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Blog do Léo Coutinho


A goiabeira, a primavera e o IPTU

No quintal da casa de Juquehy há uma goiabeira que é a árvore da minha infância. Temos também duas palmeiras que gosto muito e cujas folhas eu podia tocar na verde idade – tanto a minha quanto a delas; mas serão árvores as palmeiras? Para mim, não. As minhas árvores, além de alegria aos olhos, têm que dar sombra ao homem e, se à beleza e ao frescor da sombra ela juntar frutos, tanto melhor. Uma vez tentamos um pé de nêsperas, que não vingou. Paciência. Me consola o fato de sem ela eu poder viver também sem mulher para descascar os frutos.Um dia vou tentar as lichias, mais fáceis de comer. A gente também tinha uns chapéus de sol que foram derrubados para dar lugar às arecas – que apesar da altura nem de longe parecem árvores. Mas os chapéus de sol não são nativos como eu acredito que sejam as goiabeiras. Bom, pelo menos ela já estava aqui no quintal quando a gente chegou, segundo meu pai, que confirma por telefone. Minha cabeça de menino romântico chegou a acreditar que meu pai plantara a goiabeira para minha mãe, que adora goiaba; e o fato das nossas serem brancas e não vermelhas por dentro acrescentava um ponto à crença, porque ele sempre teve um senso de humor diferente, e não perderia mais essa chance de provoca-la – sempre em vão, diga-se, porque vindas dele, para ela mesmo bichadas as goiabas seriam as melhores. Mas isso é coisa do passado.

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A nossa goiabeira viveu feliz e tranquila até o dia que, com a chegada do progresso, digo, da descoberta da nossa praia pelos bárbaros e suas famílias ruidosas, meu pai, num mau passo, inventou uma garagem no meio do gramado. Descansa, freguesa: ele não derrubou a goiabeira. Porém, plantou ao pé dela uma primavera que imaginou como um arco que encimaria o portão da tal garagem. Mas como a primavera – que alguns preferem bouganville – tem personalidade forte e vontade própria, esta escolheu viver escorada na copa da goiabeira, confundindo-se entre seus galhos e fingindo-se boa inquilina, enfeitando a senhoria com seus cachos frondosos sempre que esteve perto do despejo. O resultado é que a goiabeira acabou sem personalidade e o prejuízo da administração para sua remoção, hoje, será muito maior do que se não tivéssemos permitido o avanço.

Do lado de lá da Muralha, isto é, na cidade de São Paulo, a prefeitura começou despachar os carnês de IPTU com valores atualizados e o que não falta é cidadão indignado, protestando como pode – mas nunca faz quando não dói diretamente no bolso – contra a pessoa do prefeito Kassab, que nos últimos dias vem apanhando feito vaca na horta. Ora, a freguesia desta página bem sabe que apesar de barnabé, este bloguista, amparado pela revogação da Lei da Mordaça, não teme dizer o que pensa da administração quando esta vai mal, e por isso mesmo fica à vontade para elogiar seus êxitos, como, por exemplo, no caso do IPTU progressivo.

Só os “espertos” é que podem crer ser normal pagar imposto predial tendo a inflação como indexador ou o preço de compra e venda como referência. Se um apartamento pronto para morar já vale muito mais do que o mesmo comprado anos antes “na planta”, quanto ele vai valer quando o bairro todo estiver pronto para viver, com metrô, praças, parque, comércio, serviços e entretenimento instalados? E contribuir de acordo, é justo ou não é?

Ouço uma freguesa histérica: “Seria justo se a prefeitura entregasse a infra-estrutura!, mas não há em toda a cidade um só bairro assim”. Pois é, um bom quinhão da histeria e da ansiedade típicas do paulistano devem ser debitadas da conta dos especuladores imobiliários e de prefeitos do passado que negligenciaram o crescimento da cidade permitindo que ela se expandisse para ermos totais onde hoje, tal qual a poda da primavera na goiabeira, a instalação de infra-estrutura custará muito mais caro, obrigando a sociedade civil e o Poder Público a irem se virando como podem em meio ao caos instalado.

Ainda em resposta à minha histérica leitora, quero dizer que existem sim em São Paulo bairros completos em serviço público, mas que foram “esquecidos” em estoques especulativos assim que ficaram mais caros para investir, a começar pelo Centro, que é a jóia da nossa cidade. Lá a prefeitura, através da COHAB, está investindo R$ 400 milhões na desapropriação de prédios abandonados para serem requalificados para moradias de toda gente, embora os jovens, os idosos, os artistas e as pessoas que já trabalham na região sejam o público alvo deste começo. Fui assistir à apresentação do trabalho no auditório do Edifício Matarazzo e fiquei emocionado quando um professor da FAU – parceira do projeto – comentou que o Riachuelo, um prédio que fica no fim da rua homônima e que é o primeiro a ser entregue dos 53 já programados para requalificação, já está repleto de flores na janela, mostrando que a vida está voltando ao Centro. E, para quem não entendeu a relação com o IPTU, basta lembrar que se o tributo já fosse adequado há mais tempo, nenhum empresário se atreveria a manter um prédio abandonado no coração da cidade; e o dinheiro hoje empenhado na revitalização poderia ter destino ainda mais feliz.

Abro parênteses para sugerir ao pessoal da secretaria de Habitação, da COHAB, da FAU e ao próprio prefeito Kassab que, se o prédio do Othon, em frente à prefeitura, não puder voltar a ser hotel, que pelo menos seja requalificado para moradia, e que a cobertura seja a residência oficial – e compulsória – do prefeito de São Paulo.

E aproveitando a sombra da goiabeira, encerro sugerindo ao prefeito Ernani que adote nas nossas praias a mesma tabela de cálculo para IPTU. Com ela, além de ter dinheiro para investir e realizar, o prefeito vai fazer pensar os vaidosos que hoje não se preocupam em manter casas cujas portas abrem, quando muito, dez vezes ao ano, provocando a sazonalidade que atrofia o turismo e condena a cidade e o povo ao atraso da vida de gado que protege o patrimônio em troca de ração, quando nosso potencial é para hotéis, pousadas, bares e restaurantes, que invés de caseiros formam camareiras, concierges, copeiras, cozinheiros, garçons, maitres, bartenders, músicos, artesãos, guias de turismo, perspectiva social enfim.



Escrito por Léo Coutinho às 18h31
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O sétimo mandamento na areia

Sobretudo na praia, não se deve cobiçar a mulher do próximo. Ainda que elas venham todas muito faceiras e douradas desfilar seus encantos na areia, convém a nós ignorar solenemente a presença de cada uma delas; e para colaborar com o sacrifício vale até pensar numa mulher da gente, como o caipira que se ufana da bica que tem no fundo da chácara quando diante das Cataratas do Iguaçu.

Quando ela vem sozinha ou na companhia de outras mulheres, chato fica não olhar, sendo quase uma desfeita. Mas se ela vem ao braço do macho, repito, o correto é considera-la invisível. E esta postura é antes um ato de solidariedade do que de respeito ao sétimo mandamento ou à simples presença do rival. É a mesma solidariedade que se presta ao catador de latinhas de alumínio, que além de ganhar o pão honestamente ainda obsequia à natureza. É a solidariedade que quer homenagear o trabalhador do Brasil.

Homem solteiro que só apanha mulher em botequim e executa sem precisar telefonar, fazer sessão no cinema ou jantar em bistrozinho da moda – como muito freguês desta página, – se nem imagina o serviço que dá namorar de bons propósitos, ignora completamente a mão de obra que um colóquio desses acarreta num final de semana de verão.

A via crúcis começa ainda no planalto quando a princesa pede para o namorado entrar na garagem e subir para ajudar com a bagagem, esta que consiste em pelo menos dois vastos volumes para uma jornada de menos de 24 horas – com pouca roupa. Quando a viagem de carro começa o problema tende a crescer, visto que ela é incapaz de sossegar numa estação de rádio e sempre vai reclamar do ar-condicionado, da velocidade, da possibilidade daquele caminhão lá na frente migrar de pista. Ainda: já ia me esquecendo que antes do pedágio ela já exigiu por três vezes garantias que o mercado caiçara terá o iogurte que ela toma no café da manhã, além daquela gosma que a Sadia vende como peito de peru.

Na casa onde o casal vai se hospedar ela vai encontrar tudo muito bonitinho e fazer elogios, mostrando que mamãe ensinou. O problema é que ela também vai encontrar uma fivela na gaveta do criado mudo e transformar o fato em questão, fazendo bico invés de simplesmente aproveitar o inanimado produto nos próprios cabelos. Durante o bico, só para mostrar quem manda, ela vai desfazer o conteúdo das três nécessaires e, com ele, ocupar todos os espaços disponíveis no banheiro. Ah, quando o bico estiver quase minguando ela vai tostar o secador na tomada e, com o pipoco, descobrir que a casa é 220 e que o cabelo dela, até domingo, voltará ao curso normal, como o velho Tamanduateí.

Na manhã seguinte, depois do amor, engana-se o distinto se acredita que vai poder começar o dia com uma cervejota gelada, daquelas de ofuscar colorido de primavera tropical. Pasmada com o seu desejo ela vai insistir que suco de laranja em conserva ou leite de soja perfumado com frutas é muito mais saudável. Depois do café ela vai tentar ir ao banheiro, numa operação que longe de casa sempre acaba frustrada; e é assim, enfezada que ela voltará à varanda, ainda não para ir à praia, mas para perguntar se o sutiã combina com a calcinha do biquíni. Se você disser que sim, ou se disser que não, tanto faz: ela ainda vai tentar uma dúzia de combinações.

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Enfim na areia, para aonde você foi carregando cadeiras, guarda-sol e farnel, novamente ocorrerá em equívoco o cavalheiro que supor que Deus é justo e que finalmente lhe será concedido o merecido direito de relaxar com suas latinhas. Antes da segunda ela terá a brilhante ideia de andar na praia e, como diz o Fre Zaragoza, “botar o pé na pedra para energizar”. E lá vai o pobre-diabo, derretendo sob o sol e tendo que aturar a cafajestada reunida nas barracas de coco e milho verde sem nem tentar disfarçar a cobiça. Ou não: pensando bem, dependendo da extensão da praia, em algum momento ele encare assim a o oferecimento do gavião malvado: “Gostou mesmo? Fica pode levar: mas carrega o guarda sol e as cadeiras”.



Escrito por Léo Coutinho às 02h48
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É preciso saber viver

Como na canção do Rei, é preciso saber viver. E como é que a gente pode aprender? Bom, existem pelo menos duas maneiras: a dura e a branda. A maioria das pessoas opta pela dura. São aqueles que só vão entender que atrás de cavalo, por dentro de tomada ou por cima de bueiro a gente não deve ficar quando leva coice, choque ou entra pelo cano. Paciência: cada um é cada um.

A branda fica reservada para um grupo seleto, estudioso e observador, que se um dia decidirem se arriscar não será de forma cretina e inútil em troca do frisson da adrenalina barata. Essas pessoas podem tanto levar vida tranquila, exatamente como decidiram aprender viver, como podem empenhar seu quinhão de risco em feitos maiores, como em expedições a mares nunca dantes navegados. E, sempre antes de cada partida, os aventureiros genuínos terão estudado no detalhe cada experiência anteriormente frustrada.

Para os que levam vidinha mansa como eu, sem necessidade de grandes emoções físicas, vale observar até coisas frugais, como o melhor horário de ir à praia, por exemplo. Os médicos dizem que convém evitar o período concentrado entre as dez e as 16 horas. Eles podem até ter razão, mas esses médicos de hoje em dia não são mais do que comerciantes e muitas vezes estão a serviço dos laboratórios e das multinacionais. Quem se lembra de quando eles recomendavam comer margarina? E de quando falavam mal dos ovos? Ora, qualquer homem antigo sabe que a combinação do leite que faz a manteiga com os ovos que a galinha bota nunca fez outra coisa se não bem ao corpo e ao espírito do homem. Sobre margarinas não podemos ter segurança nem sobre sua matéria prima. Esquece.

Porém, sobre o melhor horário de ir à praia vou concordar com os doutos, mas antes pelo calor insuportável que tem feito do que pela chance de agredir a pele nesse trecho do dia.

Abro parênteses para meter um poeminha do Vinícius que o Chico recitou na abertura da primeira Flip: Quem foi, perguntou o Celo/Que me desobedeceu?/Quem foi que entrou no meu reino/E em meu ouro remexeu?/Quem foi que pulou meu muro/E minhas rosas colheu?/Quem foi, perguntou o Celo/E a flauta falou: Fui eu.//Mas quem foi, disse a Flauta/Que no meu quarto surgiu?/Quem foi que me deu um beijo/E em minha cama dormiu?/Quem foi que me fez perdida/E me desiludiu?/Quem foi, perguntou a Flauta/E o velho Celo sorriu.

Voltando ao cerne da proposta, eu evito esse trecho do dia obedecendo antes aos sábios do que aos médicos. Mas como reconhecer os sábios? Simples: sábio é todo aquele que vive socialmente desobrigado; ou seja: aquelas figuras que fazem o que bem entendem, sem se preocupar com a opinião alheia; notadamente os velhos e os cachorros. Façam uma operação pente-fino nas areias escaldantes de qualquer praia e tudo o que vão encontrar são hordas de gente mui concentrada em “zuar pra valer com a galera, numa balada louca e incrível, uhu”. Os velhos e os cachorros sabem que os bons momentos da natureza serão também os mais bonitos, e vão preferir aproveita-los em sintonia com o Criador, à alvorada ou ao crepúsculo.

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Só me espanta o fato das praias continuarem vazias ao luar. É muito raro um cenário tão bonito quanto o de uma praia ao luar, com a prata da lua refletindo no suingue das ondas. Por outro lado, com muita gente esta beleza não poderia ser absolutamente contemplada. Ontem, debaixo dessa lua linda ou, antes, ao lado dessa lua linda que despontada por detrás da Ilhabela, eu passeava com a Una pelas areias frescas e – com o perdão do pleonasmo Tupi, – cantantes de Juquehy. Andamos para um lado, depois para o outro, e não encontrei ninguém. A Una em compensação, muito excitada com o passeio, além dos siris de sempre encontrou um casal de meninas, que lhe fizeram festinha e chegaram a trocar algumas ideias, como que para saber onde era a casa dela ou onde estaria seu dono. Quando perceberam a minha presença, ou o meu vulto, procuraram recompor as poucas vestes num misto de acanhamento e repulsa.

Foi então que este humilde bloguista, que se quando inveja os velhos serve-se do tempo para consolo, lamentando a condição humana se deu conta que seu mais novo e profundo desejo para a próxima encarnação é nascer cachorro – e de madame.



Escrito por Léo Coutinho às 21h18
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Mercado de valores emocionais

Há no Brasil um ditado muito cafajeste que é passado de pai pra filho com todo chiste da irresponsabilidade – e comigo não foi diferente. Desde pequeno ouço meu pai dizer: - “Meu filho, passar mulher para trás é fácil; difícil é passar pra frente”. Se dependesse da razão, o ditado estaria absolutamente exato. Mas nem sempre é assim: na maioria das vezes nesses assuntos quem manda é o coração, anulando o dito.

A menos que o distinto não seja chegado a banhos diários, com o mínimo de frieza e cálculo ele poderá apanhar mulher feito desconto em fim de feira. E, da mesma maneira fria e calculada que pegar, poderá se livrar delas assim que enjoar. Basta observar o comportamento humano.

É curioso como sempre corremos atrás daquilo que nos foge. Talvez venha da luta pela sobrevivência, pela garantia de reservas, de ter um pouco guardado para o inverno; mas fato é que costumamos desprezar – ou no mínimo descuidar – de tudo aquilo que está garantido.

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A casa dos seus sonhos, quando conquistada, passa a ser realidade e perde um pouco do encanto. Então você vai querer botar uma obra de arte dentro dela, que vai emocionar no começo, mas não que retarde a vontade de ter uma segunda – que você vai comprar, e assim por diante, até que, depois de cinquenta anos, você vai olhar para a primeira e descobrir que não precisava de nenhuma das demais.

Afastando a modéstia confesso que gostei da metáfora artístico-imobiliária do parágrafo anterior, apesar dela ter desviado meu raciocínio. Eu ia dizendo que a gente costuma buscar o que nos foge e descuidar do que está garantido, para emendar que, usando a razão, seria muito mais fácil simular desinteresse para conquistar uma menina e, depois disso, em caso de saturação, cobri-la de mimos e atenção exagerada até que ela estivesse completamente sufocada e fugisse para respirar em outra praça, liberando a sua para uma nova presa. Perfeito? Só para os canalhas.

Os românticos podem até aprender com os erros, mas nunca vão deixar a dureza da razão sobrepor-se aos caprichos do coração. As pessoas românticas quando se apaixonam ficam aflitas para dividir toda a maravilha do sentimento com o par, e se, com receio de parecerem frívolas ou loucas elas decidem adiar a revelação, o sofrimento é enorme, desregula a pressão arterial, intestino, apetite, sono, sede, tudo.

Por essas e outras é que os seres calculistas parecem tão serenos, equilibrados, civilizados: eles sofrem menos. Mas a vingança do lado emotivo da humanidade é que, em compensação, nós amamos mais e com mais intensidade.

Quando uma paixão acontece é muito comum que ela esteja desequilibrada, e que siga assim, adernando, feito barco em início de cruzeiro, ora para um bordo, ora para outro, até encontrar seu prumo e ponto de equilíbrio, tornando o passeio delicioso para os tripulantes. Há quem acredite que as intempéries do começo contribuem muito para o entrosamento da galera e derivam em maior estabilidade para enfrentar os mares grossos e nevoeiros da vida. Pode ser. Mas só vou concordar com quem aceitar que nada pode ser mais bonito do que um casal que se apaixona e se entrega à primeira vista. Essas paixões podem até durar pouco, e é bom que seja assim: caso contrário eliminariam a vida na Terra, matando toda a humanidade de inveja.



Escrito por Léo Coutinho às 22h17
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A cidade e as águas

Crônica publicada no Portal Onne em 05.02.2010

 

www.cesargiobbi.com.br

 

Durante uma das chuvas que vem encharcando São Paulo nos finais da tarde, uma amiga deu o alarme na internet: “O Itaim Bibi já está alagado! imagina os outros bairros como estão...”. O caso dela é típico do paulistano que, apesar de bem nascido e bem criado, não tem noção do que é a própria cidade. É, talvez, um fenômeno da geração que foi criada numa cidade já toda construída, e que por isso não percebe os aspectos geográficos de onde mora.

 

Como eu converso muito com gente antiga, acho graça e gosto de ouvir coisas do tipo: “Eu tinha uma namorada que morava naquele morro em frente ao hipódromo de Cidade Jardim”. Para os mais velhos, o Jockey Club fica na Rua Boa Vista e o bairro com aqueles casarões que a gente chama de Cidade Jardim era só um morro recém descoberto pelo mercado imobiliário. As ruas eram de terra e ainda havia horizonte. Por isso eles reconhecem e sabem onde é alto, onde é baixo, onde passam os rios e os córregos.

 

Para entender a cidade e conhecer os melhores bairros sem dar bola para modismos da especulação imobiliária é preciso acompanhar a história de seu crescimento. Sabe-se que tudo começou com a construção de um colégio jesuíta onde hoje fica o Pátio do Colégio; e é claro que não foi à toa que o Manuel da Nóbrega e o José de Anchieta escolheram o local, que por sinal, era perfeito: o topo de um morrote entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí. Quer dizer: acesso fácil à água de beber, banhar, cozinhar, navegar, pescar e plantar nas terras férteis do vale, mas no alto, protegidos das cheias e dos

ataques dos índios.

 

Ficheiro:Antônio Parreiras - Fundação de São Paulo, 1913.jpg


Depois de quase duzentos anos, quando finalmente vila começa crescer e se transformar em cidade, os lugares altos continuavam sendo os preferidos. Embolando a cronologia para ficar no centro expandido, lembro do Bexiga, Bela Vista, Perdizes, Pacaembu, Santa Cecília, Higienópolis. Este último, aliás, dizem que foi batizado assim por ter acontecido logo após o primeiro alagamento do rico Campos Elíseos, que se por um lado era bom por ser plano e ficar próximo da estação de trem, revelou-se mau negócio por alagar e espalhar doenças pela água parada. Daí que todos queriam um bairro higiênico.

 

O auge – literalmente – da distinção em morar veio no fim do século XIX com a abertura da Avenida Paulista. No ponto mais alto da cidade e projetada por engenheiros destacados, entre eles o uruguaio Joaquim Eugênio de Lima, foi a primeira via asfaltada de São Paulo e havia um gabarito rígido para construção das moradias, que assim tornaram-se todas palacetes.

 

Quando o progresso dobrou a serra em direção ao rio Pinheiros surgiram novos bairros, como Cerqueira César, ainda imune às enchentes mas que em compensação sofre com as corredeiras que se formam em dias de chuva forte. Se a gente imaginar que essa água toda desce o morro da Paulista em direção à várzea do Pinheiros – este que por sua vez também enche e deixa de ser absorvente – entende porque o Jardim Europa e o Itaim Bibi são os primeiros a transbordarem quando chove: são e sempre foram brejos, pântanos. O primeiro, que ainda teve o privilégio de ser planejado e contar com vasta área permeável, sofre menos. Mas o outro, que cresceu na base do improviso e quase não tem área verde, sofre mais.


A gente já deveria ter aprendido isso faz tempo, mas inacreditavelmente permanece insistindo nos erros. O Jardim Pantanal, que está alagado há dois meses, carrega a dica no próprio nome. Porém, ninguém que mora lá contratou um corretor de imóveis e vacilou entre as melhores alternativas antes de decidir pelo bairro. Simplesmente se arranjaram como puderam e merecem a solidariedade da sociedade e atenção especial do Poder Público. Já quem decidiu investir em imóveis na região da Berrini – que é um dos mais recentes atentados à nossa cidade, prova cabal da sanha financeira do mercado imobiliário que constrói sem planejar nem respeitar a natureza –, tem mais é que saltar do jipão blindado, molhar as canelas e voltar para o quadragésimo andar do prédio de escritórios a pé, já que aquelas ruazinhas bucólicas não foram feitas para tantos carros – e que não se esqueçam de botar o chapéu de burro e sentar de castigo olhando para um canto de parede até a chuva passar.



Escrito por Léo Coutinho às 19h59
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No balanço da vida

Se eu cheguei até aqui, quer dizer, alimentado, educado e com teto para morar, foi em função do turismo, porque foi vendendo viagens que meu pai – e, por um período, minha mãe – ganhou o pão. Os dinheiros que eu mesmo ganhei na vida quase todos foram tragados pela Operação Bartira. Não, apesar de sonhar em poder viver como um João Ramalho, não pertenço a nenhuma ONG de defesa da cultura indígena: a Operação Bartira é antes um trocadilho – tudo o que eu ganho, o bar tira.

Talvez em respeito ao ditado que reza “casa de ferreiro, espeto de pau”, eu não tenha o hábito nem o gosto de viajar. Vai ver que todas as viagens feitas pelo meu pai acabaram me cansando por tabela. Tanto faz: fato é que eu não gosto nem me interesso por esses passeios curtos que as pessoas chamam de viagens. Cinco dias numa cidade para mim se traduzem em cansaço puro e nenhum envolvimento, que afinal é o que interessa: permanecer, comprar no mercado, frequentar a padaria, ir diariamente à banca de jornal, gastar um, dois, dez dias no mesmo banco de praça. Para mim isso é uma viagem – o resto é passeio.

O Saul Galvão uma vez disse que, quando jovem, imaginou que gostasse de ir à Europa. Depois, mais maduro, percebeu que gostava mesmo era da França. Morreu com a certeza que era de Paris que ele sentia saudades. Eu emendaria que o ideal seria ficar um ano em Paris, para ver todas as estações. Mas como isso é difícil para a maioria das pessoas, que a viagem durasse pelo menos um mês e que se repetisse ao longo da vida.

As viagens e todas as coisas estão para mim como os livros para o Nelson Rodrigues, que debochava do leitor de dez mil livros, dizendo que a primeira leitura é a releitura. Para ele, bastava devorar e ruminar Shakespeare e Dostoievski – “todo espírito humano está nas duas obras”.

Eu também gosto dessas obsessões, da fidelidade que faz as coisas consistentes. Gosto de ir aos mesmos bares, saber o nome dos garçons – e espero que eles saibam o meu. Quero ser fiel ao barbeiro, ao engraxate, ao jornaleiro, ao rapaz da banca de peixes na feira. Quero toda a intimidade de um caminho, sofrer no dia em que ele perder uma árvore, folgar quando taparem-lhe os buracos, participar de sua existência, testemunhar sua vida e seu tempo.

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O homem que galinha nunca vai ter um prato predileto, uma referência de filet au poivre. A freguesia do blog acha que eu vou muito ao Bar da Dona Onça, mas nem desconfia que eu gostaria de ir muito mais. É lá que está o meu filet au poivre definitivo. Ontem comi o do ICI Bistrô, que estava bom, mas a sensação de estar traindo o meu grande amor foi brutal e me fez jurar que nunca mais comeria outro fora do Copan.

Qual é o significado dessas viagens de 15 países em dez dias? Doze praias em um feriado? Podem reparar que as histórias mais ricas, mais profundas, estão nas lembranças de quem foi e ficou no mesmo lugar, com as mesmas pessoas. É preciso permitir que as cidades entrem na gente; não basta passar por elas.

Entre as pessoas a importância da fidelidade é ainda mais grave. Não é outra coisa se não a essência de tudo. Primeiro é importante ser fiel a si mesmo; depois buscar se dedicar aos amigos e ter um amor para a vida toda. Claro que o ideal é quase sempre utópico, mas quando não puder ser assim, que seja próximo, isto é, que se exerça introspecção, amizade e amor individualmente e com toda atenção. Que a nossa história pessoal e na relação com as outras pessoas seja atenciosa e consistente, vivida em sua plenitude, com intimidade de cheiros, sabores, sensações. A lembrança exata do gosto de um beijo; nome e sobrenome de um perfume que passa; o DNA de um cochilo profundo embalado com cafuné. Cada vez mais tenho certeza de que no fim da vida este será o nosso tesouro.



Escrito por Léo Coutinho às 22h53
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O oficial da Força Pública

Hoje o Estadão avisou que o governador José Serra quer que a Polícia Militar volte a se chamar Força Pública, como era, afinal, antes do golpe militar. Para mim a ideia é muito boa. Acho mais bonito e mais sonoro e mais simpático o nome antigo, pela própria força que já estando no nome amenizará a agressividade típica de qualquer ser humano que adquira título de autoridade e, indo além, temos a simpatia do nome público, que traz uma noção de integração com a sociedade.

 

Outra coisa que me contempla na proposta é a sensação de tradição que vem. Gosto de histórias antigas e principalmente de palavras, expressões e gírias de outras épocas. Não sei porque elas me divertem. Talvez seja pela força que a faz resistir, talvez porque revele algo da personalidade de quem usa, enfim.

 

A avó de uma amiga morreu insistindo em chamar tênis de sapato de tênis. Não é gostoso? E o Luciano Fleury, que ainda trata office-boy de estafeta? O Paulo César Peréio acredita que água mineral dá pedra nos rins e pede para o garçom trazer água da bica (da torneira). Para o meu pai viatura pequena ainda é baratinha, como já era no tempo da Força Pública.

 

E o Julinho Toledo Piza então, para quem a própria PM ainda é Força Pública? Um dos muitos casos que ele conta envolve um oficial da Força Pública, que teoricamente pode ser imaginado como um dos policiais militares que a gente vê na rua, mas dito assim: Oficial da Força Pública, aos ouvidos do interlocutor o homem vai parecer fisica e moralmente maior.

 

Além do oficial o caso ainda conta, é claro, com um bêbado amigo freguês do Bar do Museu. Este bêbado era casado nos Jardins, mas namorava no Jabaquara com uma aeromoça de vinte e poucos anos que vivia num sobrado com a mãe e o pai, que era justamente o oficial da Força Pública.

 

 

O bêbado sabia que a Angélica – este era o nome civil da aeromoça – pousaria em Congonhas na manhã daquela sexta-feira e que naturalmente tiraria a tarde para descansar um pouco depois de almoçar com os pais e antes de embarcar novamente na última ponte-aérea, e planejou o seguinte: “passo no fim da tarde para apanha-la, levo para uma alegriazinha num hotel da Rubem Berta e entrego no aeroporto na hora combinada”. Tudo certo, se não fosse aniversário da mãe da comissária de bordo, que fazia questão de exclusividade naquele dia. Assim, no telefonema em que eles expôs o plano, ela lamentou muito, mas explicou que ambos teriam que sofrer mais uma semana de saudades, quando ela estaria de volta e seria toda dele. É claro que o homem, frustrado, não aceitou a negativa. Já tinha organizado tudo, até um alvará com a matriz – e em plena sexta-feira! Mesmo assim ela se manteve firme, cerrando fileiras com aquelas frases de desculpas que só fazem aumentar o tesão: - “Lindo, eu também te quero muito, estou doidinha de saudades e de vontade de você minha paixão, mas o espeto é que é aniversário da mamãe... vê se me entende, amor”.

 

Inconformado, durante a tarde em que ficou bebendo no Clubinho ele ainda tentou, por várias vezes, dobrar a namorada com telefonemas antes carinhosos, depois algo malcriados e por fim, já completamente bêbado, desesperados, constrangendo toda a família do oficial da aeromoça numa época em que não havia telefone celular e que qualquer um poderia atender a uma chamada.

 

Sem poder ir para casa e ainda com esperança de um encontro o bêbado deixou o bar e foi bater no sobrado do Jabaquara. Já passava das dez da noite e a família austera se preparava para dormir quando a campainha disparou. Quem atendeu à porta com seus quase dois metros de altura foi o oficial da Força Pública, dando início ao seguinte diálogo:

 

-          Pois não?

-          Boa noite, sargento... A Angélica está?

-          Está se preparando para ir ao aeroporto e não pode ser incomodada.

-          Que isso, chefe? Fala que sou eu...

-          Olha aqui, meu senhor, sei de sua relação com a minha filha, mas isso não lhe dá o direito de aparecer sem aviso, neste estado e a esta hora da noite. Por favor retire-se e só volte em horário adequado e melhores condições. Agora me de licença.

Dito isso, deu as costas e bateu a porta, enfurecendo o bêbado, que disparava a campainha e gritava pelo nome da namorada, em vão: quem saiu foi o oficial:

-          O senhor não tem noção do que é uma casa de família, do que é um lar?

-          E o senhor, sargento?, reagiu o bêbado indignado, pensa que está falando com quem? Pois pergunte à sua filha: eu sou casado há mais de vinte anos e pai de quatro filhos!

 

Foi o bastante. Levou uma bordoada e dormiu na calçada, sem conseguir ver a namorada.



Escrito por Léo Coutinho às 18h17
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Binho Ometto transformou Billy Wider em profeta

Este fevereiro começou com algumas coincidências. A primeira, logo pela manhã de hoje (ontem), quem observou foi a Tize Novaes, sempre atenta e sagaz: o palíndromo na data: 01022010. Logo em seguida, no meio da tarde, os blogs de economia anunciavam o acordo entre a Cosan e a Shell, formando uma empresa de US$12 bilhões com faturamento inicial de US$ 21 bi. Desses números o máximo que eu alcanço é o segundo palíndromo: 12-21. No mais fico ignorante e deslumbrado como a Marilyn Monroe do Quanto Mais Quente Melhor, que com um colar de diamantes entre as mãos suspira: -“Uau! Devem valer seu peso em ouro”.

 

Sou um sujeito modesto. Nunca vou entender como um nego sozinho consegue ter tanto dinheiro. Quando a Mega Sena acumula e diz que vai pagar mais de dez milhões eu já fico nervoso e paro de jogar. Sabe-se lá o que seria de mim com essa dinheirama nas mãos. Nos meus sonhos mais atrevidos levo a mesmíssima vida que tenho hoje com salário de operário, anulando só a parte de ter que trabalhar.

 

Por essas e outras é que não entendo esse Binho Ometto, dono da Cosan. Mas veja bem, freguesia: não entendo, mas admiro. É um trabalhador do Brasil, assim como um bóia-fria que cortasse cana numa fazenda, e esse esforço do homem para ganhar o pão sempre me emociona. Minha surpresa é que ele continue trabalhando já tendo tanto pão. Sei que um país precisa de gente assim, mas no lugar dele eu pegava a minha parte e me pirulitava para um ranchinho de pé de serra, onde teria uma roça recatada de cana caiana e umas meninas mudas e dóceis para fazer boa cachaça e companhia e que, de vez em quando, depois do almoço, me olhassem de soslaio envergonhadas de seus pensamentos enquanto estendiam a roupa úmida no fio do varal.

 

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Mas como a minha ignorância nada tem de interessante, voltemos às coincidências. Com a notícia a primeira lembrança que me veio foi outra cena da Marilyn Monroe no Quanto Mais Quente Melhor, que é uma das minhas prediletas e antecipa o grande negócio: Tony Curtis passeia na areia fria apanhando conchinhas com ar de milionário entediado para atrair a atenção da Marilyn, que cai feito uma pata e, num misto de sensibilizada com o tédio e interessada nos milhões do moço, vai puxar assunto e tem que ouvir do malandro: - “Eu gosto de catar estas conchas... elas me lembram a marca da firma do papai...”, e em seguida se apresenta como Júnior Shell. Esse golpe para mim parecia tão singelo quanto absurdo, sublime pela própria crueza. Mas não é que 50 anos se passam e a gente vê que, de repente, um brasileiro, tão próximo da gente, pode ser sócio da Shell? E a cereja do Manhattan – que a Marilyn adora no filme: o nome da personagem dela é Sugar-Kane (cana de açúcar). Quer dizer: Binho Ometto transformou Billy Wider em profeta.



Escrito por Léo Coutinho às 18h03
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Loucura, dinheiro e amor

Vira e mexe piadas que já caíram em domínio público ganham suporte científico. Aquela do Barão de Itararé, portanto com mais de meio século de idade, que ensina que o ladrão é o cleptomaníaco pobre e que o cleptomaníaco é o ladrão rico é a mais recente, e quem avaliza é o psicólogo americano Jerome Kagan, entrevistado da revista Veja desta semana.

 

Segundo ele, “o melhor indicador de doença mental, de qualquer doença mental, é a classe social, não os genes”, e o que parecia deslumbre de grã-fina ou arrogância de novo-rico passa a ser reconhecido pela ciência.

 

Eu tinha um motorista chamado Reginaldo, que dizia que “dinheiro não traz felicidade: manda trazer”. Eu não sei, porque nunca tive, mas acredito que até pode até ser. Porém, o caminho mais seguro para ter um dinheirinho é trabalhando, e trabalhar já é uma tristeza. Pior: depois de trabalhar tanto e juntar muito dinheiro, o homem vai buscar para si coisas que dão ainda mais trabalho, como casa de veraneio, barco, avião e empregados, muitos empregados. Fora a papelada que tudo isso envolve, cartório, manutenção... Deus me livre!

 

De cada dez conhecidos realmente ricos que eu tenho pelo menos oito são problemáticos. E como o dinheiro é a coisa mais fácil de se identificar em alguém, e principalmente se esse alguém fizer questão de deixar claro o quanto possui, somos levados a crer que os problemas mentais derivam do vil metal. Bobagem. Literalmente bobagem. Bobos e preguiçosos que somos, não percebemos que a principal semelhança entre a gente rica e triste está no nível cultural, não no monetário.

 

Os ricos que vivem contentes e satisfeitos são os de inteligência emocional mais elevada, que sentem prazer de verdade comendo, bebendo, viajando, estudando, conversando, contemplando arte e, nos casos mais elevados, a natureza. E o mais engraçado é que para levar uma vida assim ninguém precisa de muito dinheiro e, melhor, não vai ter muito trabalho.

 

Por outro lado é claro que a soma de todo esse exercício de bem viver vai deixando o nego mais sofisticado, e apesar de ele saber se refestelar com uma leitoa caipira com couve frita e tutu de feijão num boteco do interior do estado, de vez em quando vai sentir saudade de um porquinho espanhol, aquele da pata preta, que custa um pouco mais caro. E por ele, só por ele e por coisas que o valham é que vale a pena a gente sair da cama para ganhar o pão de cada dia.

 

Recentemente tive um dia ingrato, muito mais por motivos químicos ou espirituais do que pelas reais circunstâncias do momento. Mais do que tudo dar errado, senti que era eu o incapaz de fazer as coisas certas, e além de me aborrecer percebi que estava descambando para descontar em pessoas caras para mim; mas antes que isso acontecesse fui tratar o muxoxo lá em casa.

 

Cheguei, tomei um banhão, meti uma cueca velha e fui para a cozinha. Abri um pacote de Pata Negra, fritei três ovos caipiras em manteiga clarificada e, depois de uni-los em um prato, finalizei os ovos com flor de sal e ambos com azeite trufado. Tudo presente da última viagem de meu pai e regado pela champanhe que sobrou da ceia de Natal na geladeira da minha mãe. Quer dizer: eu não suei para ter nenhum desses prazeres, mas reconheço através deles a importância de andar com minhas próprias pernas para um dia, quem sabe, transmitir o legado que recebi de meus pais com a mesma categoria para um filho que seja meu.

Dinheiro e amor por esta janela são muito parecidos. Se luxos singelos desse tipo são a única justificativa para o homem sofrer um pouco mais no trabalho e ter algum dinheiro extra, todos os contras do casamento, como jantar em casa todo dia, ver multiplicada a despesa, aturar choro e outros barulhos de criança devem ser facilmente compensados pelo amor que se sente pelos filhos e pelo olhar da menina que vier a ser a mãe deles.



Escrito por Léo Coutinho às 18h35
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Seis cafajestadas

Paulo César Peréio está na casa do Kim Esteve aproveitando o convescote quando uma jovenzinha, sua fã, começa provoca-lo com um jogo de sedução. Para depois não dizerem que houve falta de aviso, ele se antecipa as possíveis consequências: - “Escuta aqui, minha filha, não brinca comigo: já fui expulso de suruba por mau comportamento”.

Paulinho Imperial está no sofá vendo um filme com uma namorada, e de repente solta um daqueles puns de despertar cachorro. Como a menina se assustasse e ensaiasse um movimento de se levantar, ele tenta acalma-la: - “Fica fria, benzinho: cão que late não morde – perigosos são os silenciosos”.

Helito Bastos chega a uma feijoada na Marina Ondas do Una. No violão está o músico Celso Miguel, que diante do amigo observa: -“Helito querido, acaba de me ocorrer que a gente se conhece há 40 anos e esta é a primeira vez que eu te vejo de dia!”

Carlos Viacava comprou uma casa do Julinho Toledo Piza no bairro do Planalto Paulista. Depois de uma reforma breve, resolveu inaugurar o chateau com uma feijoada, e ligou para convidar o amigo e antigo proprietário:

- Julinho, vamos inaugurar a casa no sábado e contamos com a sua presença.

- Obrigado, mas eu não vou poder ir, Vavá – respondeu o Julio.

- E por quê não?

- Porque você mora longe!

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Michel Tuma Ness enfrentou uma crise conjugal e se mudou para o Maksoud Plaza até as coisas se acalmarem. Depois de uns dez dias, dona Fátima telefona para discutir a relação e eles combinam que o melhor lugar para a conversa seria o próprio hotel, livre das interferências do lar. Mas antes que ela chegasse, ele traça um plano com a gerência: a cada quinze ou vinte minutos um camareiro chegaria com algum mimo, bebida ou quitute, a título de cortesia e sem que fosse necessário solicitar. E assim o papo foi sendo interrompido: “Seu Michel, prove estes coquetéis que o nosso barman inventou.” Outro: “Seu Michel, experimente estes queijos que o nosso fornecedor entregou hoje.” Mais um: “Seu Michel, veja que beleza de camarões acabamos de receber, o chef preparou do jeito que o senhor gosta, e o sommelier harmonizou com esta champanhe”. No final da conversa, quando a dona Fátima já tinha dito tudo o que queria, ele respondeu: - “Você sabe que eu te amo, querida, e gostaria de voltar para casa, mas veja só o jeito que eles me tratam por aqui...”



Escrito por Léo Coutinho às 23h23
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Casos de Julio Cesar

O Julinho Toledo Piza só não é cronista porque não quer. Ou, por outra, é cronista e dos bons, mas curiosamente não tem o hábito de escrever. Em compensação, está sempre disposto a transmitir com graça e bossa os detalhes que observa pela cidade.

Do tempo de mercado financeiro ele tem duas ótimas. A primeira observada no estacionamento do Jockey Club da rua Boa Vista: era um vendedor de bilhetes de loteria que desenvolveu uma técnica de venda bastante particular e infalível. Ele anotava as placas dos carros dos associados e corria na lotérica para comprar bilhetes com a mesma numeração. Mais tarde, voltava ao estacionamento, abordava o freguês e dizia: -“Doutor, veja que coincidência: os bilhetes de hoje têm os mesmo números da placa de vosso automóvel.” Quem resiste?

Outra é da porta da Bolsa, se não me engano da Praça Antonio Prado, onde ficam os coretos de engraxates. Lá, todo dia que anunciava chuva encostava um camelô de guarda-chuvas, que respeitando o ambiente monetário inflacionava o valor das peças conforme a água engrossasse. E o Julinho com sua alma de cronista ficava da cadeira, engraxando ou não os sapatos, mas observando o vendedor. Até que um dia o toró foi daqueles brabos e súbitos, um pirajá como dizem os marinheiros, pegando a todos desprevenidos, e o homem vendeu muito e pelo preço que quis. Mas assim como veio, a chuva se foi e o céu voltou azul. E o camelô, decepcionado, de braços abertos e olhando para o céu reclamou com São Pedro: - “Parou por que; por quê parou?



Escrito por Léo Coutinho às 15h00
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O mapa das cantadas

Crônica publicada no Portal Onne em 29.01.2010

 

www.cesargiobbi.com.br

 

 

Na toada da última crônica, volto ao tema dessa instituição brasileira que é a cantada. Nos últimos anos muitas delas, as instituições, foram abaladas e desrespeitadas. Porém a cantada permanece inabalável e o repertório da brava gente só faz crescer, feito buraco em dia de chuva.

 

A beleza da cantada está em agradar a todos. É um tipo de frescobol social, onde todos saem ganhando, independendo do resultado. O moleque que se atrapalha e, emocionado, engasga na hora, perdendo o timing, tem sua graça. A moça que se põe ofendida também, porque a gente sabe que ela vai se divertir dali a pouco, dividindo a passagem com as amigas. E se de tão ofendida ela devolver com um tapa na cara ou a clássica bolsada de beata, então, levará a malandragem ao delírio. Mas a medalha de ouro, o primeiro prêmio do cantador é o sorriso encabulado que não resiste e abre, inundando de sangue as faces da menina; é a glória!

 

Mulheres gostam tanto de cantadas quanto de bolsas e sapatos. Estes podem levantar a estatura física e social de qualquer garota, mas o moral só uma cantada certeira – que ainda leva a vantagem de ser gratuita.

 

Há muitos anos, para fugir do mulherio estressado com os preparativos para a ceia de Natal, uns turcos combinaram de passar a manhã e a tarde do dia 24 de dezembro no Pandoro, felizes e tranquilos na fiel companhia dos cajus e dos amigos, num ambiente quase que exclusivamente masculino, visto que quase todas as mulheres da cidade estavam assando perus e fritando rabanadas. E como nessas reuniões homossexuais (no sentido de reunir um só gênero), seja de homens no botequim ou mulheres no cabeleireiro, os assuntos e o comportamento tendem a permissividade, a imprudente e desavisada entrada de uma menina no salão era recebida com vivas, aplausos, assobios e toda sorte de elogios. Também convidavam para entrar as bandinhas de marchas natalinas e carnavalescas e alguns traziam os próprios anões, para servir como duendes de Papai Noel.

 

O encontro virou tradição e hoje os filhos dos fundadores chegam a encomendar camisas bordadas com o jargão oficial: “Só Japonesa”. É uma cafajestada só que coroa as festas de final de ano extraordinárias, que a partir do Natal passam a ser dedicadas à família. Mas o importante dizer aqui é que a notícia se espalhou e hoje muita moça que não atingiu a meta da dieta para o verão dá uma passadinha no Pandoro para enfrentar a turba ignara e levar uma sacudida na auto-estima.

 

Fora de época elas também têm suas manhas. Conheço meninas lindas e elegantes que de vez em quando vestem uma saia mais curta e vão desfilar no Vila Country, só para ouvir as gentilezas dos peões de boiadeiro. Uma delas se orgulha de ter sido laçada, literalmente, por um dos vaqueiros da Água Branca.

 

As cantadas de peão, devo reconhecer, são realmente as melhores. Uma cantada deve ter qualquer coisa de rústica, uma gabolice qualquer. Um imortal da Academia Brasileira de Letras, de dentro de seu fardão, disse assim para a copeira que servia o chá: - “Ah, Capitu!, ainda me afogo na sua ressaca...” Esta é a alma da cantada. E quanto mais ignorante o autor, mais singela será a corte. Vejam algumas colhidas da coleção do peão de obras do Facebook: “O quê esse bombomzinho está fazendo fora da caixa?”; outra: “Suspende as fritas que o filé já chegou”; e ainda: “Bonitas pernas. A que horas abrem?”


 

Mas se engana aquela que acha que qualquer peão poderá levantar o seu espírito. Percebi isso na quarta-feira, passeando pela Vila Olímpia. Para quem não conhece, este é um bairro paulistano que se destaca pela curiosa concentração de dois tipos de serviço: oficinas mecânicas e butiques de modista. Tanto de um lado, quanto do outro, há para todo gosto: alinhamento, biquíni, funilaria, lingerie, escapamento, bijuteria. E a brutalidade dos peões de oficina só encontra a delicadeza das modistas num dos endereços mais antigos da Miguel Calfat, que é a Prochaskar, hoje tocada pela Cláudia e pela Káti, mãe e filha que sabem tudo de ar-condicionado – para qualquer outro serviço automotivo procurem a Oficina 77, dos irmãos Mello.

 

Abro parênteses para falar da minha relação sentimental com a Prochaskar: meu primeiro carro foi um Uno Mille com ar-condicionado. Naquela época carro popular não tinha essa possibilidade, mas como a primeira dona fora casada com o meu amigo Nico Prochaska, ele ganhou o conforto acessório. Chamava-se Ana Tereza Bardella. O Uno não subia a ladeira da Ministro Rocha Azevedo, mas nem nas nuvens eu estaria melhor do que no estofado onde um dia ela se conchegou.

 

Mas o que eu queria dizer é que no homem, como cantou o Noel, “o costume é a força que fala mais alto do que a natureza”, e que de tanto ver mulher bonita e bem vestida passeando pelas calçadas, o padrão da peãozada da Vila Olímpia alcançou a estratosfera. Enquanto as meninas caprichavam o gás no carro, aproveitei para enfrentar uma feijoada na João Cachoeira. Fiquei lá, enrolando couve e espetando paio enquanto via o desfile sublime das meninas na calçada. Por três vezes quase acabei engasgado. Mas sozinho: de tão acostumados, os caras só torcem o pescoço se a moça for daquelas de fazer português errar na conta. Por isso, meninas, cuidado: o moral vocês vão levantar na Avenida Santo Amaro ou na Duque de Caxias. A Vila Olímpia, com o perdão do trocadilho, foi feita para as deusas.




Escrito por Léo Coutinho às 13h13
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A era dos descartáveis

Na era do descartável, pouca coisa nova promete se perpetuar na vida das pessoas. A coluna da Mônica Bérgamo da Folha de domingo trouxe essa discussão, mas pendendo para o lado da moda. Segundo uma especialista entrevistada só existem três criações eternas: o xadrez da Bueberry, o lenço do Hermès e o vestido tubinho preto, cuja autoria ela disse indefinida, contra todos que acreditavam ser da Coco Chanel.

 

Enfim, apesar de não entender de moda tenho um instinto apurado que me faz gostar de coisas que só depois eu vou saber que são boas ou reconhecidas pela qualidade – e, em geral, muito caras. À lista da entrevistada eu somaria muitas coisas: Ray-Ban aviador, chapéu panamá, camiseta branca, jeans cinco bolsos (paciência), a lona com os múltiplos monogramas do Louis Vuitton, gravata azul de petit-pois. Isso só na lista da moda, que se a gente for pensar, ainda está pequena.

 

Outras obras fantásticas do design para nivelar o papo: clipes, grampo de cabelo, palito de dentes, algema, palito de fósforo, Cotonette, canivete Victorinox, caneta Bic, Colt .45.

 

Existem carros que são clássicos e que continuarão sendo mesmo quando todas as cidades do mundo forem lugares livres do transporte individual. Fusca, Porsche, Jaguar e jipe Willis para citar quatro desenhos que emocionam até o sujeito mais desinteressado.

 

Na literatura há um caso curioso, que me lembro agora por ter ouvido em um filme: pouca gente ainda lê os clássicos. Você, freguês ou freguesa, está lendo o recém lançado Albatroz Azul do João Ubaldo Ribeiro ou Moby Dick? Aliás, quem escreveu Moby Dick? Porém, na casa de quem lê, sem dúvida haverá um exemplar na estante.

 

As bebidas também têm suas marcas clássicas. A maior delas é a Coca-Cola. Pode-se gostar ou não de bebe-la, mas como marca e produto todos temos que tirar o chapéu. As alcoólicas variam muito na preferência do consumidor, mas há as que viraram sinônimo do produto, e aqui a atenção cai pelas italianas: Campari, Carpano e Fernet Branca pelo menos já garantiram seu lugar na história.

 

Arquitetura: no Brasil temos pelo menos três nomes que serão reconhecidos à primeira vista até por um leigo como eu: Paulo Mendes da Rocha, Sérgio Bernardes e Oscar Niemeyer. Mas aqui ela não serve de exemplo ou, por outra, até serve, como exceção à regra do que temos: na produção contemporânea – até porque dois dos citados estão vivos e trabalhando e o Thiago Bernardes carrega o legado do avô – temos novos nomes sendo construídos com solidez incontestável, aos quais cumprimento na figura do Isay Weinfeld.

 

Isso parece que ninguém vai discutir. Duvido que alguém ainda valorize o neoclássico desvirtuado que infestou São Paulo nos últimos anos. No máximo, quem bobeou e enfiou as economias num modismo barato acreditando que seria investimento ainda não assume o arrependimento na esperança de encontrar comprador ainda mais trouxa.

 

De resto, é muito difícil encontrar um segmento que produza atualmente conceitos que vão durar. Entre os citados, talvez nenhum. Para não radicalizar, na literatura de vez em quando aparece algo sublime, que logo depois do último ponto nos dá a sensação que estarão aí para sempre. Exemplo: Memórias de Minhas putas Tristes, do Gabriel Garcia Marques. Entre os carros, todos que parecem clássicos são inspirados nos originais do passado, como o próprio Fusca. O mesmo vale para a moda e as bebidas – ou alguém acha que o cosmopolitan e os energéticos terão vida longa?

 

O caso mais grave talvez seja o dos eletroeletrônicos, que são feitos para não durar. Talvez haja aí um paradoxo, que nos emociona quando um deles chega com jeito de clássico. O iPod já entrou para a história, apesar de sabermos que ele só vai pertencer à sua época. E aquela rosquinha da JBL que serve de alto-falante para eles é um primor em design. Pro meu gosto é um daqueles acertos definitivos da mente humana.

 

Por fim, o protesto por trás desta crônica: como pode a Motorola simplesmente jogar fora a melhor coisa que já fez na história? Quem nunca teve um Pebl U6 nas mãos não sabe o que é telefone celular. Por dentro ele pode estar obsoleto, mas por fora nunca será ultrapassado. Foi o único aparelho diante do qual sofri impulso de compra na vida. O primeiro que tive durou anos e hoje está aposentado na minha gaveta. Depois comprei outro igual, que já dura mais de dois anos e agora sofreu um acidente que condenou o visor externo, mas continua na ativa, apesar do descanso merecido. Procurei o terceiro e o quarto – para estoque – na Motorola e, apesar de dizer que continuam fabricando, agora em menor escala, eles são incapazes de apontar uma loja ou sequer de vender direto ao consumidor. Haja desrespeito com a própria obra!



Escrito por Léo Coutinho às 18h01
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Linha de fundo ou os limites do jogo

Nada pode ser mais raso do que sexo sem corte. Até a velha modalidade do tacape envolvia algum frisson, a expectativa da aproximação discreta, o autocontrole necessário para o golpe certeiro, o carregar da presa em segurança até a caverna, protegida dos gaviões. E, se querem saber, mesmo o baixo meretrício requer algum namoro antes, seja oferecendo um drinque da casa, perguntando pelo nome dela e emendando que o verdadeiro deve ser ainda mais bonito, mostrando interesse em saber se ela é catarina ou gaúcha. Tanto faz. Não tem graça é ir direto aos finalmentes.

O Vinícius de Morais era louco para comer a Elizeth Cardoso, e usou toda sua poesia na empreitada. Mas o diabo é que se a morena não queria saber dele como homem, nem de longe suportaria a ideia de perde-lo como amigo; assim ia empurrando a situação conforme podia. Até que um dia, sem mais nenhuma cartada diplomática, foi se consultar com o Antonio Maria. Explicou o caso e ficou com o seguinte conselho: - “Da próxima vez que ele chegar e começar a prosa, você dá uma de louca, diz que resistiu como pôde, mas agora não pode mais; que vai dar e é pra já.” A Elizeth vacilou duvidando da certeza do plano, mas sem alternativa dançou com o par que tinha. E o Vinícius, assustado: - “Calma, minha nega, também não é assim... vamos tomar um uisquinho antes...”

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Elizeth e Vinícius

Sabe-se que as vontades da mulher nunca são expressas com clareza. Há até uma piada de internet que traduz assim os desejos delas: “não que dizer sim; sim quer dizer vou pensar; vou pensar quer dizer sim” – mas não convém confiar em nenhuma delas. Com efeito, o inverso também é verdadeiro: elas nunca vão entender o significado de uma resposta simples, do tipo: “agora não estou com fome”. Para a cabeça feminina na verdade você está querendo dizer que espera que ela prepare um sanduíche, ou que está com saudade da comida da casa da sua mãe, ou que não quer conversar, ou que está achando ela gorda, que está planejando cortar o cabelo na próxima terça-feira e que ao lado do barbeiro há um boteco que tem uma empadinha que você gosta, enfim. Porém, se na frase tiver uma ponta de ironia, como “Toda mulher gosta de apanhar”, do Nelson Rodrigues, o raciocínio fica chapado e elas saem corcoveando, sem desconfiar que, fetiches à parte, a frase é uma metáfora emocional – e exata, diga-se.

As respostas do Nelson diante da polêmica instalada foram brilhantes. Primeiro ele confirmou com propriedade: “Toda mulher gosta de apanhar. O homem é que não gosta de bater”. Em seguida, se retratou: “Nem toda mulher gosta de apanhar. Só as normais – as neuróticas reagem”.

Mas o que eu queria dizer, antes de, como sempre, ser tragado pela nossa Flor de Obsessão, era que as verdadeiras preliminares que elas tanto alardeiam como indispensáveis moram no flerte, no namoro, em uma surpresa romântica. Sei que é difícil entender alguém que goste de surpresas, mas elas são assim. Já as preliminares de fato, aquelas que todo mundo gosta, elas gostam também, e muito, mas não fazem tanta questão como em relação às preliminares do espírito.

Isto posto, o que eu vim aqui para dizer é que, se uma ponta não pode falhar, a outra também não. O golpe da dor de cabeça que a Eva inventou antes mesmo do AS infantil, que pode variar em cansaço, necessidade de acordar cedo amanhã e até “aqueles dias” – que não convencem ninguém –, quando exagerados são tão ou mais perigosos do que o abandono dos carinhos e atenções do começo da relação. É como cantou o Paulo Vanzolini: “Mulher, que se vira pro outro lado está convocando a suplente”.

O valor e as delícias da fidelidade só existem enquanto ela é natural. Isto é: enquanto o homem ou a mulher, de tão apaixonados só podem pensar um no outro. Só assim ela é legítima. Agora, para tanto, o moral precisa de uma forcinha fisiológica. Que o bom cidadão namorado de sua pequena não vá pensar que ela pode esperar desassistida por muito tempo enquanto o senhor se esbalda pelos bares da vida ou, pior, vira noites fazendo serão no trabalho. Da mesma maneira, a boa moça ciosa de seu amor, não deve insistir em manter fechadas as comportas da represa enquanto o que mais acontece é chuva lá fora, sob pena de ver o dique rompido e tudo que foi construído, literalmente, por água abaixo.



Escrito por Léo Coutinho às 19h34
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A vingança das gordinhas

Em função da semana de moda que passou um editor de revistas francês esteve por aqui e, diante do susto que a turma levou com a magreza das modelos, disse numa entrevista que às vezes procura engordar as moças no computador.

 

Agora vocês imaginem a alegria das gordinhas lendo a manchete. É a vingança! Mas como alegria de gorda dura pouco, ou só até o fim do merengue, no recheio da entrevista a coisa não era bem assim. O que o francês disse na verdade é que só mexe na imagem se as costelas estiverem saltando, e que não vê a magreza como o maior problema – este que ele atribui ao excesso de drogas, que deixa a mulherada com a cara chupada.

 

Mas eu disse que alegria de gorda dura pouco? Não é verdade. Foi só provocação. Todo mundo sabe que as gordinhas vivem alegres e contentes e, se por alguns momentos sofrem um muxoxo, é por não entrarem num vestido de festa ou nos primeiros momentos de biquíni. Depois, como toda boa gordinha, elas desencanam (ou improvisam: surpreendi uma que usava filme plástico como espartilho em dia de festa) e aproveitam a vida mandando brasa nos comes e bebes e caprichando nos assuntos de alcova, que no fim e no princípio é o que interessa. Eis a verdade irrebatível: toda gordinha é dedicada e carinhosa na hora de amar – mas só por precaução convém evitar que elas de animem a ponto de balançar no lustre ou mergulhar de cima do guarda roupa.

 

 

Enlouquecidas mesmo devem ter ficado as paranóides, que mais do que o corpo alimentam a ideia da obesidade – ou todo resto da mulherada. Tenho certeza que umas e outras já saíram em busca de um traficante que prometa um rostinho chupado, igual ao da capa da revista, enquanto sonham em parecer um peru de fim de ceia, com os ossos das coxas à vista. Alguém vai dizer que nem todas são assim. Está certo, deve haver alguma exceção. Mas a maioria, com mais ou menos gravidade, gostaria mesmo é de ter cinco quilos aquém do peso ideal. Em troca de quê? Da liberdade para comer que só a gordinha genuína tem.

 

Sobram piadas cafajestes sobre gordinhas. Uns dizem que são como pantufas: “em casa é uma delícia, mas na rua dá uma vergonha...” Outros dizem que é a melhor mulher que existe, porque “no inverno esquenta e no verão faz sombra”. Tudo sacanagem. A verdade é que nós amamos uma gorducha.

 

Gordinha tem de ser convicta. As que ficam tentando emagrecer antes de cada verão perdem o viço e perecem. Por outro lado, é claro que ninguém são vai querer, para o resto da vida, uma mulher túrgida a ponto de poder matar, esmagando com a ponta do polegar, uma pulga contra seu abdome, na imagem perfeita do Rubem Fonseca. O bom da vida é sentir que estamos passando pelo tempo, saboreando cada fase, cada estação. Quem aguentaria morar a de eterno numa casa com cheiro de tinta, calçando para sempre sapatos novos? Só aqueles que se contentam em comer uma pimenta que foi para o azeite, mas não curtiu. O bom da vida é o que a gente curte.

 

Antigamente, antes de inventarem a geladeira, as carnes eram conservadas dentro da gordura do porco, como num confit. E, com efeito, é claro que elas acabavam curtidas e muito mais saborosas. Donde se conclui que nada pode ser mais gostoso do que as carnes de uma gordinha.

 

Igual às selas de montaria, as mulheres devem ter Santo Antonio. A sela inglesa pode ser bonita, mas, no fundo, agrada mais ao esteta do que ao cavaleiro. Para longos percursos ou provas com emoção, as texanas e australianas, que oferecem onde se segurar, são as prediletas do homem. Quer coisa mais desagradável do que o osso da bacia espetando o antebraço na hora da conchinha? E que delícia se agarrar naquele pneuzinho sobre a pélvis, quando apesar de toda cama extra o homem é tomado pela sensação de queda livre...



Escrito por Léo Coutinho às 18h33
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