo fumou mas não tragou estamos condenando os moleques pretos e pobres ao trafico de drogas. É o famoso jogo do perde-perde: enquanto os mauricinhos não deixam de dar pelo menos um tapinha para ver qual é, favelados de doze anos de idade estão matando uns aos outros com fuzis de guerra.

O propósito do governo na luta contra o tráfico de drogas ilegais é o mais acertado: cortar o faturamento, tirar a grana dos traficantes. A estratégia de enfrentamento, porém, mais que errada é inócua. Nunca terá êxito. O único jeito de acabar com o poder financeiro dos traficantes que compram armas e corrompem autoridades é a que Chicago usou contra o Al Capone: revogar a Lei Seca ou, no caso, legalizar todas as drogas.

Assim o dinheiro vai deixar de ir para os criminosos e começará a vir para o Estado, que poderá investir em educação e saúde, ou notadamente em prevenção e tratamento de viciados em potencial. Isso sem contar a economia que faremos com segurança pública, trazendo a polícia de volta para sua função original, que não é atacar, mas proteger os cidadãos, sejam índias do norte, putas do sul, brancos do asfalto ou pretos do morro. 

 



Escrito por Léo Coutinho às 15h11
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Obama de novo

Entrei no blog do Guga Chacra para responder a vinte perguntas sobre a intensidade da minha simpatia ao governo Obama e saí murcho: além de vinte motivos para não gostar da gestão do Baraca (obrigado, LFV), não encontrei aquele que considero seu pior momento, que foi o assassinato do Bin Laden, com direito a invasão acho que do Paquistão e sem direito a julgamento ou enterro. Quer dizer, para mim são 21 motivos para não aplaudir esses quatro anos da casa Branca.Por outro lado, posso dizer que são só 21, até porque alguns deles vão muito além da parcialidade polêmica, chegando a parecer torcida, donde se crê que não deve haver outro. Se o Guga relacionou vinte falhas do candidato republicano no mesmo tom, comi bola, não vi.

Sobre o furação ou tempestade Sandy que assolou a costa leste dos Estados Unidos na semana passada ouvi dois comentários de meter vergonha em cara de pau. O primeiro tipo – que se multiplicou pelas redes sociais – foi de gente se solidarizando com quem foi a Nova Iorque correr a maratona e perdeu a viagem. O que dizer? É como lamentar levar cano de uma menina porque ela acaba de ser estuprada. O que o prefeito deveria ter feito é transformado a maratona. Invés de corrida, a medalha de ouro iria para quem recolhesse mais lama. 

Outra coisa bocó foi a opinião de um sujeito tido como esclarecido, desprezando fleumaticamente a possibilidade de os americanos se sensibilizarem com a tragédia e votarem pela reeleição do Obama, que por sinal teve o apoio do Michael Bloomberg, prefeito de Nova Iorque.

Ora, se o desempate depender do tratamento que democratas e republicanos dão à questão do meio-ambiente, e ainda que, segundo o Guga, o Baraca tenha sabotado a Rio+20, não encontro nada comparável à preferência dos republicanos pela produção e pelo consumo desenfreado sobre a preservação da Natureza. Em outras palavras, acho mais grave não ter assinado o Protocolo de Kyoto do que ter faltado à Rio+20. E é claro que tudo isso deve influenciar as eleições nacionais, ainda que através de um gesto pontual como o socorro (obrigatório) às vitimas de um furacão.

A mensagem que vai na atuação direta com o incidente é a da preocupação em reverter o efeito estufa e outros males que o século vinte legou à Terra. Acredito que são notadamente dois e que estão diretamente relacionados ao furacão Sandy: endireitamento de rios e similares (o mundo todo fez marginais, cortou morros, construiu aterros, enfim), e  a cultura do carro e da gasolina.

Há quem inclua nisso o volume da produção de carne e o consequente gás metano, mas com reservas, porque nela vai a maravilha que é a proteína animal e todo o bem que ela fez à humanidade.

Para encerrar logo, até porque este assunto, além de distante, aqui mesmo já vai longe, se fosse votar na eleição de hoje tentaria somar a frequência de incidentes tidos como naturais à escala do terrorismo e decidir pelo candidato mais adequado a frear estes números, e assim escolheria o Barack Obama, não por ser o bom, mas por parecer o melhor intencionado.

 



Escrito por Léo Coutinho às 15h17
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Passeando em Finados

O casal mais bonito da paróquia tem nome e sobrenome: Angelina e Amadeu Santisi. Não sei qual é a relação entre eles, mas sei que vivem em endereços distintos: ela na Zé Maria Lisboa ao lado da pizzaria Veridiana e ele na rua Saint Hilaire, onde quem faz pizza é a Prestíssimo.

Individualmente o mais bonito lá do meu pedaço é o Ipê, que fica na Capitão Pinto Ferreira, ou Capetão simplesmente, como prefere a Patrícia Pimenta, moradora que migrou há muitos anos. Meu palpite é que o Ipê é parente da Angelina e do Amadeu. Creio que os três sejam filhos do Vilanova Artigas. Mas com certeza só o Amadeu, porque ostenta na fachada um painel lindo do artista e arquiteto que também desenhou o Edifício Louveira, que é o mais feliz da freguesia de Higienópolis, tanto pela arquitetura quanto pelo entorno.

Gosto muito de onde eu moro, mas estou de mudança. Um freguês desta página pode duvidar que eu sinta algum tipo de vergonha, mas a verdade é que uma delas é ainda viver em casa de mamãe. Que luta! Aquela história de padecer no Paraíso depois de um tempo o homem herda. A mordomia é boa, qual o carinho, mas o nego sofre mesmo assim. Tenho que dar um jeito e para logo.

Morei alguns períodos fora, um deles na casa de Juquehy, que também era dela. Hoje já não vou lá. Tenho preguiça. Na quinta-feira de véspera do Dia de Finados fui fazer sauna no clube e o Manduca, que batizado foi Armando Iaropoli Neto, me disse que pela previsão do tempo mais de cinquenta por cento das pessoas deveria desistir de ir a praia. Concordei. O diabo é que a outra metade já é mais que o dobro do que as estradas e as próprias praias comportam.

Outra coisa que fiquei sabendo é que entrou ladrão na casa. O saldo do roubo ainda não temos, porque parece que ele ainda está lá. Isso já tem pelo menos uns seis meses. Um vizinho disse que eles são amigáveis e que não fugiram pelo mesmo motivo: receio de congestionamento. Ora, todos hão de convir que não fica bem fazer uma fuga com a Rio-Santos entupida. Vamos ver se depois do carnaval eles fogem. Eu que morei lá sei que o fim de semana do dia das mães é menos cheio. Fica a dica.

Por essas e outras passei o feriado em São Paulo, no que cada vez mais acho uma delícia. O do Ano Bom é o melhor de todos. Consigo aproveitar as ruas, comer as jabuticabas e as pitangas que estão pelas calçadas, ver arquitetura boa como a do Artigas, passear com a Una, ficar a sós com a minha Nega. E descobrir lugares novos, inclusive na minha paróquia. Vejam que sorte.

Na noite de quinta, depois da sauna, fui enfim ver um restaurante Siciliano que fica na Itú entre a Nove de Julho e a Pamplona, chamado Taormina. Desde que vi a Connie Corleone matando o Don Altobello com uma porção de cannolli persigo esses canudos, e por uma conversa entre o Pedro Rosa Bandeira e o Fabio Mazza ouvi falar do Taormina. Chegamos e entramos, mas descobrimos que estávamos, na verdade, na Tasca da Esquina, filial paulistana de um restaurante moderninho de Lisboa. O Taormina é vizinho e só funciona no almoço.

Ficamos e fomos felizes. Sem reserva, nos restou uma mesa diante da boqueta, que apesar do frisson é agradável, até porque as galeras tanto da cozinha quanto do salão incluem portugueses genuínos, o que deixa tudo pitoresco.

Resolvi me deixar na mão do chefe numa degustação de quatro pratos – pode-se ir até sete, com sobremesa. Começou com um gaspacho de manga e presunto, evoluiu para pastéis de pato com chutney de pimentão e abacaxi (ótimo), seguiu com camarões entre umas torradas que eles chamam de tostas de trigo, o que me pareceu uma redundância de crocantes, mas que estavam bons, apesar do sal excessivo, e finalizamos com um bacalhau a Brás refinadamente rústico e algo cremoso, como se levasse as natas daquela outra receita.

Quem nos atendeu desde o começo foi um garçom simpaticíssimo chamado Wando, que já se aportuguesou. Quando perguntei se seu nome era uma homenagem ao saudoso cantor colecionador de calcinhas, me respondeu: - “Não acredito. Mamãe não faria isso comigo”.

No final o dono veio à mesa e vendeu uma degustação de sobremesas e um cálice de ginjinha “com elas” para acompanhar. Eram os doces: claras em neve com favas toncas (ovos nevados com um tipo de baunilha), creme queimado (creme brule), mousse de chocolate e então a gloriosa, a colossal, a apoteótica Encharcada de Ovos. E ainda tem muito mais. Voltaremos. Mas antes, ao Taormina.

 



Escrito por Léo Coutinho às 16h25
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